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saturação


Desde os anos 80 que a literatura angolana se enriqueceu pela consecução de paradigmas estéticos novos para nós. Novos mesmo para qualquer parte do mundo, na medida em que, ao modernizarmos a nossa literatura, não deixámos de fazê-lo articulados às especificidades locais, de modo a resultarem as obras num conjunto híbrido, numa mescla muito própria, tanto para os 'de dentro' quanto para os 'de fora'.
Passados estes anos, pelo próprio dinamismo dos jovens criadores, o modelo vai-se naturalmente esgotando. Não no sentido em que os seus autores mais felizes se tenham tornado epígonos de si próprios, pois a pujança criativa que revelaram mantém-se intacta, agradável e surpreendente. Mas no sentido em que, inevitavelmente, com a exploração exaustiva do modelo e a respetiva ereção em cânone, todo o candidato a poeta o segue por mera macaqueação.
Uma vez que os novos paradigmas passavam por ousadias metafóricas, implosões semânticas, gráficas e sintáticas, os epígonos confundiram isso com mero fogo-de-artifício. Começaram, portanto, pretensiosamente, a exibir metáforas estranhas, a assassinar uma gramática que não dominam, a falar em semiótica sempre que não entendem o que fazem ou lhes dizem, a fazer, enfim, uma série de esquisitices para estralejar no ar e espantar os burros. O resultado é que estamos, outra vez, a cair na produção de lixo estético, sem reciclagem nem exorcismo possível. Acrescenta-se a isso a exaustão de algo fundamental para a vida humana, o sexo, esgotado em palavras que pretendem chocar, ainda hoje, tanto tempo depois de se ter casado a estética e o despudor – casamento raro, difícil de fazer e que, levado aos seus limites, não dá mais campo para cultivar.
É uma excelente oportunidade para distinguirmos críticos atentos de pseudocríticos, porque os segundos tanto elogiam o lixo quanto o luxo. Mas estamos a perder a oportunidade, o momento, da viragem nos nossos paradigmas estéticos. Uma viragem que não deve ser pedida aos que protagonizam, superiormente, o modelo anterior, mas aos que se querem ver no seu lugar.

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