Avançar para o conteúdo principal

Adelino Torres: breve testemunho sobre Ernesto Lara Filho

 

Quanto ao texto sobre o Lara Filho, conheci bem, como calculas, o trajeto político dele desde Paris e, depois, da sua saída atribulada de Brazzaville, a qual foi uma história infelizmente pouco reluzente e que marcou o seu destino.

 

Durante muitos anos cortei relações com ele (como aliás quase toda a gente da F.U.A. [Frente de Unidade Angolana, desse tempo, não a de 1974] que, com razão, se sentia “traída”) mas quando estive em Angola em Agosto de 1974 soube que ele estava no hospital (em Nova Lisboa ou Benguela, mas inclino-me mais para Nova Lisboa, já não me lembro bem), gravemente doente e sozinho. Já me tinha passado a “febre” política e as ilusões de outros tempos, por isso decidi ir vê-lo ao hospital. Foi muito ao entardecer, o hospital estava mal iluminado e não havia ninguém: os corredores, tanto quanto me lembro, estavam desertos ou quase desertos.  Parecia um sepulcro…

 

Acabei por o encontrar num quarto, sozinho, na penumbra, estendido numa cama. Ele estava com a aparência de um esqueleto, quase irreconhecível. Foi um choque tremendo. Ele, quando me viu, desatou a chorar e eu também. Tínhamos sido bons amigos em Paris e aquela situação era chocante e dramática. Eu jamais vira uma coisa tão desesperada e dolorosa de que nunca mais me esquecerei.

 

Desde essa altura não voltei a vê-lo. Soube depois que ele tinha recuperado. Anos (?) mais tarde disseram-me que teria sido atropelado por um camião. Cheguei a ouvir falar de um “atentado”.

 

Prefiro guardar dele a imagem de Paris: alegre, divertido, e um bom amigo. Simplesmente o Lara não tinha cabeça política. Era um boémio impetuoso, mas, ao mesmo tempo, um notável repórter (e não um escritor propriamente dito) com uma “garra” impressionante para o ofício de repórter.

 

Infelizmente a sua memória ficou manchada pela maneira como saiu de Brazzaville. Na verdade julgo que o remorso o matou aos poucos em vida, porque no fundo era um “anarquista” romântico à maneira do século XIX, sem nenhuma vocação nem disciplina para a actividade “militante”, coisa que realmente ele nunca foi. Na vida real era um bom homem, um pouco ingénuo, muito “farrista” (farra antes de tudo), africano até à medula mas vítima de si próprio e da sua falta de clarividência política.

 

Penso nele com muita tristeza e, hoje, sem o julgar.

 

Quanto ao artigo desse Serra, vale o que vale.

 

Um abraço

Adelino


[17.10.2012]

Comentários

Mensagens populares deste blogue

José da Silva Maia Ferreira - uma biografia atlântica - resumo e notícia

  https://www.amazon.com/Jos%C3%A9-Silva-Maia-Ferreira-Portuguese-ebook/dp/B0CLGDRQ4N https://www.amazon.com/Jos%C3%A9-Silva-Maia-Ferreira-Portuguese-ebook/dp/B0CLGSCYWX?ref_=ast_author_dp Ao fim de muitos anos de pesquisa, da qual fui dando sinais aqui, fragmentários sem dúvida, publiquei finalmente a biografia de José da Silva Maia Ferreira. Como se sabe, t rata-se do primeiro poeta angolano a publicar um livro em Angola, entre o fim de 1849 e o começo de 1850. O título é bem conhecido: Espontaneidades da minha alma: às senhoras africanas .  O que publiquei foi uma extensa biografia centrada na pessoa do poeta e nas pessoas que o antecederam, que o acompanharam, com quem se relacionou. Pelas relações pessoais e sociais estudadas acabei fazendo igualmente um esboço do que foram várias das comunidades atlânticas onde se falava também o português: a angolense (Luanda e Benguela, principalmente), a brasileira (Rio de Janeiro e Recife sobretudo), a portuguesa (Lisboa e Porto), a ...

Bocage em Angola - no século XIX

Por uma santa queres tu passar, E mal sabes que no mundo exaltar Honra e virtude, é uma peta e engano, Como em bom verso disse o divo Elmano (Cordeiro da Matta, «A uma Lucrécia», Luanda, 1887)

Plínio Palhano

Plínio Palhano é um desses extraordinários criadores pernambucanos cuja obra fica mal conhecida fora de um círculo ou circuito estrito. Desde poetas como Carlos Pena Filho, ou Alberto Cunha Melo, ou Ângelo Monteiro e Lucila Nogueira, até este artista plástico a arte e a literatura de Pernambuco, particularmente de Olinda-Recife, continua a constituir uma experiência instigante para estudiosos e apreciadores. Talvez recursos como a Internet estejam subaproveitados por alguns destes criadores artísticos. Atualmente foi colocada em rede uma mostra significativa, que vale mesmo a pena visitar, de quadros de Plínio Palhano. Para ela remeto os visitantes do blogue. É só clicar em Plínio Palhano