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Mensagens

A mostrar mensagens de junho, 2010

Pöe anotação

"Eu prefiro começar com a consideração de uma emoção […/…] das inúmeras emoções, ou impressões, a que o coração, o intelecto, ou (mais frequentemente) a alma é suscetível, qual escolho neste momento?" (Edgar Allan Pöe, Filosofia da composição , p. 18). Subsequente à escolha da emoção define o autor o incidente e o tom apropriados a sugerir tal emoção. A escolha, em primeiro lugar, da emoção pode definir o romantismo – se, com Pöe, nos afastarmos da crença na inspiração romântica. Na medida em que essa corrente artística veio justamente colocar a emoção no centro das atenções, no primeiro móbil da criação poética (e primeiro em dois sentidos: o exposto aqui por Pöe – aquilo em que se pensa inicialmente – e o de principal, em torno do qual tudo o resto se desenvolve). Um clássico pensaria no assunto, no tema, no tratamento que deve ser dado ao tema e só depois (ou, quando muito, simultaneamente) na emoção, no tom e no incidente correspondentes. Vistas as coisas assim um poema...

Achille Mbembe

"Por fim, põe-se o problema da associação entre a arte, a cultura, a estética africanas e a etnicidade, a comunidade ou o comunalismo, a ideia dominante mas falsa (e partilhada por muitos africanos e outros tantos doadores) de que o acto de criatividade é necessariamente um acto colectivo, que as formas artísticas africanas não são objectos estéticos em si, mas códigos secretos que dão acesso a um nível do "real" mais abstracto, fundamentalmente etnográfico e representativo da diferença cultural ontológica da África, isto é, a sua autenticidade. É esta "diferença" africana e esta "autenticidade" africana que os doadores buscam, mantêm e, se for necessário, fabricam. Postos lado a lado, os efeitos combinados destes processos nas relações entre "doadores" e " beneficiários" bem como na criatividade e na autonomia culturais africanas são devastadores. Sem uma nova ética baseada no reconhecimento, na solidariedade e na reciprocidade, o...

Roderick Nehone uma boia na tormenta

Que toda a literatura tem seus clássicos, disso ninguém duvida. Nem mesmo que de os clássicos de cada literatura variam com o tempo, exceto alguns raros perpétuos. Ainda é cedo para dizermos quem são os perpétuos na nossa, mas podemos ir ao Brasil de Machado de Assis ou ao Portugal de Camões para dar dois exemplos. São, porém, exemplos de uma só das aceções da palavra 'clássico' em literatura. Da aceção mais comum, claro: a dos autores que, pela maneira como são recebidos ao longo dos tempos, tornam-se cânones literários. Há clássicos de outra ordem: os que, à partida, procuram sê-lo. Ser um clássico é uma vocação e quase uma profissão (de fé também). Implica disciplina, uma disciplina incorporada e decerto conscientemente. Implica um tipo de discernimento mais calculado (nem por isso menos autêntico), premeditado que o do escritor romântico, exaltado, boémio incorrigível, incapaz de dominar os seus próprios instintos. Roderick Nehone vem-se revelando, livro a livro, um cl...

Complexidade e arte

Um dos atributos universais da arte, segundo Denis Dutton ( Arte e instinto , v. abaixo a referência), seria o da complexidade do objeto artístico, da peça, enfim, da obra. Acho que nisso, como em vários outros aspetos, D. D. acertou em cheio. A sua definição de complexidade é a de que o termo refere "inter-relações densamente significantes da, digamos, poesia, do enredo e do ritmo dramático numa peça como O rei Lear de Shakespeare" (op. cit., p. 394). Vendo a parte universal da definição, complexidade seria igual a estrutura: as "inter-relações densamente significantes" entre os componentes de uma obra. Isto vem, por outra via (uma primeira foi a dos estudos sobre literatura e informática), mostrar a atualidade e pertinência de conceitos estruturais e semióticos, apropriados justamente para definir e compreender a 'complexidade'. Deste modo, o estudo da complexidade é também um estudo estrutural.

