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Mensagens

A mostrar mensagens de 2010

A família Bantu

"Dentre os grupos linguísticos dessa grande família congo- saariana, as línguas bantu apresentam um parentesco genético tão notável que pode ser encarado como um fenómeno relativamente recente. Não só linguistas como também historiadores e arqueólogos empenharam-se em elucidar a 'génese dos Bantu'. Mas as hipóteses diferem. Alguns presumem que a migração bantu, partindo do norte, mais precisamente da região do Camarões ou da bacia do Chade, teria marginado a floresta de modo a contorna-la a leste e, passando pela África oriental, ter-se ‑ ia difundido na África meridional. Outros, como Sir H. Johnston, acreditam que os Bantu vieram diretamente da região centro ‑ africana, através da floresta do Zaire. Por fim, alguns estudiosos, de acordo com a teoria do linguista M. Guthrie, que situa o núcleo linguístico protótipo dos Bantu entre os Luba e Bemba no Alto Zaire, apontam essa região como seu lugar de origem.  Avançando ainda mais, chega ‑ se a apresentar os povos de lín...

Tradição e representação

Os estudiosos da tradição política da monarquia portuguesa – entre os quais, sem dúvida, vários integralistas lusitanos – destacaram (talvez por causa da discussão premente sobre representação e liberdade na Europa do seu tempo) o sistema representativo tradicional, que levou às Cortes e a uma utopia monárquica na qual ainda hoje me parece que podemos encontrar a semente de um novo sistema político, mais equilibrado e mais representativo. Essa utopia não estava isolada, muito menos era apenas o fruto de uma espécie de neonativismo luso e medievalista. Podemos encontrá-la espalhada pelo mundo, com matizes próprios segundo o lugar – como é próprio de propostas políticas equilibradas. Até em países islâmicos, como o Paquistão de Zia-ul-Haq. O grande problema dessa como de outras utopias é o de se prestarem a que dirigentes ditatoriais delas se apropriem, caricaturizando-as para servirem os seus interesses imediatos – como sucedeu em Portugal com Salazar e no mesmo Paquistão com o mesmo g...

Os do quintal

Ao fim de muitos anos de espera os leitores podem hoje consultar as instigantes investigações de Virgílio Coelho sobre o reino do Ndongo e sobre os Tumondongo. São dois volumes (haverá mais, assegura o autor): «Em busca de Kábàsà…» : estudos e reflexões sobre o «Reino» do Ndòngò : contribuições para a História de Angola (Luanda: Kilombelombe, 2010) e Os Túmúndòngò, os «génios» da natureza e o kílàmbà : estudos sobre a sociedade e a cultura kímbùndù (Luanda: Kilombelombe, 2010). Mais acento, menos acento, deve ser isso… Como pelos subtítulos se mostra, o primeiro dos volumes referenciado centra-se em temas históricos, ou histórico-antropológicos; o segundo centra-se em temas mais estritamente antropossociológicos. Para dois grossos volumes (468 e 418 pp. respetivamente), comentários de caráter geral virão com mais tempo, naturalmente. Alguns aspetos vão, no entanto, surpreendendo-nos e suscitando reflexões ao longo da leitura. Um dos mais instigantes prende-se, a meu ver, com u...

Novas crioulidades, novas descentralidades e a nossa herança estética

Datada de 4 deste mês, o magazine do prestigiado jornal francês Le monde publicou uma série de oito testemunhos de oito escritores(as) africanos sobre o ‘continente negro’ (siga a ligação http://www.lemonde.fr/international/article_interactif/2010/12/04/huit-ecrivains-africains-racontent-l-afrique-qui-vient_1447623_3210.html ). O ‘dossier’ intitula-se “Huit écrivains africains racontent l'Afrique qui vient”. “L’Afrique qui vient” é, precisamente, uma das pedras de toque do caderno, motivado por um recente encontro, no Mali, a propósito das comemorações dos 50 anos das independências africanas. O encontro realizou-se sob a forma de  festival, intitulado sugestivamente «Etonnants Voyageurs de Bamako». O festival decorreu entre 22 e 28 de Novembro último e, segundo o Le monde , “revelou aos jornalistas (entre outros aspetos) a nova geração de escritores africanos francófonos… Libar Fofana, Alain Mabanckou, Léonora Miano, Patrice Nganang, Véronique Tadjo, Abdourahman Waberi entre os ma...

