DOÇURAQuando a fitei extasiado,
suas mãos pálidas, mimosas,
escolhiam frutas bem cheirosas
num recanto calmo do mercado.
E por mero acaso (eu sei!,
senhora minha desconhecida,
Ai! só por mero acaso…)
vossos olhos belos,
plácidos e meigos,
negros, fulgurantes,
sobre mim poisaram,
- p’ra logo se afastarem
Indiferentes, distantes…
Ao compor na rede
a gostosa fruta,
um pouco vos baixastes
e o decote largo
do vestido azul
afastou-se lento
como onda branda
de cansado mar…
Sem indiscrição,
vi maravilhado
duas lindas dunas
cor d’areia fulva…
Depois,
naturalmente,
sorrindo leve, leve,
pisando manso, manso,
(ai, se eu fora as pedras
duras do caminho)
andando lentamente,
seguiste vosso rumo,
senhora, Minha Desconhecida…
Nesse rosto mato
mórbido, estranho,
vi a cor suave
duns certos poentes
mágicos de Angola.
Vossa boca em sangue
(Oh! acácias rubras
esplêndidas, ao sol!)
vossos olhos fundos
(Oh noites de Luanda,
de estrelas apagadas!)
vosso corpo esbelto,
flexível, dolente,
(Oh cadência doce
de batuque antigo!)
o eflúvio quente
o perfume fino,
uma claridade
astral e difusa
que vós derramais,
fizeram-me sentir
serdes vós, senhora
feliz possuidora
do divino dom
de saber amar.
Por todo o vosso todo,
harmonioso e belo,
eu, poeta, pensei
com os sentidos ajoelhados:- graças ao Senhor,
eis uma Mulher!
parece toda ela
transbordar de amor!
Este poema de Maurício
de Almeida Gomes, publicado inicialmente na Mensagem
(Gomes, 1951) , estabelece, com
máxima beleza, o ponto fulcral e final da passagem da nossa lírica urbana do
século XIX para a literatura moderna da Mensagem
e da Antologia dos novos poetas –
publicações que sintetizaram os novos modelos literários do país, apesar da
precária impressão (no segundo caso) e da circulação muito escassa (nos dois
casos).
A transformação
do nosso património literário novecentista na moderna poesia angolana operou-se
inicialmente com Tomás
Vieira da Cruz – que teve, nesse instante,
um papel decisivo. Geraldo
Bessa Victor é também figura importante
neste contexto. Ele publica Ecos dispersos, ou seja, um resumo da arte literária que vinha do romantismo e do
realismo angolanos e, pouco depois, Ao som das marimbas – o advento já de uma poesia marcada pelo modernismo e pela
temática ou motivação ‘negra’. Essa passagem nos mostra o salto que se deu na
altura e, logo por isso, o nome de Bessa Victor se tornara incontornável.
Mas o caminho seguido aqui por Maurício de Almeida Gomes, evocando embora o
trabalho de Tomás Vieira da Cruz e – menos um pouco – o de Geraldo Bessa Victor
– ultrapassa-os e faz mais do que transição. O maior interesse do poema – para
além da grande imagem daquela mulher urbana metonimizando Angola e o Amor –
está precisamente em que ele nos mostra o que a nossa memória literária tem de
poético.
Quando lemos a lírica angolana do século XIX parece-nos pouco interessante.
Realmente, muitos dos nossos versejadores não chegaram a ser poetas, ainda
quando ágeis manejadores de versos.
Esta é, mesmo, uma das características principais a ter em conta. Mário
António chamou-nos a atenção para isso, para a importância da
habilidade técnica em Maia
Ferreira e outros dos nossos românticos. Creio que Gerald Moser
também. E ficámos por aí.
O estudo dos ritmos, da métrica, do jogo de rimas, do incumprimento e
cumprimento de regras de versificação criando estruturas personalizadas, é
muito mais profícuo do que deixa prever a ausência de estudos acerca dele –
principalmente entre nós. Além dos aspetos técnicos envolvidos, isso
permite-nos perceber indícios culturais de maneira segura, mais isenta, do que
explorando conteúdos através das interpretações hermenêuticas.
Podemos ver mesmo neste poema de Maurício Gomes o quanto é profícuo tal
estudo. Ao começarmos a ler encontramos um ritmo que nos é algo familiar –
embora não exatamente igual à provável fonte. É o ritmo dos poemas de Cesário
Verde que torna familiar aquela primeira estrofe para quem já
conheça o poeta lusitano. Cesário Verde
é, coincidentemente, o grande senhor da visualidade num país de envergonhados e
de pudores muito santos. A poesia portuguesa raramente desvela o seio – o seio
é, em Portugal, uma entidade abstrata captada em modelos antigos e estrangeiros
(o do renascimento italiano, por exemplo). Talvez por isso a lírica portuguesa
apresenta, em geral, um fraco índice de visualização. Cesário Verde,
pelo contrário, parece um grande operador de câmera – para além do refinado
artista da palavra e do ritmo que é também.
