"Por fim, põe-se o problema da associação entre a arte, a cultura, a estética africanas e a etnicidade, a comunidade ou o comunalismo, a ideia dominante mas falsa (e partilhada por muitos africanos e outros tantos doadores) de que o acto de criatividade é necessariamente um acto colectivo, que as formas artísticas africanas não são objectos estéticos em si, mas códigos secretos que dão acesso a um nível do "real" mais abstracto, fundamentalmente etnográfico e representativo da diferença cultural ontológica da África, isto é, a sua autenticidade. É esta "diferença" africana e esta "autenticidade" africana que os doadores buscam, mantêm e, se for necessário, fabricam.
Postos lado a lado, os efeitos combinados destes processos nas relações entre "doadores" e " beneficiários" bem como na criatividade e na autonomia culturais africanas são devastadores. Sem uma nova ética baseada no reconhecimento, na solidariedade e na reciprocidade, o modo como operam a maior parte das agências ocidentais de financiamento cultural (e até para além disso, as que financiam o desenvolvimento) não fará senão destruir cada vez mais a capacidade do continente para se impor a nível cultural e artístico no mundo."
Extrato de uma entrevista muito sugestiva de Achille Mbembe em Buala, traduzida do jornal Africultures.
Boa leitura!
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