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A mostrar mensagens de 2018

Steiner, Orwell, 1984 e novos autores

A publicação de Tigres no espelho e outros textos , reunindo “em livro o trabalho do crítico” para o The New Yorker (entre 1967 e 1997), constitui uma oportunidade ímpar para avaliarmos as constantes e a evolução dos exercícios de leitura de Steiner. Uma oportunidade ímpar alargada, sem dúvida, pela facilidade em lermos o livro na edição digital, acessível a milhares de leitores em todo o mundo na tradução para português (Steiner, 2012) . O que desde sempre se destaca, tal como em todas as suas obras, é sem dúvida a grande erudição. O chavão não diz nada já, se não o esclarecemos. É que Steiner pesquisa mesmo tudo o que seja necessário à mais completa compreensão das questões e dos significados (ou, também, das estruturas) que a obra suscita. Por vezes as referências e comentários excedem o necessário, é certo, mas ainda assim as suas extensas recensões constituem bom exemplo de como não devemos escrever sobre obras literárias sem procurarmos, escavarmos em torno delas e do que...

Carlos Ferreira - meaidade

    O texto presente foi escrito para uma edição antológica do poeta Carlos Ferreira, por ele próprio organizada. Ela reúne alguns poemas éditos e inéditos, com duas vertentes que aliás correspondem às duas vertentes da lírica do autor: uma combativa, de crítica ou denúncia social e política directa; outra nostálgica, melancólica e emblemática. De que adiante falarei. Colocação do autor Carlos Ferreira marcou o seu lugar na poesia angolana, a partir dos anos 80, como o poeta das Causas perdidas – título que encima o seu livro anterior   (Ferreira, Causas perdidas, 2011) . A primeira obra intitulava-se, conscientemente, Projecto comum (Ferreira, Projecto comum, 1982) – e as seguintes constituem uma evolução fiel ao choque desse projecto com a realidade social e humana de Angola. Daí surgirem, para falar dele, frases como esta : “o radialista, cronista e poeta Carlos Ferreira, Cassé, é daqueles angolanos (são poucos) que dizem de forma clara, aberta e frontal o...

Caminhos Sombrios – Sandra Brown

O título deste romance está muito bem posto. Não tanto no sentido moral, ou aparentemente moral, que pode comportar nesse romance, mas pela falta de luz no conhecimento e relacionamento que temos uns com os outros. O desfile de máscaras e moralidades, que traz a profusão barroca de peripécias à narrativa policial escrita por Sandra Brown, coloca uma questão que me parece pertinente: a té que ponto o policial é indissociável do jogo de máscaras?  Em que medida o velar e desvelar de máscaras no policial cumpre também uma função social, avisando-nos da constante falsificação das relações pessoais nas nossas sociedades e seus arredores ou margens de risco?  Ainda que timidamente, houve disto em Angola nos anos 30, com Augusto Bastos ( Aventuras policiais do repórter Zimbro ) e Assis Júnior ( O segredo da morta ). Essas narrativas exemplares aclaravam para o leitor os caminhos sombrios, abrindo espaços de denúncia e de solução. Em parte, Pepetela retomou o serviço com o anti-h...

Amélia Dalomba - apresentação

Amélia Dalomba tornou-se uma referência da poesia angolana que se começou a editar nos anos 90 do século passado. Pertence a uma geração que se iniciou ao mundo nos primórdios da independência, da revolução do partido único e, portanto, uma geração da distopia do homem novo. De facto, para estas biografias, a realidade não sofreu nenhum desvio que, uma vez corrigido, nos devolveria o esplendor da felicidade social. Não. A revolução era o próprio desvio. O conhecimento dessa realidade começou, precisamente, com o desvirginar das ilusões ideológicas, com a desmontagem da retórica salvífica do Partido-Estado pela realidade quotidiana. A leitura que há para seguir adiante é a dessa desmontagem, esse é o mundo que temos para palmilhar em busca seja do quê . Cada membro desse grupo heterodoxo e multipolar não se ficou por aí. Crescendo com o falhanço da revolução e das melhores expetativas que a alimentaram, cada um foi se virando para uns e outros lados, reabrindo picadas e caminhos, ...

Estruturalismo, estruturação e música política

Na secção «Cultura» do jornal português Público , de hoje (21-1-2018), Luís Miguel Queirós realiza uma oportuna entrevista com Georg Friedrich Haas , "compositor em residência na Casa da Música em 2018".  A entrevista é oportuna por vários motivos. Um deles, ao qual talvez não se dê qualquer importância (por estarmos em registo jornalístico), prende-se com esta passagem:  [Haas vinha determinado] a defender o seu modo de  compor, mais preocupado em  servir o ouvido humano do que  em fornecer pasto para análises  estruturais das partituras.   Percebo o que ele quer dizer e concordo que essa é a postura própria de um compositor: criar para o ouvido. Humano.  O que me suscita este comentário é a expressão " análises estruturais ". Ela parece ter por referência modelos apoéticos e desinteressantes próprios da vulgarização do estruturalismo francês, ou francófono, dos anos 60 e 70. Esse estruturalismo, vulgarizado, não dissecou, secou...