Gbagbo, o ex-democrata

As eleições e a democracia em África, particularmente na África Ocidental, continuam num processo de avanços e recuos em que, naturalmente, os recuos são trágicos. Enquanto na Guiné Conakry - um país com cinco décadas de ditaduras - o candidato derrotado aceitou os resultados, que deram a vitória a um opositor e democrata veterano, a Costa do Marfim encontra-se novamente às portas da guerra civil. Ao longo da campanha Gbagbo já tinha dado sinais de que só era democrata enquanto o seu poder não estivesse em risco. A encenação da paz visava, na verdade, engolir a oposição armada e a oposição civil, gradualmente, incluindo através de eleições que ele estava destinado a ganhar. Ao longo da campanha, acusações constantes de ingerência estrangeira (por exemplo por um chefe de Estado vizinho receber o candidato oposicionista, procedimento normal entre países democráticos) e outras faziam subir o tom e levavam-nos a desconfiar da democraticidade do candidato-presidente. A reação pós-eleitor...

frente e costas, de bicicleta

Veio a público, a partir da Mandrágora  portuguesa, pedalando numa bicicleta que descende por via uterina do próprio Marcel Duchamps, a primeira ação do projeto editorial frente & costas . Como entre pessoas íntegras frente e costas não se desmentem, ambas as metades dessa assimetria são assinadas por M. Almeida e Sousa, performer, ator, poeta português desde cedo envolvido nas vanguardas artísticas ibéricas. Como em todas as peças assim concebidas, o final das duas partes fica, paradoxalmente, no meio da brochura. Mas o que mesmo interessa está lá dentro, de qualquer maneira. Na frente um teatro absurdo, com uma linguagem completamente nova e intraduzível - embora de sonoridade agradável. As indicações cénicas são dadas em português e culminam com a última, onde uma linguagem profundamente lírica, surreal e paradoxal fecha a peça com chave (portuguesa) de ouro.  Na segunda metade, a presença da linguagem se junta à sua indiferenciação, por ilegibilidade ou por i...

II trienal de Luanda

A II trienal de Luanda continua a cumprir uma função estruturante no meio artístico luandense: a de atualizar as culturas artísticas locais pelo emparceiramento com criadores de outros países e de qualidade evidente.  Este ano a fotografia ganhou relevo e mostrou o que já se vinha observando a pouco e pouco, mitigadamente: que a fotografia artística angolana pode apresentar-se, de igual para igual, em qualquer parte do mundo. Esta trienal torna-se, por consequência, um marco na história da fotografia angolana – ainda que, felizmente, não se reduza a isso. Outra escolha da trienal que me parece de realçar é a inclusão de espetáculos de leitura de poesia, articulada ou não com música, design, fotografia, projeções. Há sem dúvida mais trabalho a desenvolver, porque a apresentação de poesia é – também ela – um espetáculo total, incluindo performance , representação, mímica, projeção de imagens e de sons, dança. O poema chama por tudo isso para se transmitir. Por sua vez, nem todos...

Sugestões de leitura

1. Morreu uma figura emblemática de Luanda, Gabriel dos Santos Baguet, pai do nosso amigo Gabriel Baguet Jr. Jerónimo Belo publicou, no Jornal de Angola de Domingo (21-11-2010, p. 7) uma sentida crónica. Desta vez não é o aspeto estético (está muito bem escrita) que me interessa mais – apesar de tudo. O mais retenho são informações bibliográficas que, para além do momento sentido, fortemente emotivo, são fundamentais para quem tiver a pretensão de fazer História da Literatura. O retrato psicológico de Gabriel dos Santos Baguet, feito por Jerónimo Belo (“um dos rapazes de então a quem o meu querido primo Baguet influenciou”), retrata-o “em primeiro lugar” enquanto “Mestre e amigo”: “foi toda a vida um homem de tertúlias, um nacionalista convicto, um perguntador constante mas sempre muito disponível para ouvir os outros e um cantor da Mulher”. O que fazia com os amigos em tertúlia é o que mais me interessa agora: “contava desafios de memória, muitos d...

contraste sem confronto

Título do Novo jornal (19-11-2010, p. 19): «Angola com dificuldades em travar proliferação da pólio» Subtítulo: “Ministro da Saúde admite ‘responsabilidade moral’”. Sem dúvida um exemplo – e vindo de quem se tem empenhado na luta contra a poliomielite. Realmente, a democracia e a ditadura estão, antes de tudo, na cabeça de cada um de nós.

contrastes e confrontos 2

Jornal de Angola , 5.ª F.ª, 18-11-2010. Chamada à capa: “Mais energia para Luanda/Entrevista”. Entrevista (p. 5), título: «João Borges garante mais energia para Luanda». Aviso, na última página – título: «Redução de energia à cidade de Luanda».