Ready made

Ouvimos hoje falar muito em 'ready-made' e há mesmo teóricos da literatura que se irritam com a moda. Na verdade a sua origem tem já cerca de 100 anos – o que não vem em desfavor ou favor do processo. O que sucede sempre que um termo se vulgariza é o seu uso menos rigoroso. Em reação a tal uso uns se estribam no estrito significado primeiro da palavra ou expressão e outros simplesmente abandonam o termo. Não me parece que seja necessária nenhuma dessas opções. Recapitulando: quando Duchamp enviou uma sanita para uma exposição de arte moderna, apenas acrescentando-lhe a sua assinatura e a colocação no espaço, não só ironizou o mercado de arte e a vulgarização da arte moderna que já então se iniciava. Ele chamou a atenção, paradoxalmente, para a importância da colocação, da relação da obra com o contexto imediato: retirando de um contexto fabril e repondo-a num contexto artístico, por exemplo, podemos levar o recetor a atentar na esteticidade de um objeto ou fenómeno do quotidi...

15 de junho de 1833

Deixa de se publicar, no Rio de Janeiro, o Semanário de saúde pública . Estas coisas têm consequências, a curto e longo prazo.  Pouco depois nasceria o romantismo brasileiro. Já dava sinais (ainda que por influência europeia) da nostalgia da natureza.

O mapa cor-de-Luba

"Entre os anos 800 e 1000DC acentuou-se, gradualmente, a separação dos dois principais ramos em que, já depois da travessia do Rovuma, se dividiram os protomacuas: o do norte e leste veio a dar origem aos modernos macuas; o do sul e oeste, composto por Lómuès e Lolos, dirigiu-se ao Chire e ao Baixo Zambeze. A sua vanguarda, formada por estes últimos, entrou em contacto com elementos do grupo Marave, vindos do país Luba, no sul do atual Zaire, através dos planaltos centrais, a ocidente do Lago Niassa. Parte destes Lolos foram designados por Cocolas pelo ramo mais meridional dos Maraves, os Manganjas" (A. Rita-Ferreira – Fixação portuguesa e história pré-colonial de Moçambique . Lisboa: IICT-JIU, 1982). Era o começo (se antes não houve mais nenhum, que desconheço) de uma longa história: a da nação Luba no corredor que leva do Leste de Angola até Moçambique. Relacionada com ela está, sem dúvida, a produção e circulação de "meios de troca com padrões de peso e volume",...

Evolucionismo literário e intencionalismo

"Procurar por intenções autorais não é portanto uma falácia; na perspetiva evolucionista, é psicologicamente impossível ignorar a potencial capacidade, engenho, talento ou génio que são revelados no discurso e na escrita" (Denis Dutton – Arte e instinto . - p. 294). "Por exemplo, suponho que é justo dizer que idolatro Anton Tchekov, autor de algumas das peças de história dramática mais pungentes e profundas. Contudo, a minha idolatria não é direcionada a uma causa formal inserida nos textos de Tchekov […/…] tal como a evolução o exige, os meus sentimentos direcionam-se a um certo médico que morreu tragicamente jovem, um homem cujos ossos jazem agora no Cemitério Novodevichy, em Moscovo" (id. – ib. – p. 295). Estes são dois exemplos do anti-intencionalismo de Dutton. Creio que é o ponto mais fraco da sua teoria e da sua argumentação e nem mesmo penso que uma leitura evolucionista da criação literária, ou da comunicação artística, obrigue a isso. Como se vê pela prim...

João Tala no forno feminino

João Tala tem vindo a superar-se a cada livro. Forno feminino , título de líricas em verso editado em Luanda pela Kilombelombe, vive em grande parte de uma analogia baseada no tradicional forno feminino dos ferreiros que o autor encontrou na Lunda-Norte (segundo a nota preliminar). A conotação erótica é evidente e transversal quase a todo o livro, que no entanto vai para além dela e não deixa de realizar denúncias sociais. A coerência semiótica dos poemas é de realçar, a par de imagens fortes, funcionais embora inusitadas, acompanhando um ritmo amigável ao mesmo tempo que também acutilante. Ainda de notar, a meu ver, o recurso a ambivalências, especialmente à colocação de palavras ou frases que tanto se podem acoplar ao verso ou frase anterior quanto ao posterior e que parecem mesmo servir os dois sem qualquer contradição. É um recurso que David Mestre e Arlindo Barbeitos usaram e que foi alastrando ao longo dos anos 80 e 90, atingindo talvez o seu máximo uso na lírica de Abreu Paxe. ...

