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A mostrar mensagens de julho, 2012

Darwin, a poesia e o espírito

O darwinismo tem, naturalmente, aspetos bons e maus. Pelos aspetos maus vai respondendo a sua superação; pelos bons o seu aproveitamento no presente e, quem sabe, no futuro. Um dos aspetos interessantes no darwinismo, para o qual Popper chama a nossa atenção, prende-se com o facto de ele nos fornecer uma visão da evolução, desde os micro-organismos até nós, como uma aplicação do método de tentativa e erro. Um dos aspetos negativos é a mania de querer explicar tudo o que é humano a partir da nossa história evolutiva. Deste aspeto negativo emergiu uma corrente no entanto produtiva, muito oportuna para os estudos literários e artísticos. Ela procura compreender a comunicação artística em função da nossa memória adaptativa, da sobrevivência da espécie e da seleção sexual. Embora o próprio Darwin reconhecesse os limites da aplicação de uma leitura evolutiva à arte, demasiado “caprichosa” para se deduzir das leis da evolução, esta corrente tem-se afirmado e trouxe algum vigor ...

Gadamer, o som e a ciberpoesia

Em Arte e verdade da palavra , Gadamer fala do som como aquilo que fixa a poesia. É outro dos incontornáveis da arte da palavra segundo ele.   Como sabemos, esse debate é já antigo. Para alguns, com evidente exagero, a poesia é só ritmo, ou só som. Para outros ela não precisa de nenhum som para ser o que é. Não se torna necessário citar aqui ninguém: lendo, o leitor encontrará exemplos para todos os gostos.  Gadamer retoma, de certo modo, o tema e é desde logo preciso conceituarmos separadamente «som» e «ritmo». O ritmo, nesta obra de Gadamer, faz parte do que ele chama som - ao contrário do que geralmente costuma conceber-se... Postas em confronto as suas afirmações com a poesia digital - o que é para mim um método cada vez mais certo para testar os postulados teóricos - talvez à ciberpoesia não se possa aplicar exatamente  o que ele diz da relação entre som e obra de arte literária.  Gadamer fala do som como o que fixa e, portanto, o que une e dá coerência...

O todo e a função do todo

Em  Arte y verdad de la palabra  (pp. 38-39 por exemplo) põe Gadamer a tónica na coerência de cada parte com o todo, ou na própria organização de um todo autónomo. Durante muitos anos partilhei desta focalização da obra e do processo, achei sempre que, nas obras e nos processos artísticos, a tónica "na coerência de cada parte com o todo" e a "organização de um todo autónomo" eram fundamentais e, portanto, incontornáveis.  Nos dias de hoje há, porém, uma pergunta que se impõe também. Perante certas obras digitais ainda há «todo»? Parece-me que não. Algumas (por exemplo os poemas que resultam dos motores textuais ) são tão longas que a noção do «todo» se perde, porque não formamos na nossa mente uma imagem desse todo. Aquele conselho prático do teatro grego sobre o tempo máximo que devia demorar cada peça garantia esse efeito básico, o da imagem de conjunto. Mas isso foi ultrapassado na nossa era e não só por motores textuais. A interatividade das obras digita...