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José da Silva Maia Ferreira - uma biografia atlântica - resumo e notícia

 



Ao fim de muitos anos de pesquisa, da qual fui dando sinais aqui, fragmentários sem dúvida, publiquei finalmente a biografia de José da Silva Maia Ferreira. Como se sabe, trata-se do primeiro poeta angolano a publicar um livro em Angola, entre o fim de 1849 e o começo de 1850. O título é bem conhecido: Espontaneidades da minha alma: às senhoras africanas. 


O que publiquei foi uma extensa biografia centrada na pessoa do poeta e nas pessoas que o antecederam, que o acompanharam, com quem se relacionou. Pelas relações pessoais e sociais estudadas acabei fazendo igualmente um esboço do que foram várias das comunidades atlânticas onde se falava também o português: a angolense (Luanda e Benguela, principalmente), a brasileira (Rio de Janeiro e Recife sobretudo), a portuguesa (Lisboa e Porto), a de Nova York e dos últimos anos do tráfico ilegal de escravos. 

No vol. I aproveitei para pesquisar os seus antecedentes e, assim, retratar as redes familiares e de interesses em que se gerou o berço social do autor ao longo de mais de duzentos anos. Isso me levou até aos finais do século XVI e começos do seguinte, pois os seus antepassados mais antigos, dos registados em documentação escrita, foram dois capitães espanhóis, um que chegou no último terço do século XVI, o outro que chegou nos primeiros anos do século XVII. Ambos casaram com mulheres locais, adquiriram ou ganharam propriedades desde Luanda até (pelo menos) Calumbo, e procriaram, num procedimento comum até ao fim do século XIX em Angola. 

Mostrei como essa extensa rede familiar e de interesses incluiu personagens singulares, algumas mais conhecidas outras menos, desde a que foi a primeira grande mulher negociante da colónia, na primeira metade do século XVII, até aos ramos brasileiros entre cujos descendentes encontramos o seu irmão Luís de Queirós Matoso Maia, o seu sobrinho Ernesto Matoso Maia Forte, pai e filho Eusébio de Queirós, o linguista Joaquim Matoso Câmara, Jr., Jorge do Paço Matoso Maia, ministro da Marinha de Kubitschek - entre muitos outros. 

Acompanhei os anos de infância, juventude e formação do autor, em Luanda primeiro, depois no Rio de Janeiro, posteriormente em Lisboa, no prestigiado Lycée Parisien, onde foi colega de portugueses ilustres. Acompanhei também seus primeiros passos na vida adulta, pontualmente no Rio de Janeiro mas principalmente em Luanda e Benguela, até ser obrigado a deixar a colónia, quer por quezílias políticas (razão nunca assumida pelas autoridades), quer por paixões proibidas. Ao mesmo tempo fui vendo que sociedade era aquela, de Luanda, Benguela, Ambriz, a meio do século XIX.

No segundo volume da biografia pude acompanhar a deriva do poeta nos seus exílios, em Nova York sobretudo, mas também em Havana, Lisboa, pontualmente Londres. Aí, com o desgosto que se pode perceber, confirmei o que os historiadores dos últimos anos do tráfico negreiro vinham dizendo, que o poeta se envolvera nesse tráfico. Para compensar tive o gosto de ler as suas 'correspondências' para jornais do Rio de Janeiro, muito mais interessantes que os seus versos e mais avançadas que a tão desesperada e retrógrada posição de envolvimento no tráfico negreiro. Pude confirmar também que, após o abandono do tráfico e a eclosão da guerra civil norte-americana, alistou-se no exército legal, o do Norte, prestando serviço militar até ao fim da guerra, após o que regressou para o Brasil (a sós, sem família), onde assistiu à morte de uma irmã e faleceu ele próprio. Confirmei também que, nos anos em que estivera novamente em Lisboa, foi um Don Juan bem sucedido, um negociante e candidato a diplomata mal sucedido (exceto na venda de charutos havano), teve uma filha (que morreu tuberculosa, na capital portuguesa, com cerca de 17 anos, sem nunca ter visto o pai), frequentou algumas das melhores famílias da elite lisboeta, fez amizade com alguns dos escritores e políticos mais conhecidos da sua geração, dissipou a pouca fortuna que angariara nos pouquíssimos anos de envolvimento no tráfico nefando e regressou falido a Nova York para levar um grande puxão de orelhas da mulher e amargar em Cuba uma frustrada tentativa de recuperação financeira. Por ali deixou duas filhas: uma não casou, a outra assegurou a única descendência do poeta até hoje, a quem devemos a entrega à Torre do Tombo, em Lisboa, do que restou do seu espólio. 

Não confirmei, até hoje, não vi prova nenhuma de acusações que a má-lingua de Lisboa lhe fez, principalmente a de ter entrado no exército brasileiro e desertado antes de morrer. Também não consegui confirmar que tivesse tido uma filha em Benguela, conforme assevera Carlos Pacheco, baseado em uma certidão de óbito dessa filha, Ana. Em toda a vasta documentação consultada ao longo destes anos, não vi qualquer referência à filha nem à mãe (que talvez fosse filha de um comerciante português rico, do Rio de Janeiro mas com intensos negócios - incluindo de escravos - com Angola; no entanto não vi nenhum comprovativo disso). 


Foi sem dúvida instigante e cheia de surpresas esta pesquisa, sustentada exclusivamente por mim. Mas agora sabemos quem foi o tal primeiro poeta a publicar um livro de versos, quiçá em toda a África negra, o luandense e angolense José da Silva Maia Ferreira. Talvez isso permita que se possa avaliar com mais justeza (não peço que justiça, mas justeza) a sua personalidade, o seu percurso e, sobretudo, a sua literatura, que integra também colaborações para jornais e uma enciclopédia, cartas, poemas em francês e português.


O leitor avaliará por si próprio. 



Comentários

  1. Caro Francisco Soares em primeiro lugar uma saudação de gratidão por tão hercúleo trabalho que busca justeza ao intelectual José da Silva Maia Ferreira. Como ficará o acesso físico dos 2 volumes em Angola, Portugal, Brasil e outros lugares, para os que não tem forma de acede-lo via Amazon. Um kandandu fraterno do teu conterrâneo benguelense.
    Manuel L. Dias dos Santos "NELO"

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