Instigante, sem dúvida, a leitura do livro Cruzei-me com a História, de Samuel Chiwale.
Com uma frontalidade extraordinária assume toda a sua carreira, as suas convicções e mesmo os erros da UNITA e desmascara, assim, muita maledicência.
Ficamos com mais uma imagem da História recente de Angola e acredito que esta seja das mais próximas da realidade que um autor presenciou. Não cai, também, no que me pareceu o ponto fraco do livro-testemunho do seu companheiro Alcides Sakala, que é o de terminar sublimando o que de facto foi uma derrota com uma afirmação quase de vitória.
O livro de Sakala é muito bem escrito e é, também, um testemunho muito vivo e frontal, pelo que estranhamos esse final - mas eu nunca estive na situação em que ele estava quando foi negociar aquilo que foi uma rendição, honrosa sem dúvida e acautelando ainda assim, em muito, a dignidade e liberdade do povo da UNITA e da sua elite. Se me visse nesse estado e continuasse vivo não sei o que faria, eu, que não passo de um leitor e nunca peguei numa arma. E o próprio Chiwale reconhece o estado lastimável em que reencontrou os seus companheiros. Deve ter sido o pior momento das suas vidas e, naturalmente, será sublimado.
Duas ou três notas a reter: a coerência de Chiwale e de Savimbi, a quem se mostra frontalmente fiel, tanto quanto aos princípios de Muangai. As consequências desastrosas da introdução de uma típica polícia política, a BRINDE. O alto moral das FALA fora da zona Leste onde Savimbi é morto. A sensação de traição misturada com a preocupação, antiga na UNITA, com a paz no que diz respeito à 'armadilha' do cessar-fogo.
Dois ou três silêncios também: não me lembro de ver referido o nome de A. Camalata Numa, tal como Samakuva é poucas vezes referido. Apesar de referir uma vez as mortes de Tito Chingunji e Wilson Santos, de passagem, nunca nos conta o que se passou. Confesso que esperava ver a sua frontalidade descerrar esses 'mistérios', tal como esclareceu as relações com os quatro madeireiros portugueses, as duas famosas queimas das bruxas, as relações com os sul-africanos e destes com os países do Leste europeu. Porque não o fez? Ou será que não o fez ainda? Será por causa de alguém que ainda vive?
O livro termina, portanto, em aberto, apesar de acabar, formalmente, com um testamento político do autor, seguido por uma recolha de frases ou lemas seus.
Parece-me, junto com o de Alcides Sakala, obra incontornável e de mérito para quem deseje estudar o que foi a UNITA e o que foi a Angola da UNITA, que já Sousa Jamba tinha ficcionado em Patriots.
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