Chiwale, o comandante exemplar

Instigante, sem dúvida, a leitura do livro Cruzei-me com a História , de Samuel Chiwale.  Com uma frontalidade extraordinária assume toda a sua carreira, as suas convicções e mesmo os erros da UNITA e desmascara, assim, muita maledicência.  Ficamos com mais uma imagem da História recente de Angola e acredito que esta seja das mais próximas da realidade que um autor presenciou. Não cai, também, no que me pareceu o ponto fraco do livro-testemunho do seu companheiro Alcides Sakala, que é o de terminar sublimando o que de facto foi uma derrota com uma afirmação quase de vitória.  O livro de Sakala é muito bem escrito e é, também, um testemunho muito vivo e frontal, pelo que estranhamos esse final - mas eu nunca estive na situação em que ele estava quando foi negociar aquilo que foi uma rendição, honrosa sem dúvida e acautelando ainda assim, em muito, a dignidade e liberdade do povo da UNITA e da sua elite. Se me visse nesse estado e continuasse vivo não sei o ...

Mortes

Há dias assim: caem-nos várias notícias fatais ao mesmo tempo em cima. Por telefone me diz um amigo que o escritor Wilson Bueno tinha sido morto à facada faz uns dias. Fui ver notícias e fora assassinado por um garoto de programa – lembra-me alguém, creio de Coimbra, creio que também escritor que em Coimbra foi assim assassinado. Muitas considerações de ordem moral andam à volta do caso mas o que interessa é que morreu um escritor. Eu nunca li nenhum livro de Wilson Bueno, só ouvia falar nele. Segundo o jornal Correio braziliense , "o escritor tinha entregue ainda um original, ainda inédito, chamado Mano, a noite está velha , sem data para publicação".Quem sabe será esse o primeiro livro dele que vou ler. O resto é com a polícia. Outra morte, a de António Manuel Couto Viana – um homem grande, alto, com postura direita e cabelos lisos, óculos de lentes grossas e que falava com aquele 'sotaque' popularmente chamado 'sopinha de massa'. Também ouvi dizer várias ve...

saturação

Desde os anos 80 que a literatura angolana se enriqueceu pela consecução de paradigmas estéticos novos para nós. Novos mesmo para qualquer parte do mundo, na medida em que, ao modernizarmos a nossa literatura, não deixámos de fazê-lo articulados às especificidades locais, de modo a resultarem as obras num conjunto híbrido, numa mescla muito própria, tanto para os 'de dentro' quanto para os 'de fora'. Passados estes anos, pelo próprio dinamismo dos jovens criadores, o modelo vai-se naturalmente esgotando. Não no sentido em que os seus autores mais felizes se tenham tornado epígonos de si próprios, pois a pujança criativa que revelaram mantém-se intacta, agradável e surpreendente. Mas no sentido em que, inevitavelmente, com a exploração exaustiva do modelo e a respetiva ereção em cânone, todo o candidato a poeta o segue por mera macaqueação. Uma vez que os novos paradigmas passavam por ousadias metafóricas, implosões semânticas, gráficas e sintáticas, os epígonos con...

Intenção, autonomia do texto, hermenêutica e ironia

 A questão da pertinência da intenção do autor na hermenêutica do texto vem sempre envolvida em polémica e, parece-me, por gosto crítico. Parece-me isso porque não é difícil aclarar a questão e, no entanto, temos preferido exacerbar posições.  Não se coloca propriamente em questão que o autor tenha uma intenção, muito menos que tenha a intenção de fazer uma obra literária. Os anti-intencionalistas ou não-intencionalistas puseram em causa o paradigma, originalmente romântico, de que o crítico era uma espécie de áugure relativamente às secretas e insondáveis intenções do poeta. O crítico intencionalista e o biografista sustentavam-se num estudo pretensamente psicológico para legitimar uma leitura hermenêutica. Quem os combateu afirmou que a intenção não estava disponível para se estudar e quem os combateu não estava preocupado com o significado oculto do texto (se nos centrarmos, naturalmente, em críticos e teóricos capazes). Esses teóricos e críticos anti- ou não-intencionali...