contrastes e confrontos 1

“É urgente criar uma mentalidade de rigor e profissionalismo na gestão das empresas públicas. Tem que haver uma boa gestão, fazer prevalecer o princípio da transparência e da prestação de contas” – afirmação, pertinente e notável, da Ministra da Comunicação Social em entrevista ao Novo jornal (19-11-2010, p. 13). E muito mais em se tratando de empresas de comunicação social, em que o rigor e o profissionalismo se estendem à exatidão, isenção e sentido de oportunidade da notícia, à necessária existência de contraditório, ao rigor usado na linguagem e no raciocínio, à acuidade das perguntas em entrevistas, etc. Da mesma entrevista (mesma página): “infelizmente, [d]os pedidos que estão aqui no Ministério [para abertura de televisões privadas…] o tipo de nome que é dado à televisão, os planos editoriais que nos apresentam, que não são aliciantes nem abrangentes, [bem como] pela falta de capacidade financeira” não podem ser aprovados. A TV Zimbo, por reunir todas ess...

Necessidade de expressão

"Necessidade de expressão" - sempre ouvi esta expressão com um sentimento de vazio. O próprio facto de estar a escrever sobre isso levou anos a acontecer, porque sempre me parece pretensioso (o pretensioso pretende afirmar(-se) algo que, se fosse, dispensava afirmações). Portanto calo-me. Se escrever, terei de lutar pela expressão, mas escrever pela pretensão de me exprimir é caricato. Andar com sapatos de sola rota.

Dizer ao contrário

Notícia do portal Angonotícias , datada de 10 de Novembro e transcrita do Jornal de Angola : Título:  Imprensa em Angola é imparcial Primeiro parágrafo: " A secretária-geral do Sindicato dos Jornalistas Angolanos, Luísa Rogério (na foto), reconheceu, na segunda-feira, em Luanda, que os níveis de observância dos princípios de imparcialidade na abordagem de matérias jornalísticas em Angola têm estado a melhorar, apesar de reconhecer que falta ainda muito trabalho pela frente."  Terceiro parágrafo:  “A questão da imparcialidade em Angola está na ordem do dia. Tem vindo a ser discutida a vários níveis. Pensamos que existem algumas melhorias. Contudo, será melhorada com a aprovação de certos diplomas legais, como, por exemplo, o referente à carteira profissional”, disse a secretária-geral. A sindicalista referiu, igualmente, que a observância da imparcialidade vai ser ainda melhor avaliada no contexto angolano, quando for aprovado o novo estatuto do jornal...

Cultura - notas positivas

Duas notas positivas no campo cultural: a atribuição de prémios no âmbito do Prémio Nacional de Cultura e Artes foi, desta vez, bastante mais consensual, corrigindo injustiças antigas, esquecimentos inexplicáveis.  Segunda: não se realizou (pelo menos ainda) o encontro para a construção de uma história oficial da literatura angolana. Que não faz nenhum sentido. Os historiadores da literatura, particularmente no âmbito das universidades, se cumprirem o seu papel tornam desnecssária uma iniciativa inusitada, dispendiosa e inconsequente. 

Violeta, Cândido Furtado e Casimiro de Abreu, com Cruz e Sousa de passagem

Na p. 116 do Almanach de lembranças para 1864, o poeta português J. Cândido Furtado, então residente em Angola onde foi Juiz, escrevia um poema que marcou época «No álbum de uma africana». Cerca de um século depois, o poema foi alvo de polémicas e incompreensões resultantes de leituras anacrónicas. Ali se elogia, na verdade, a mulher africana a partir de um verso de Virgílio (Égloga II, v. 18): as brancas alfenas caem, colhem-se as negras bagas . Num dos seis quartetos aparecem estes dois versos:   É menos bella, acaso, a violeta porque o céu lhe não deu nevada côr?   A passagem conota, portanto, metaforicamente, a violeta com a mulher negra. A conotação da violeta com a cor negra deve ter sido um cronótopo mesmo depois do romantismo lusófono. Cruz e Sousa, no Brasil, escreveu muitos anos depois uma série de poemas intitulada «Campesinas e outros versos»; no segundo desses poemas, ao glosar uns olhos negros, ele escreve:   Teus olhos, flor das violetas, Lembram certas uvas pretas...