Ora, o ritmo da primeira estrofe, alertando-nos para Cesário Verde,
alerta-nos para a visualidade que vai governar toda a exposição que um poema é
também. Aqui, a visualização está à altura do poeta português. E mistura-lhe a
fina malandrice angolana e urbana, que se requintava numa linguagem antiga
porque nobre, porque o antigo assume (não só na poesia) foros de nobre e
respeitoso e, portanto, resguarda bem a malícia.
Gomes Leal é outro poeta português mais ou menos da mesma época.
As suas Claridades do sul foram muito lidas em Angola no fim do
século XIX – como em Portugal. É, a par de Cesário Verde (ainda que
diminuindo-lhe a luminosidade e a paleta cromática), um poeta de aguçada e
forte visualização. Os seus poemas imprimem-nos imagens visuais (e táteis e
sonoras) que nunca mais esquecemos. É o caso daquela imagem que surge numa composição
que podemos ouvir musicada e cantada pelo grupo Madredeus em Portugal:
Quem me dera ser o trigo
Que andando pisas na eira
…
Quem me dera ser a pedra
Em que tu lavas no rio
Imagem, sem dúvida, muito
próxima desta nossa:
(ai, se eu fora as pedras
duras do caminho)
duras do caminho)
Ora, direis, mas este
senhor vem para aqui falar da lírica angolana do século XIX e só fala em poetas
portugueses? Calma! Estou a mostrar que a nossa lírica romântica e
pós-romântica está entrelaçada com esses poetas também, que era de grandes
leituras e originalidade – ao contrário do que se pensa – estou a mostrar isso
através deste poema porque ela está toda aqui. Vou passar a recordar-vos o
quanto ela está aqui e o quanto ela é nossa.
Ao passarmos da primeira
estrofe para a seguinte vemos que o ritmo – não só a métrica – muda. A mudança
é cuidadosamente preparada (quer o autor o fizesse por método, quer por
intuição): os 2 últimos dos 4 primeiros versos da primeira estrofe têm acento
rítmico interno na 5.ª sílaba. Eles apresentam igualmente 9 sílabas métricas
(na contagem portuguesa – ou seja: até à última acentuada). No entanto o 3.º
verso faz uma transição: se dissermos rápido a primeira sílaba (como acontece
na oralidade) ele conta só 8 sílabas – como os dois de cima; se dissermos todas
as sílabas como são, conta nove – como o verso de baixo.
Nos três versos iniciais
da segunda estrofe o poeta brinca com os ritmos anteriores, não os abandona
logo. Eles têm, respetivamente, 7, 9 e 6 sílabas. A sequência é pouco
recomendável, segundo Amorim de Carvalho,
porque junta dois versos com métrica ímpar. No entanto eles estão suportados,
ainda, por um jogo de acentos e cesuras internos. O acento interno do primeiro
verso da 2.ª estrofe é na 5.ª sílaba – como acontece nos dois últimos da
primeira estrofe. Viriato
da Cruz usa muito esta técnica: deixar os versos em sequências
aparentemente descuidadas, até pouco recomendáveis segundo os clássicos
portugueses, ao mesmo tempo que parece estruturar o ritmo a partir da repetição,
ou quase, do primeiro hemistíquio, marcado pelo acento interno principal. De
maneira que a sequência de 9 (n.º de sílabas do último verso da 1.ª estrofe)
para 7 (n.º de sílabas do primeiro verso da 2.ª estrofe) não fica deselegante,
na medida em que está suportada sobre a repetição do ritmo interno.
O segundo verso da
segunda estrofe retoma a totalidade métrica anterior (nove sílabas métricas) e
inverte o ritmo: o acento principal cai na 4.ª sílaba, passando a unidade
rítmica de 5 sílabas para a segunda parte do verso. É um processo que também Viriato
da Cruz não desconhece. A sequência inverte-se, ficando, em vez de 5’4
(cinco mais quatro sílabas métricas com cesura e acento na quinta sílaba do
verso), 4’5.
O terceiro verso desta
estrofe tem seis sílabas (portanto não destoa ali, mesmo segundo o tratadista
Amorim de Carvalho (Carvalho, 1991) ) e repete o
hemistíquio inicial de quatro sílabas.
