Que toda a literatura tem seus clássicos, disso ninguém duvida. Nem mesmo que de os clássicos de cada literatura variam com o tempo, exceto alguns raros perpétuos. Ainda é cedo para dizermos quem são os perpétuos na nossa, mas podemos ir ao Brasil de Machado de Assis ou ao Portugal de Camões para dar dois exemplos.
São, porém, exemplos de uma só das aceções da palavra 'clássico' em literatura. Da aceção mais comum, claro: a dos autores que, pela maneira como são recebidos ao longo dos tempos, tornam-se cânones literários. Há clássicos de outra ordem: os que, à partida, procuram sê-lo. Ser um clássico é uma vocação e quase uma profissão (de fé também). Implica disciplina, uma disciplina incorporada e decerto conscientemente. Implica um tipo de discernimento mais calculado (nem por isso menos autêntico), premeditado que o do escritor romântico, exaltado, boémio incorrigível, incapaz de dominar os seus próprios instintos.
Roderick Nehone vem-se revelando, livro a livro, um clássico desta segunda espécie (o que não significa que não venha a ser também da primeira). Uma boia na tormenta é talvez a mais nítida confirmação disso, desde logo pelo título. Estamos perante um clássico em todos os sentidos e, realmente, só podia ser assim.
Um crítico medieval, referido por Aguiar e Silva na sua Teoria da literatura, construiu a roda dos géneros. Naquele tempo, já da decadência do Império romano, as grandes abstrações teóricas eram já construídas com alguma isenção temporal. Haviam já passados séculos de literatura, géneros tinham atingido o auge e depois outros e depois outros e depois desapareciam e renasciam sob outras formas. Nessa roda estabeleciam-se três 'géneros' que eram na verdade modos da produção literária, determinados por um tipo de personagem, um tipo de roupa, um tipo de animal acompanhante, um tipo de posição e atividade social, um tipo de gesto e de linguagem, etc. Havia, portanto, um 'género' medíocre (não tendo a palavra o sentido que hoje tem, mas o de médio, mediano), outro nobre, outro inferior (socialmente inferior). Havia para cada personagem definidora do género um tipo de comportamento também e, entre todos, valores comuns a exaltar e a depreciar, valores que tinham seus correspondentes comportamentos e gestos por sua vez.
Uma boia na tormenta faz um círculo do mesmo tipo. Vai construindo personagens caraterísticas, identificando-lhes comportamentos, maneiras de falar e de conviver, de negociar e de ambicionar, de se realizarem socialmente, etc. Ao mesmo tempo, conto a conto e personagem a personagem, transversalmente vai definindo comportamentos sociais clássicos, aceitáveis, recomendáveis, outros menos recomendáveis e outros mesmo inadmissíveis. É normal, num país que sai não só de longas guerras fratricidas mas também de autêntico caos mental, envolvido pela queda brusca dos hábitos e costumes do passado (fossem eles urbanos ou rurais) é natural e até necessário que surjam autores e obras deste tipo. Eles preenchem uma função social específica e necessária: a de dar ao comum das pessoas uma orientação social suficiente para manter a paz social e abrir caminhos aos mais disciplinados e capazes. É claro, isto no plano ideal da literatura…
É nestes momentos que se pode afirmar um percurso conservador, de direita para alguns autores e para outros apenas realista. A esquerda marxista falava de uma vanguarda revolucionária e construía regimes paternalistas a partir de uma ideologia rígida. Os conservadores apenas pensam que o povo precisa de uma orientação e que tal orientação lhe deve ser fornecida, sendo as artes um veículo muito útil para isso. Os integralistas lusitanos, por exemplo, no começo do século XX, através de António Sardinha teorizaram que a arte, pela ligação que fazia – através do mito – entre a filosofia moral e o povo, destinava-se particularmente à função social classicizante. Não pensam os conservadores que a arte se deva reduzir a tal propósito, mas sim que, sendo escrita por um conservador, inevitavelmente construirá modelos de conduta, nomeadamente pelas narrativas que vai contar. É sem dúvida uma utopia imaginarmos que a maioria das pessoas quer viver descondicionada relativamente a regras e cânones de conduta. A maioria das pessoas não quer saber disso para nada e, ficando solta, desorienta-se porque se concentra no dia-a-dia, no enriquecimento rápido, na vida 'prática' e acha tudo o resto coisa de intelectuais. Vemos isso ainda hoje, quando vivemos dias em que o próprio sentido de família se perde ou ignora nas jogadas espertas do quotidiano e da inveja. Em que membros de uma família exploram os outros que dizem acolher, abrigar ou apoiar. Ou usam outros familiares e amigos deitando-os depois fora como peças descartáveis, consumíveis. Os caminhos da liberdade psicológica, do descondicionamento, no caso religioso da iluminação, da criatividade, são caminhos para uma escassa elite – que não se define economicamente mas mesmo por viver tais valores no seu quotidiano, por aspirar a eles naturalmente e lutar por eles até ao fim – ou simplesmente vivê-los até ao fim, o que significa sempre e assumindo as respetivas consequências. Os mundos pequenos da ambição miúda, dos negócios quotidianos em que todos nos aldrabamos um bocadinho pelo menos e toleramos isso bem, da política suja, das glórias de esquina ou de quintal, dos cargozinhos e das potestades anãs, nada disso lhes interessa – e pagam por não lhes interessar. Mas a grande massa das pessoas, essa, não está para perder tempo com 'abstrações' e isso é tão justo quanto o contrário, porque é o resultado de um processo histórico muito mais vasto, cujo controlo escapará sempre a esse mesmo povo. Por isso mesmo ele precisa de orientação, de uma orientação mínima e comestível, que seja fácil de seguir e contemple a natural ambição dos homens. Os padres, nas homílias, contribuem semanalmente para isso. Por vezes até os políticos.
É para esse público (afinal a maioria de qualquer nação) que livros como este se escrevem. Não quer dizer que não os apreciemos. Claro que sim, olhando para a tessitura das palavras, para a urdidura das intrigas, para as artes do contista na conquista da simpatia do público, para as frases bem escritas, límpidas, de uma clareza clássica também. Mas essa é a receção do livro entre nós. Entre o povo – que geralmente não quer saber de literatura porque acha que lhe complicaram demais – entre o povo a literatura, para funcionar, é clássica (no sentido que dei agora ao termo). Não sendo, ou se torna kitch, popularucha, ou pretensiosa e ridícula, de qualquer dos modos cheia de clichés ridículos. E Roderick Nehone, por estas e outras razões, vem gradualmente constituindo-se num clássico da literatura angolana.
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