Crioulidades rítmicas

Levitin, no livro já citado A música no seu cérebro , fala com toda a propriedade do caso de Joni Mitchell. O que mais lhe (e nos) interessa é a composição de acordes ambíguos. Transcrevo com a extensão necessária: Como Joni não estudara teoria musical nem sabia ler música, não tinha como informar-lhes [aos bateristas que tocavam com ela] qual era a tónica, e precisava dizer quais notas estava tocando na guitarra, uma a uma, para que fossem descobrindo por si mesmos, laboriosamente, cada um dos acordes. Mas é aqui que a psicoacústica e a teoria musical colidem numa explosiva conflagração: os acordes habitualmente usados pela maioria dos compositores – dó maior, mi bemol menor e assim por diante – são inequívocos. Nenhum músico competente precisaria perguntar qual a tónica de um acorde como esses; é óbvio, havendo apenas uma possibilidade. A genialidade de Joni está em criar acordes ambíguos, que poderiam ter duas ou mais tónicas. Quando não há um baixo sendo tocado junto com sua g...

Tom Chatfield

Tom Chatfield é um homem de vários ofícios: designer (desenhador?) e consultor para jogos de vídeo, ensaísta e crítico particularmente atento à teorização dos jogos de vídeo (v. Fun Inc. UK ; USA: Virgin ; Pegasus), conferencista (principais temas: tecnologia, mídia e jogos), editor da secção de «Artes e livros» da revista Prospect (com edição em suporte papel e digital). Foi também professor universitário, doutorado e especializado em literatura inglesa contemporânea. Na revista que edita publicou um artigo que, não trazendo propriamente nada de novo no que diz respeito às relações entre novas tecnologias e literatura, mostra como (sobretudo) a narrativa se transforma em todos os aspetos na sua relação com o mundo digital em rede e avança dados interessantes. Por exemplo que na Amazon, em Julho deste ano, a venda de livros eletrónicos superou, pela primeira vez, a venda de livros em suporte papel – ao fenómeno não terá sido estranho o desenvolvimento de programas de leitura cada ve...

Neuromúsica evolutiva

Apesar do excesso de tiques próprios das receitas para escrita ensaística, o livro A música no seu cérebro , de Daniel J. Levitin, lê-se com agrado e, sobretudo, ensina-nos muito sobre as relações entre arte, neurobiologia, Gestalt, psicologia evolutiva e ciências cognitivas. Juntando essas disciplinas o autor dá-nos uma panorâmica segura e completa sobre como funciona a música no nosso cérebro, desfazendo falsas ideias feitas e muito divulgadas até hoje. O que ele diz acerca da música também serve para a literatura em muitos casos. Claro que há aspetos meramente musicais referidos, como outros literários não referidos, mas todo o interessado em literatura lucra com esta leitura.  As investigações e asserções de Levitin permitem-nos fundamentar com precisão tópicos da teoria literária demonizados pelos relativismos niilistas, que fizeram do campo raso e queimado o símbolo da reflexão… inútil. A partir dessa obra (como de outras, por exemplo as de António Damásio e Denis Dutton) c...

Ferrão antigo

           AO RIO QUANZA (No Album de Eduardo Neves) Serpente immensa de prata coleando em campo verde, Cauda que ao longe se perde nos inhospitos sertões, cabeça posta no oceano torcendo o corpo em mil voltas, e co'as escamas revoltas rasgando o solo em golphões! Tal és quando a tempestade do céo rompe as cataratas e das immensas cascatas rolam liquidas montanhas! Trazendo no bojo enorme que ruge como as crateras cabanas, colonos, feras arvores, troncos e penhas! Mas logo que o sol ardente as aguas bebe do espaço, brilhas qual polido aço mal se vê teu deslisar! Queria stateficar-te e sobre o dorço em torpor vagões aos mil de vapor velozes fazer rolar. E da tua foz ao teu berço mandar-te em milhares d'expressos força, justiça, e progresso, tres centelhas redemptoras da tua aurora futura, que espantará os milhafres, e fará das hordas cafres legiões trabalhadoras. Mas enquanto es...

Procura-se

  No século XIX havia um interesse generalizado por livros e leitura. Criou-se um amplo mercado livreiro, internacional, o que permitiu superar a fase dos mecenatos e sem descolorir as produções nacionais, tão procuradas quanto as estrangeiras – portanto também sem se reduzir a produções locais. Uma prova disso mesmo eram os anúncios de jornais. A procura de livros era tão intensa que, não só os livreiros, ou comerciantes genéricos, anunciavam os títulos disponíveis, também os leitores publicavam anúncios procurando obras específicas – e esses leitores não eram apenas estudantes nem apenas homens. Havia um público diversificado e generalizado. Um exemplo desses anúncios podia ser assim: Procura-se História Oficial da Literatura Brasileira, podendo também ser da portuguesa, caboverdeana, moçambicana ou de qualquer outro país. Resposta a este jornal ao n.º X. Infelizmente, em países de longa tradição fradesca e autoritária, os especialistas no ramo passaram da bajulação do Mecenas à ba...