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Violeta, Cândido Furtado e Casimiro de Abreu, com Cruz e Sousa de passagem

Na p. 116 do Almanach de lembranças para 1864, o poeta português J. Cândido Furtado, então residente em Angola onde foi Juiz, escrevia um poema que marcou época «No álbum de uma africana». Cerca de um século depois, o poema foi alvo de polémicas e incompreensões resultantes de leituras anacrónicas. Ali se elogia, na verdade, a mulher africana a partir de um verso de Virgílio (Égloga II, v. 18): as brancas alfenas caem, colhem-se as negras bagas.

Num dos seis quartetos aparecem estes dois versos:

 

É menos bella, acaso, a violeta

porque o céu lhe não deu nevada côr?

 

A passagem conota, portanto, metaforicamente, a violeta com a mulher negra. A conotação da violeta com a cor negra deve ter sido um cronótopo mesmo depois do romantismo lusófono. Cruz e Sousa, no Brasil, escreveu muitos anos depois uma série de poemas intitulada «Campesinas e outros versos»; no segundo desses poemas, ao glosar uns olhos negros, ele escreve:

 

Teus olhos, flor das violetas,

Lembram certas uvas pretas

Metidas entre folhagens.

 

Casimiro de Abreu, poeta no seu tempo muito popular entre os leitores e, sobretudo, as leitoras românticas, escreveu a 4 de Abril (não sei de que ano) este poema:

 

Violeta

 

Sempre teu lábio severo
Me chama de borboleta!
- Se eu deixo as rosas do prado
É só por ti - violeta!

 

Tu és formosa e modesta,
As outras são tão vaidosas!
Embora vivas na sombra
Amo-te mais do que às rosas.

 

A borboleta travessa
Vive de sol e de flores.
- Eu quero o sol de teus olhos,
O néctar dos teus amores!

 

Cativo de teu perfume
Não mais serei borboleta;
- Deixa eu dormir no teu seio,
Dá-me o teu mel - violeta!

 

Casimiro de Abreu, que foi estudar para Portugal em 1854, publicou as Primaveras românticas em 1859 – a tempo de Cândido Furtado as ler. É produtivo lermos o seu poema a partir da conotação feita por Cândido Furtado, que talvez tenha lido assim o poema de Casimiro de Abreu.

 

Pelas conotações típicas da época, as "rosas do prado" são conotáveis com a mulher e a mulher branca mais especificamente. A mulher branca de faces e lábios rosados, divinizada ou não. Que, sendo cânone da beleza cantada pelos poetas mais prestigiados, era naturalmente vaidosa. A violeta, pelo contrário, vive "na sombra" – o que já de si a conota com a pele negra. Ao se declarar a ela com juras de fidelidade ("Não mais serei borboleta") Casimiro de Abreu permite-nos pensar que se tratava de uma mulher negra e de um elogio à mulher negra, comparada com as rosas vaidosas e claras. O verso "embora vivas na sombra" ganha então mais força nessa conotação. Trata-se de uma intensidade não necessariamente negativa mas antes que reforça, pelo contraste, o poder atrativo da mulher que alcunha o poeta de borboleta.

 

É bem possível que João Cândido Furtado, por sua vez outra borboleta, se tivesse inspirado no poema de Casimiro de Abreu para fazer a comparação conotativa que faz entre a mulher negra bela e a flor chamada violeta.

 

 

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