A partir deste verso, o
ritmo dominante passa a ser o de 5
sílabas – um verso popular em Portugal, no Brasil e em Angola. Urbano de Castro – não o músico, mas o poeta português do nosso século XIX,
seu provável antepassado – usava-o muito, por exemplo. Maia
Ferreira também o praticou. Cordeiro
da Matta não o ignorou – embora não o cultivasse, apenas
experimentava. Essa unidade rítmica (cinco sílabas), que aparece em muitas
músicas populares, não se repete sempre igualzinha a si própria. Por vezes o
poeta troca-a pela de seis sílabas, por exemplo. Mas para logo voltar à base de
5 sílabas e jogando sempre com acentos menores. É uma solução que também vemos
em Viriato da Cruz, leia-se «Namoro» para ver como ele joga com o ritmo de 5
sílabas métricas – sobretudo, no seu caso, inserido em versos maiores como
unidade rítmica interna.
Esta oscilação, que
evita o ritmo encantatório e sonolento da repetição, articula-se também a duas
preocupações definidoras da geração da Mensagem:
a nacionalista e a modernista.
Uma das preocupações
mais fortes do movimento modernista era com a rutura total face aos esquemas
métricos herdados e que já não correspondiam aos ritmos do quotidiano, da fala,
das conversas. A aproximação ao ritmo coloquial visava reavivar a poesia,
retirar-lhe o eco balofo de eras antigas em que só a declamação ganhava com os
ritmos híper codificados.
Em países colonizados
era comum a arte literária estar também colonizada. O veículo dessa colonização
literária passava muito pela imposição de cânones rítmicos, métricos e estrofes
que, por aqui, soavam ainda mais distantes, falsos e ocos do que na velha
Europa de onde vieram. Portanto, a libertação modernista era, nos países
literariamente colonizados, uma libertação nacionalista. A aproximação à fala
reportava-nos a ritmos, entoação, prosódia próprias, com musicalidade diferente
da de outros países e continentes. Assim o modernismo se globalizava ao mesmo
tempo que permitia a cada grupo localizar-se, radicar-se no seu país.
A nossa fala quotidiana,
seja em umbundu, em kimbundu, kikongo, português, ou qualquer outra das línguas
que formam o nosso património linguístico, é uma fala mais próxima das estruturas
rítmicas bem conhecidas pelos tocadores de marimba. Um solo de guitarra, ou
viola, pode reproduzir um pedaço de fala, mas de uma fala individual. Ouvindo
marimbas ouvimos mais do que isso, ouvimos a estrutura rítmica de uma conversa.
Nas conversas, ainda que um falante fosse monocórdico, o outro não seria,
contraporia no mínimo outra unidade rítmica. A junção das duas (e nunca são só
dois tipos de unidade rítmica numa conversa) dá uma oscilação constante em que
ritmos curtos alternam – sucessiva mas não metodicamente – com ritmos mais
longos. O resultado pode lembrar um acordeão ou sanfona quando o sanfoneiro ou
acordeonista fazem, constantemente, o instrumento encolher e alargar. Assim são
os ritmos das conversas.
A oscilação rítmica
notada nos poetas nacionalistas angolanos tem, portanto, esta dupla função de,
ao mesmo tempo, modernizar os modelos métricos vindos do passado e aproximá-los
de uma fala nossa – nossa no espaço e nossa no tempo.
Podemos agora comparar o
que deduzimos a partir da métrica e do ritmo com o que podemos deduzir a partir
do vocabulário, dos tópicos e motivos, enfim do plano do ‘conteúdo’.
É fácil observarmos que
esta mescla de ritmo popular codificado (5 sílabas) e oscilações modernistas se
acompanha por um vocabulário trazido do século XIX (o do “divino dom / de saber
amar” – verso que tem muito para se dizer dele) com outro contemporâneo.
Mas o mais interessante
não será, pelo menos para mim, confirmar a mescla. O poema surpreende-nos mais
quando reparamos que o seu autor pega nos tópicos, ritmos e vocabulário mais
antigos, gastos, serôdios, aparentemente sem qualquer interesse para nos
mostrar como e em que medida eles são poéticos, sim senhor. Ou melhor: para nos
provar que podemos continuar a nossa poesia a partir da anterior.
Podemos regressar à
primeira estrofe e olhar, por exemplo, os dois versos do meio. Quando lemos
“suas mãos pálidas, mimosas” podemos lembrar-nos de Cesário Verde, novamente,
dos românticos europeus, dos decadentistas portugueses e brasileiros, dos
românticos brasileiros da segunda geração (por vezes tão tétricos). Enfim: toda
essa ‘tralha’ do sótão literário nos viria parar, inerte, à memória. O que o
poeta faz é reativá-la.
