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Brasil: o erro Serra


A campanha eleitoral brasileira para as presidenciais continua a ser instigante para quem reflete sobre as relações entre retórica e política. O atual presidente, aproveitando a sua popularidade, chegou ao ponto de sincronizar a atividade presidencial com a campanha do PT e os resultados viram-se imediatamente com a subida nas sondagens de Dilma Rousseff. A construção da unidade em torno da candidata foi difícil, mas estava pronta e dela fizeram parte, inevitavelmente, todos os órgãos ocupados por petistas. A oposição reagiu – com razão – aos aproveitamentos do exercício de cargos públicos para apoio à candidata – mas de uma forma infeliz, hiperbolizando, mostrando-se tão incomodada quanto queria que o povo ficasse, pondo a carroça à frente dos bois. É provável que o PT já contasse com isso e soubesse que, mesmo assim, a subida nas sondagens seria superior à de qualquer outra estratégia. A estratégia retórica do PT é clara e, por isso também, se torna popular facilmente. Consiste em dizer: o presidente tem uma alta popularidade, então estão a gostar; ele surge sempre ao lado da candidata, logo essa candidata vai ser conotada com a sua popularidade e começa a transferência do voto para ela. Mesmo que lhe apontem erros, ele mantém a popularidade – a menos que os erros sejam muito graves; logo, ela continuará a beneficiar disso. A oposição, querendo precipitar o julgamento, tentou imprimir uma aura de gravidade ao que não era percebido assim pelo povo, precipitou-se, exagerou e o povo virou-lhe as costas. Até porque não se sente em perigo, portanto não vale a pena reagirmos como se isso acontecesse.
A resposta retórica das mais eficazes consistiria em denunciar, com serenidade e 'como quem não quer a coisa', a confusão entre Presidente e candidata, o facciosismo do Presidente, ao mesmo tempo que em mostrar que o PT subaproveitou as oportunidades deixadas por FHC, o que não se nota ainda porque ainda há muito dinheiro em função dessas mesmas políticas. Os 'marketeiros' da oposição cometeram, porém, mais um erro fatal. Inicialmente faziam uma política de 'terra queimada', forçando a nota sobre as muitas incongruências, abusos de poder, corrupção, apoio às ONG's duvidosas e perigosas alianças internacionais da presidência PT, que mais do que uma vez se revelaram um fiasco (pensem por exemplo nas Honduras e no Irão). Ao forçarem a nota, perante um povo que sente melhorada a sua condição social imediata, a população afastou-se, perdeu curiosidade sobre Serra e alternativas. O exagero retórico, realmente, é um erro em democracia. No passado, quando o PT viu, repetidamente, que Lula não ganhava as presidenciais jogando o velho papel do sindicalista radical, rabugento, inveterado, inventou o 'Lulinha paz e amor' e o povo, é claro, adorou. Como não é credível um 'Serrinha paz e amor', ou a fazer de velho patriarca protetor (um truque mais antigo e ainda gasto), a oposição teria de criar uma estratégia que tornasse, ao mesmo tempo, o seu discurso prazenteiro e crítico – mas de uma crítica fina, credível, irónica, segura, sem forçar a nota, sem parecerem meninos de colégio interno a fazer queixinhas aos pais ou aos padres. E, simultaneamente, era necessário ir apresentando pequenas utopias, soluções simples mas de longo rendimento em termos de propaganda e de sentimento imediato em termos do quotidiano das pessoas.
O exagero nas 'queixinhas' podia ser ainda revertido se os 'marketeiros' da oposição tivessem concentrado a propaganda num contraste sistemático entre os desmandos orçamentais de Lula e o controlo orçamental dos tempos de Fernando Henrique Cardoso. Um contraste feito com base em números e em frases curtas, fáceis de apreender e repetir. Em resposta às respostas previsíveis do PT, apontar-se-iam os benefícios sociais possibilitados por essa política orçamental e financeira, tão bem sucedida que até o PT se limitou a dar-lhe continuidade (falo dos argumentos políticos que a oposição podia usar). Ainda em simultâneo deviam apontar-se evoluções similares e próximas geograficamente, sobretudo a do Chile, que passou de uma presidente popular de esquerda para um presidente capitalista de centro direita. As analogias eram fortes: Dilma é mulher e de esquerda, de uma esquerda cujo presidente sai do poder com popularidade; Serra é um executivo político bem sucedido e a sua coalisão é de centro direita. Mas os 'marketeiros' da oposição pareciam os que deram apoio à UNITA em 1992: cometiam erros sobre erros. E lembraram-se de que Fernando Henrique, ao terminar o mandato, era pouco popular – ao contrário do que se passou com Lula. Esqueceram-se de dois aspetos fundamentais: primeiro, a popularidade de um político em fim de mandato raras vezes é a mesma depois de alguns anos, porque as suas políticas têm efeitos que só são sentidos mais tarde e a popularidade de um político só conta no momento em que se trabalha sobre a sua imagem, não conta a que ficou para trás; segundo, FHC era, no leque das figuras oposicionistas, o mais bem cotado para se conotar com Serra, que foi seu amigo, seu companheiro no exílio, seu ministro e era visto como seu herdeiro político. A prova disso está nos poucos apoios que FHC deu a candidatos a senadores: todos eles subiram nas sondagens após o apoio de Fernando Henrique. Não tendo outro património tão valioso, tão rentável se quisermos usar uma metáfora financeira, deviam pegar no capital de prestígio de FHC e, a partir daí, construir a imagem de uma continuidade que iria melhorar a política do mentor, aperfeiçoá-la e que, por outro lado, iria mostrar o quanto as suas políticas deram certo e o quanto os esbanjamentos do PT, uma vez evitados, podiam ter melhorado muito mais o Brasil. Desprezando o capital político de FHC – quando a alternativa é a imagem de um candidato sério, competente, mas sem carisma nem faro político – os 'marketeiros' da oposição praticamente condenaram a campanha do PSDB e seus aliados. E FHC, penso que muito mais por inteligência do que por sentir-se agastado, afastou-se da campanha retirando-lhe o restinho de prestígio que, mesmo distanciado, lhe dava. Ao fazê-lo evita, sobretudo, conotar-se com uma má estratégia e com uma derrota previsível. Assim manterá quase intacto o seu capital de prestígio. O faro político dele está sem dúvida apurado – o que se confirma lendo, na Internet, a entrevista que deu à revista Isto é (http://www.istoe.com.br).

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