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Adelino Torres: breve testemunho sobre Ernesto Lara Filho

  Quanto ao texto sobre o Lara Filho, conheci bem, como calculas, o trajeto político dele desde Paris e, depois, da sua saída atribulada de Brazzaville, a qual foi uma história infelizmente pouco reluzente e que marcou o seu destino.   Durante muitos anos cortei relações com ele (como aliás quase toda a gente da F.U.A. [Frente de Unidade Angolana, desse tempo, não a de 1974] que, com razão, se sentia “traída”) mas quando estive em Angola em Agosto de 1974 soube que ele estava no hospital (em Nova Lisboa ou Benguela, mas inclino-me mais para Nova Lisboa, já não me lembro bem), gravemente doente e sozinho. Já me tinha passado a “febre” política e as ilusões de outros tempos, por isso decidi ir vê-lo ao hospital. Foi muito ao entardecer, o hospital estava mal iluminado e não havia ninguém: os corredores, tanto quanto me lembro, estavam desertos ou quase desertos.  Parecia um sepulcro…   Acabei por o encontrar num quarto, sozinho, na penumbra, estendido numa cama...

A derrota do pombeiro Pedro João Batista

  Nota preliminar Quando pesquisava sobre poetas angolanos do século XIX nos Anais Marítimos e Coloniais , editados pela Associação homônima portuguesa, dei com a transcrição integral de uma crônica onde o pombeiro Pedro João Batista relatava a travessia, por terra, de Angola para Moçambique, mais precisamente do Mucari (quase Malanje) para Tete [1] . Era a primeira para o conhecimento europeu, promovida por autoridades coloniais. No entanto, o documento foi escrito em um português coloquial distante em relação ao que supomos terem sido as normas da época em Portugal. As variantes serão valorizadas posteriormente por práticas literárias como a de Luandino Vieira, que tomaria o português de musseque como modelo. Quais são as constantes desse português coloquial e a que falantes podemos associá-las?   Descrição e ordenação do documento A pp. 162 do nº 5, de 1843, dos Anais Marítimos e Coloniais , inicia-se a transcrição do relato da viagem, sob o título «Explorações ...