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O todo e a função do todo


Em Arte y verdad de la palabra (pp. 38-39 por exemplo) põe Gadamer a tónica na coerência de cada parte com o todo, ou na própria organização de um todo autónomo.

Durante muitos anos partilhei desta focalização da obra e do processo, achei sempre que, nas obras e nos processos artísticos, a tónica "na coerência de cada parte com o todo" e a "organização de um todo autónomo" eram fundamentais e, portanto, incontornáveis. 


Nos dias de hoje há, porém, uma pergunta que se impõe também. Perante certas obras digitais ainda há «todo»? Parece-me que não. Algumas (por exemplo os poemas que resultam dos motores textuais) são tão longas que a noção do «todo» se perde, porque não formamos na nossa mente uma imagem desse todo. Aquele conselho prático do teatro grego sobre o tempo máximo que devia demorar cada peça garantia esse efeito básico, o da imagem de conjunto. Mas isso foi ultrapassado na nossa era e não só por motores textuais. A interatividade das obras digitais em rede impede-nos também de termos uma imagem do «todo». Uma vez que a obra se mantém em processo e a sua realização depende do usuário (choca esse termo? use receptor, leitor, etc.) não sabemos qual o conjunto que se forma na mente de cada usuário. O único «todo» a que temos acesso é o do hipertexto - e, como sabemos, muitas vezes nem a esse acedemos. 


Se não há (porque os receptores se tornaram ativos, podem abrir opções e variações em tal número que não conseguimos reter uma imagem do todo, ou porque ainda usamos motores textuais), se não se forma essa imagem da totalidade mas ainda existe verdade e arte da palavra, ou da obra, o que funciona então como o «todo»? O que é que garante a função que era assegurada pelo «todo»? Talvez descubramos que não é ainda o todo, ou propriamente o todo, ou essa coerência assim estabelecida. Mas o que é então? 

Penso que o «todo» e a resposta à minha perquirição se relacionam com o conceito de «coerência», coerência estética obviamente. Como podemos, no entanto, conceber a coerência sem conceber o todo? Estando a sair da leitura de Gadamer, é possível que isso me influencie e daí que eu pense que a função acometida ao «todo» é no entanto assegurada pela relação coerente (ou seja: pelo menos reiterada estrategicamente em vários pontos da obra) pela coerência da relação entre cada parte e um todo menos definido mas mais presente, que circula no espaço ou ambiente semiótico. Essa 'coerência' é como uma vibração cuja recorrência nas articula com uma totalidade muito mais vasta e nos dispensa de construir a totalidade no texto. Esse 'todo' pode ser concebido a partir do que Lotman chamava de semiosfera, porque em grande medida é a mesma coisa. 

Comentários

  1. Gadamer fala também nos motores textuais nesse livro (p. 102) e em função do problema da escolha, tal como fiz em texto já com vários anos. Ele resolve liminarmente o seu problema dizendo que alguém tem de vir e escolher o que é poético (de acordo com o nosso 'ouvido interno') e que, portanto, a existência de motores textuais não põe em causa (deduz-se) o necessário conceito de totalidade.

    Porém, como expus aqui, não são só os motores textuais e não é necessário vir alguém escolher. Duas ou três questões que, a partir desta postulação, podemos levantar:

    1) A escolha é feita por um 'autor' no início, quando seleciona a frase ou verso que vai ser multiplicado pelo motor textual e pelos leitores, não necessariamente se escolhe sobre a massa de versos que resulta da introdução da frase no motor textual.

    2) Pressupondo-se que essa limitada e concisa escolha inicial é guiada por um critério de beleza, há que perguntar se uma frase ou verso (uma combinação também inicial) intrinsecamente belos podem perder beleza ao ser recombinados numa configuração diferente, ou se perdem apenas o sentido primeiro.

    3) Pressupondo-se que o 'ouvido interno' de cada leitor escolhe totalidades mais poéticas na massa de versos produzida pelo motor textual, é de pressupor igualmente que as escolhas de dois ou mais leitores não coincidam. O que significa, afinal, que a aparente infinidade versicular gerada pelo motor textual é substituída, no raciocínio teórico, pela aparente infinidade das escolhas possíveis de todos os leitores operadas sobre essa massa versicular. E ficamos com o mesmo problema: como estudar a função do «todo» nesse caso? Qual é o «todo»? O do hipertexto? O do motor textual? O de todas as escolhas de todos os leitores possíveis?

    4) Esta última pressuposição (a de que todas as combinações possíveis são passíveis de se fazer mediante diferentes 'ouvidos internos') implica, também, a universalização do poema gerado maquinalmente. Se é possível fazer todas as escolhas dentro daquela massa verbal, então ela é universal, ou universalizável, intemporal e a-tópica. Pelas escolhas introduzimos o nosso contexto como faca, tesoura, para separar o que, daqueles versos todos, é 'nosso', não dos 'outros'. Como cada um tem lá o seu 'nosso', todos estão, virtualmente, lá.

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