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Mensagens

A mostrar mensagens de janeiro, 2019

Essa música de Ivan Junqueira

tem muito que se lhe diga. Penso que o livro pode ser visto como o testamento poético do autor, falecido no mesmo ano da publicação   (Junqueira, 2014) .   Reunindo poemas escritos entre 2009 e 2013, a sua composição parece dominada por critérios técnicos, formais, exceto em pouquíssimos poemas inseridos mais ou menos pelo meio do livro (não fui contar o número de páginas, isso não me parece importante para o caso). Os seus motivos e tópicos, em geral, estruturam-se em torno de uma verificação, de uma exímia e, paradoxalmente, sensível filtragem que não recusa nenhum estímulo (portanto: nenhum motivo), mas os examina. Os poemas são, muitas vezes, esse exame que, ou depura a visão e a presença, ou justifica e processa a renúncia. Em todo o livro, quer na montagem-desmontagem formal, quer na dos conteúdos, a ligação a uma cultura clássica, do filão euroamericano principalmente, apoia com seus intertextos os passos do escritor. Indo por partes, aqui pretendo ainda ...

Intertextualizações em Doçura de Maurício de Almeida Gomes

  DOÇURA Quando a fitei extasiado, suas mãos pálidas, mimosas, escolhiam frutas bem cheirosas num recanto calmo do mercado. E por mero acaso (eu sei!, senhora minha desconhecida, Ai! só por mero acaso…) vossos olhos belos, plácidos e meigos, negros, fulgurantes, sobre mim poisaram, - p’ra logo se afastarem Indiferentes, distantes… Ao compor na rede a gostosa fruta, um pouco vos baixastes e o decote largo do vestido azul afastou-se lento como onda branda de cansado mar… Sem indiscrição, vi maravilhado duas lindas dunas cor d’areia fulva… Depois, naturalmente, sorrindo leve, leve, pisando manso, manso, (ai, se eu fora as pedras duras do caminho) andando lentamente, seguiste vosso rumo, senhora, Minha Desconhecida… Nesse rosto mato mórbido, estranho, vi a cor suave duns certos poentes mágicos de Angola. Vossa boca em sangue (Oh! acácias rubras esplêndidas, ao sol!) vossos olhos fundos (Oh noites de Luanda, de estrelas ap...

Aimée Bolaños - Las otras: antología mínima del silencio

Estamos condenados a inventar para nós uma máscara e depois descobrir que esta máscara é o nosso verdadeiro rosto ( Octávio Paz )  Houve um tempo em que sabíamos que a morte se dava quando se concluía a formação da pessoa, da personagem, da máscara que se nos cola ao corpo, como dizia Fernando Pessoa. Por isso, nos ritos funerários, o perfil do vate incorporava a máscara do rosto que teve essa persona enquanto visível e, então, pronunciava o discurso ou decurso da sua vida, realçando os aspetos relevantes e convenientes. Há mesmo quem diga ter sido essa a origem da poesia, pelo menos em pontos localizados do mapa-mundo.  As implicações de uma tal origem, para a teoria da literatura, são inúmeras e, seja qual a certeza científica, ela nos serve. Por exemplo para nos lembrar uma definição de poesia que pode cobrir qualquer espaço-tempo, qualquer ambiente social e histórico. É a definição de poesia como a imitação do homem através da fala e da encenação da fala. A...