Logo no verso seguinte
ele junta à imagem da dama pálida (que nos faria pensar numa europeia dama) a
continuação das suas mãos. De facto, ele fala de “mãos pálidas” e todas as mãos
são pálidas quando vistas pela sua palma. Em seguida ele nos transmite o que
fazem ali tão mimosas mãos: colhem fruta. Colhem fruta aromática (“bem
cheirosa”). O aroma da fruta traz-nos a vida de volta e leva quem pensou em
damas pálidas a reorganizar a imagem da receção. O erotismo da cena está
implicitamente assegurado pelo próprio gesto de colher a fruta. O “recanto
calmo do mercado” dá-lhe o ambiente recolhido que permite uma observação mais
completa e mais íntima, bem como alguma reação, favorável e discreta, por parte
da “senhora minha desconhecida”.
A imagem da ‘musa’ vai
sendo definida (e, eventualmente, corrigida) ao longo do poema. O “rosto mato”
podia ser “rosto mate”, de cor mate ou trigueira, morena. Se de facto o poeta
escreveu “mato” aportuguesando mais ainda a palavra ‘mate’, o sentido é esse.
Mas ele pode mesmo ter escrito “mato” para lembrar, ao mesmo tempo, a tripla
conotação com ‘moreno’, ‘mate’ e ‘mato’. Não se trata de uma ambiguidade, mas
de uma ambivalência (ou seja: não precisamos optar entre uma e outra hipótese,
porque elas são cumulativas). O rosto-mato lhe traz algo do aromático da fruta,
do lugar de onde vem a fruta, a liga mais à terra, enfim.
E é por essa ligação à
terra, especificando-se repetidamente a terra angolana, que o poema vai
definindo cada vez mais a figura feminina como a de uma “senhora” angolana, se
não como a própria Angola. No que, mais uma vez, encontramos uma forte
proximidade com o «Namoro» de Viriato da Cruz.
Maurício de Almeida
Gomes faz isso sem deixar de recorrer a um vocabulário antigo, a par do
vocabulário quotidiano. Vocabulário e motivos. Por exemplo, o “eflúvio quente”,
o já citado “divino dom”, a sintaxe muito formal de outros tempos sublinhando o
respeito (“serdes vós”). Assim o poeta nos mostra que o vocabulário e os
motivos herdados do século XIX não precisam de ser ignorados ou destruídos para
se construir a poesia angolana do século XX. Precisam só de ser reanimados por
uma reestruturação que lhes traga a beleza que havíamos esquecido e a mostre no
século seu.
A passagem mais feliz do
poema é também aquela em que esta síntese estética mais equilibrada se encontra.
Refiro-me às estrofes terceira e quarta.
Essa passagem termina em
clímax com a visão das “duas lindas dunas / cor d’areia fulva”. A cor é
designada por uma palavra que reforça o vocabulário cuidado, escolhido e
erudito característico da nossa poesia antiga. A rima nuclear, ou tónica, e
vocálica (duas / dunas / fulva) reforça a
sugestão de proximidades, de similaridades, em vez de mera repetição – como
sucede com os ritmos. As vogais constroem uma alternância entre o a (médio
ou fechado, nunca em posição tónica) e o u – tirando essas duas, o i
repete-se uma vez e as outras vogais não se repetem. Evitando vogais abertas,
os dois versos prolongam a sugestão da “onda branda / de cansado mar…” que
suave e discretamente abre o decote. Qualquer leitor percebe rapidamente a
natureza cálida e personalizada dessas dunas. O que talvez nem todos os
leitores conheçam, mas intensifica a poeticidade do trecho, é uma adivinha
angolana, talvez usual em kimbundu, que diz mais ou menos isto:
Duas
pedras no porto [ou na praia]?
Dois seios no peito.
Tal como fez com a lírica do século
XIX, o autor remexe na adivinha tradicional e aproxima-a mais da fluida beleza
feminina. Substitui, portanto, “pedras” por “dunas” e dá-lhes uma cor “fulva”,
revendo-as num movimento lento e gracioso.
Suspeito que não esgotei o que havia
a dizer sobre o poema. Espero, porém, ter aberto linhas de leitura que outros
possam desenvolver, acrescentar e corrigir. É o que, honestamente, podemos
fazer: reanimar o texto com leituras sugestivas, em aberto, que esperam ser
completadas.
Francisco Soares
Jardins do Éden
22 a 24-12-2012.
Bibliografia
Carvalho, J. M. (1991). Tratado de
versificação portuguesa. Coimbra: Almedina.
Gomes, M. d. (1951). Doçura. Mensagem,
1.
Marques, I. G., & Ferreira, C.
(2011). Entre a lua, o caos e o silêncio: a flor. Luanda: Mayamba.
Comentários
Enviar um comentário
Comente