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Mensagens

A mostrar mensagens de setembro, 2010

Despacho noticioso - urgente

Poeta em apuros reclama do governo subsídios literários para escrever um bom poema. Em entrevista breve, a um jornalista preocupado com a nossa produção literária, coloca mesmo a hipótese de recorrer ao Tribunal Internacional dos Direitos Humanos caso não veja contemplada no OGE a sua pretensão com a qual, argumenta, a cultura angolana e do mundo em geral só tem a ganhar. Pelo contrário, afirma, será um crime de lesa-cultura consagrado, aliás, na Carta das Nações Unidas.

Uma lição de Antonio Candido sobre nacionalidade literária

Antonio Candido é, sem nunca ter 'forçado a barra', um nome incontornável da teoria e da crítica literárias brasileiras. No que diz respeito, concretamente, à nacionalidade literária, o título da mais famosa das suas obras já demonstrava que tínhamos algo a aprender com ele, pois estuda a formação da literatura brasileira (a lição foi, como se sabe, captada por M. António, que estudou a formação da literatura angolana). Num texto breve, conciso mas nem por isso menos importante, O romantismo no Brasil , o autor acaba fixando três conceitos ainda hoje importantes para nós e mostra como se forjou a nacionalidade literária brasileira. Não sendo um processo igual ao nosso, não deixa de ter com ele muitas semelhanças – e desde logo aquelas que são estruturais. Transcrevo o texto para aproveitamento dos leitores: "Pensando sobretudo na poesia, para simplificar, é possível dizer que o relacionamento da literatura brasileira do Romantismo com as literaturas matrizes da Eur...

Completude percetiva e géneros literários

No livro A música no seu cérebro o cientista cognitivo Daniel J. Levitin chama a nossa atenção para o fenómeno da «completude percetiva», bem conhecido pelos psicólogos. Qualquer um pode experimentar o fenómeno que serve de base à criação do conceito. Há uma já longa série de desenhos que provocam várias ilusões visuais, de que dou exemplos: Ilusão de Muller-Lyer, em que duas retas possuem exatamente o mesmo tamanho mas, pela colocação de 'alhetas' (como as que indicam direção postas na ponta da reta: ------->), umas para fora (na reta inferior) e outras para dentro (na reta superior), a de baixo parece menor; Ilusão de Ponzo, reproduzida no livro de Levitin, em que duas retas iguais parecem de tamanhos diferentes (a reta vertical à direita parece maior do que à esquerda, mas são do mesmo tamanho). Estas duas ilusões extraí da página http://www.icb.ufmg.br/lpf/material/5-4-a5-ref3.html , hoje mesmo; uma terceira ilusão, transcrita igualmente por Levitin,...

Notícia exemplar

Do lançamento do livro mencionado na colocação anterior (v. abaixo), um jornalista da Angop tirou uma notícia que é um exemplo do mau jornalismo praticado no país. A notícia centra-se exclusivamente nas declarações do Secretário-geral da UEA na cerimónia de lançamento do livro. Não está, naturalmente, em causa a menção ao também contista Carmo Neto. No entanto não se mencionou um dos 'furos' jornalísticos trazidos pela fala de Carmo Neto: o propósito de trazer até Benguela o Prémio de Literatura Infantil Manuel Rui Monteiro, promovido pela UEA e por este escritor angolano. Também não se diz ao leitor quem é que organizou o evento, que foi a primeira atividade pública do núcleo local da UEA, chefiado pela escritora Paula Russa. Não se escreve uma única palavra sobre a apresentação da obra, nem uma palavra sobre as palavras do próprio escritor nesse momento. No fim, faz-se a referência bibliográfica do livro com todos os pormenores, dão-se uns dados biográficos mínimos e remata-s...

A última ouvinte

A última ouvinte é o título de uma despretensiosa coletânea de contos de Gociante Patissa, escritor natural de Monte Belo, município do Bocoio, província de Benguela (em Angola, claro). O livro foi lançado na última 6.ª F.ª, 17 de Setembro, na Rádio Benguela, delegação da Rádio Nacional de Angola na cidade onde Patissa vive. A editora (e promotora do evento) foi a União dos Escritores Angolanos, sendo este ao mesmo tempo o primeiro lançamento de livros organizado em Benguela pela secção local da UEA – finalmente reativada. Depois de um período em que a literatura parecia ter sido carbonizada por estas paragens, ela vem renascendo das cinzas e toda uma sincronia de ações e obras confirma-nos isso, como é o caso desta. A cerimónia decorreu no Auditório da RNA – Benguela e acabou com uma sessão de comes e bebes assistida e finalizada por um repentino desafio de improvisos poéticos e musicais em simultâneo. Retornando à meada, esta é a segunda obra do autor, sendo a primeira uma reunião ...

