A publicação de Tigres
no espelho e outros textos, reunindo “em livro o trabalho do crítico” para
o The New Yorker (entre 1967 e 1997),
constitui uma oportunidade ímpar para avaliarmos as constantes e a evolução dos
exercícios de leitura de Steiner. Uma oportunidade ímpar alargada, sem dúvida, pela facilidade em lermos o livro na edição digital, acessível a milhares de
leitores em todo o mundo na tradução para português (Steiner, 2012) .
O que desde sempre se destaca, tal como em todas as suas
obras, é sem dúvida a grande erudição. O chavão não diz nada já, se não o
esclarecemos. É que Steiner pesquisa mesmo tudo o que seja necessário à mais
completa compreensão das questões e dos significados (ou, também, das estruturas)
que a obra suscita. Por vezes as referências e comentários excedem o
necessário, é certo, mas ainda assim as suas extensas recensões constituem bom
exemplo de como não devemos escrever sobre obras literárias sem procurarmos,
escavarmos em torno delas e do que suscitam, para compreendermos a sua formação
e por que implicam tantas insinuações - por assim dizer insinuações.
Neste sentido, o processo criativo não deixa de estar
subjacente às mais variadas críticas de Steiner para o The New Yorker ao longo de todos esses anos - processo que sempre o preocupou, gerando títulos como Gramáticas da criação. Ele busca percebê-lo
em dois níveis: o da conceção da obra e o da psicologia do autor – não no
sentido corriqueiro da fofoca de artistas, mas no sentido mais nobre dos dramas
e ambições em que se movem as respetivas personalidades e de como elas estão
misturadas com a conceção das obras.
Sem dúvida, muitos outros aspetos há para realçar neste
coletânea. Nunca se lêem os seus artigos sem se aprender alguma coisa e sem se
perder de vista uma avaliação estética – trata-se, afinal de arte literária.
Veja-se, por exemplo, a recensão a 1984,de Orwell.
O que me trouxe aqui prende-se com essa recensão. Um dos
aspetos que Steiner realça é o da relação entre linguagem, política e poesia –
poesia na conceção que me parece verdadeira, que é a da composição com sentido
artístico, do qual não dissocio uma respiração própria, de onde podemos derivar
a importância do corpo e a do espírito, mas também não dissocio as pautas onde
a inscrevemos.
Orwell – e não foi só ele – considerou “o simples ato de
escrever como uma das últimas possibilidades de resistência humana”. Esse, de
resto, seria um dos sentidos englobantes de todo o livro. Essa escrita
libertária é personalíssima e realiza-se em solidão (não quer dizer que não
tenha sentido social, mas que o retiro solitário é o porto seguro da imaginação
livre – de resto, não há outra).
Como diz Steiner: “o tema das relações entre linguagem e
política, entre a condição da fala e da escrita humana, de um lado, e a do
corpo político, de outro, tinha atingido o próprio cerne das preocupações de
Orwell.” O crítico cita, a propósito, o ensaio «Politics and the english
language», publicado em 1946. Daí retira que para Orwell a política é “um
amontoado de mentiras, evasivas, loucura, ódio e esquizofrenia”. Esse amontoado
– nos nossos tempos cada vez mais vácuo ou vazio e enfatuado – invadirá e
poderá extinguir “a vitalidade consciente e responsável de todo o discurso
humano.” É um lixo, um amontado de lixo plástico atordoando os peixes e a vida
marinha. Por isso causa “a erosão do estilo”, com as “mentiras bem maquiadas
dos meios de comunicação de massa.”
Assistimos a esse drama em todo o mundo. Na literatura
angolana, por exemplo, onde a estetização possível face à linguagem tóxica,
folclórica e enfatuada dos políticos, só se torna possível pela carnavalização
luxuosa e exuberante de Lopito Feijoo em Doutrina
ou de Fridolim Kamolakamwe nos seus textos dispersos em rede. Mas a
carnavalização, que pode ser um discurso ainda de resistência, é também uma
ausência de resposta e de reposição da linguagem poética ou, simplesmente,
verdadeira. Não contrapõe nem acrescenta uma direção.
Orwell avança conselhos práticos que podiam recompor a
língua inglesa (no caso dele, sendo o ensaio dedicado a essa língua). São
comuns, conhecidos e reconhecidos, em parte coincidentes com a prática de
muitos escritores norte-americanos e ingleses do século XX e com as Seis propostas para o próximo milénio de
Italo Calvino. Por exemplo: não use uma palavra comprida onde bastar uma curta
(supõe-se que o mesmo para as frases, que não devem ser retorcidas, nem
prolixas, nem repetitivas, mas cingir-se ao ‘osso’, dar o seu recado com
precisão, beleza e sem pretensiosismos). Outro exemplo citado por Steiner: usar
a voz ativa em vez da passiva. Um terceiro, que adapto ao contexto angolano:
evitar a gíria, o calão, o jargão, ou qualquer outra forma de linguagem
forçada, artificial. Em vez disso, recorra-se à linguagem corrente
rentabilizando a sua capacidade de expressão e lucrando com a sua potência
comunicativa.
Steiner cita o final do ensaio de Orwell e uma parte nos
interessa mais:
A linguagem política […] é concebida para que as mentiras soem verdadeiras e o assassinato respeitável, e para dar uma aparência de solidez ao vento.
É mesmo isso o que se passa com muita da nossa poesia a
partir dos anos 80, ou seja, a partir do momento em que trocámos a ditadura
colonial por outra que, sendo embora de inicial (e aparente) inspiração russa
ou soviética, era vista como nossa, porque protagonizada por alguns de nós.
Muita da nossa literatura de hoje é feita “para dar uma
aparência de solidez ao vento”, embeleza a crueldade do nosso dia-a-dia sem
denunciar nem despertar, ou nos apontar, ou aprontar, um caminho. Por essa via
– da imitação do discurso meramente formal e balofo dos políticos – ou por
outra: a da imitação do tom pretensamente neutro e respeitável de alguns desses
discursos e dos comunicados e falas dos ‘quadros’ procurando insinuar um ‘rigor
técnico’. A nossa curiosidade literária é, muitas vezes, uma vítima da linguagem
pretensiosa e do charlatanismo linguístico onde o espalhafato exprime a
esquizofrenia e a metáfora esconde a evasiva – quando não o ódio.
Felizmente há bons autores,
quer mais velhos, quer mais novos. O resto, mero ruído, é um pano de fundo que
visa apenas atirar areia para os nossos olhos. É por isso que, na maioria das
vezes, ao se falar na má qualidade dos novos autores – um velho tópico para uma
realidade compreensível – eu prefiro realçar a qualidade artística de alguns
deles. O que não quer dizer que não repare na falsificação, nessa mesma falsificação
que autores mais velhos iniciaram.
Referência: Steiner, G. (2012). Tigres no espelho e outros textos. Rio de Janeiro:
Biblioteca Azul [Globo].
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