Quanto ao texto sobre o Lara Filho, conheci bem, como calculas, o trajeto político dele desde Paris e, depois, da sua saída atribulada de Brazzaville, a qual foi uma história infelizmente pouco reluzente e que marcou o seu destino. Durante muitos anos cortei relações com ele (como aliás quase toda a gente da F.U.A. [Frente de Unidade Angolana, desse tempo, não a de 1974] que, com razão, se sentia “traída”) mas quando estive em Angola em Agosto de 1974 soube que ele estava no hospital (em Nova Lisboa ou Benguela, mas inclino-me mais para Nova Lisboa, já não me lembro bem), gravemente doente e sozinho. Já me tinha passado a “febre” política e as ilusões de outros tempos, por isso decidi ir vê-lo ao hospital. Foi muito ao entardecer, o hospital estava mal iluminado e não havia ninguém: os corredores, tanto quanto me lembro, estavam desertos ou quase desertos. Parecia um sepulcro… Acabei por o encontrar num quarto, sozinho, na penumbra, estendido numa cama...
Ensaios de estranheza, pesquisa e reflexão.