Ministros e sistemas

  Um dos mitos do pensamento moderno – ou seja: de rutura com o tradicional – é o da hiperestrutura. Uso esse termo provisoriamente aqui, para indicar a crença na possibilidade de uma organização (protagonizada em absoluto pela raça humana, melhor, por uma sua elite) extremamente lógica e eficaz, à qual poucos pormenores escapariam. A palavra que melhor representa o mito é 'sistema'. Em ciência o uso da palavra nem sempre é mítico, pelo contrário – e muito menos indica, ou deve indicar, uma estrutura fechada sobre si mesma, cega e superior ao que a rodeia; mas em política é isso mesmo. Desconfio da palavra sistema neste contexto – político. Precisamente porque ela pressupõe uma estrutura demasiado organizada e lógica e nunca vi isso funcionar em lado nenhum. Uma das causas do vigor do capitalismo consiste a meu ver em deixar que vários grupos profissionais e sociais, por si, vão fazendo coisas que, no todo e numa estrutura de receção, nos parecem próprias de um sistema hiperor...

Redirecionamento

Houve nos últimos tempos um nítido redirecionamento, ou mesmo realinhamento, no Ministério da Cultura: as iniciativas no âmbito da História, da pesquisa histórica, da reabilitação de patrimónios materiais, urbanos e imateriais receberam um elevado investimento, uma intensificação e publicitação maiores. É a área científica onde Ministra e Vice-ministro mais à vontade estão e mostram-no com a sua atuação. Ao invés de querer impor visões parciais e ultrapassadas da nossa história, da nossa literatura ou da nossa cultura, o Ministério vem promovendo ultimamente o artesanato, a recuperação de património arquitetónico, a visibilidade de culturas tradicionais. É claro que a cultura não é só oratura, nem o património é só arquitetónico ou artesanal, mas esses campos de atividade cultural precisavam de um revigoramento e o Ministério tem estado a fazê-lo, ao mesmo tempo que descentrando as suas atividades para várias províncias e localidades no interior (não apenas capitais de província). É a...

Brasil: o erro Serra

A campanha eleitoral brasileira para as presidenciais continua a ser instigante para quem reflete sobre as relações entre retórica e política. O atual presidente, aproveitando a sua popularidade, chegou ao ponto de sincronizar a atividade presidencial com a campanha do PT e os resultados viram-se imediatamente com a subida nas sondagens de Dilma Rousseff. A construção da unidade em torno da candidata foi difícil, mas estava pronta e dela fizeram parte, inevitavelmente, todos os órgãos ocupados por petistas. A oposição reagiu – com razão – aos aproveitamentos do exercício de cargos públicos para apoio à candidata – mas de uma forma infeliz, hiperbolizando, mostrando-se tão incomodada quanto queria que o povo ficasse, pondo a carroça à frente dos bois. É provável que o PT já contasse com isso e soubesse que, mesmo assim, a subida nas sondagens seria superior à de qualquer outra estratégia. A estratégia retórica do PT é clara e, por isso também, se torna popular facilmente. Consiste em d...

Retrocessos

São vários, infelizmente, os sinais de um retrocesso antidemocrático no sul de África. A eleição no Rwanda com a muito pouco provável percentagem oficial de Kagamé (um dirigente que parecia querer fazer um país pacífico, livre e sério); as reações à greve na África do Sul (onde o Presidente Jacob Zuma representava uma esperança para os sindicalistas pelo seu passado e por acreditarem muitos sindicalistas no seu discurso populista); a prisão já de 300 suspeitos de incentivarem as manifestações de Maputo – são alguns desses sinais. Demonstrando uma grande maturidade, o povo angolano concordou com a recente subida do preço dos combustíveis – ou pelo menos calou-se. Digo uma grande maturidade porque sabemos que são preços artificiais, subsidiados fortemente pelo governo e que temos de começar a viver numa economia real. Embora também me pareça que deviam esperar pela construção das novas refinarias para aumentar os preços. Mas o facto é que, mesmo os descontentes, não saíram para a ru...

Ondjaki os da minha rua

"O sol se pôs atrás das obras dos soviéticos. O mesmo de sempre: a poeira do fim da tarde e o soviético a conduzir o camião-cisterna que deitava água na rua para acalmar o pó. Os nossos gritos a gozar com ele e os gritos dele, em soviético, que parecia um português mastigado e cuspido ao contrário. A rua ficou húmida a deitar um cheiro de sol no alcatrão que tremia refrescado" (Ondjaki -  Os da minha rua: estórias . Luanda: Nzila, 2007. -   p. 91) Um belíssimo parágrafo, com imagens apropriadas e contendo a devida surpresa, com ritmo e dinamismo sonoro, com boa prosódia. Um exemplo para quem pretende escrever narrativas artísticas e não somente enfileirar episódios ou intrigas. Apenas a destoar a substituição de falar em russo por falar "em soviético" - ainda que se entenda que é a frase de uma criança desse tempo.