Quanto ao texto sobre o Lara Filho, conheci bem, como
calculas, o trajeto político dele desde Paris e, depois, da sua saída
atribulada de Brazzaville, a qual foi uma história infelizmente pouco reluzente
e que marcou o seu destino.
Durante muitos anos cortei relações com ele (como aliás
quase toda a gente da F.U.A. [Frente de Unidade Angolana, desse tempo, não a de 1974] que, com razão, se sentia “traída”) mas quando
estive em Angola em Agosto de 1974 soube que ele estava no hospital (em Nova
Lisboa ou Benguela, mas inclino-me mais para Nova Lisboa, já não me lembro
bem), gravemente doente e sozinho. Já me tinha passado a “febre” política e as
ilusões de outros tempos, por isso decidi ir vê-lo ao hospital. Foi muito ao
entardecer, o hospital estava mal iluminado e não havia ninguém: os corredores,
tanto quanto me lembro, estavam desertos ou quase desertos. Parecia um
sepulcro…
Acabei por o encontrar num quarto, sozinho, na penumbra,
estendido numa cama. Ele estava com a aparência de um esqueleto, quase
irreconhecível. Foi um choque tremendo. Ele, quando me viu, desatou a chorar e
eu também. Tínhamos sido bons amigos em Paris e aquela situação era chocante e
dramática. Eu jamais vira uma coisa tão desesperada e dolorosa de que nunca
mais me esquecerei.
Desde essa altura não voltei a vê-lo. Soube depois que ele
tinha recuperado. Anos (?) mais tarde disseram-me que teria sido atropelado por
um camião. Cheguei a ouvir falar de um “atentado”.
Prefiro guardar dele a imagem de Paris: alegre, divertido, e
um bom amigo. Simplesmente o Lara não tinha cabeça política. Era um
boémio impetuoso, mas, ao mesmo tempo, um notável repórter (e não um escritor
propriamente dito) com uma “garra” impressionante para o ofício de repórter.
Infelizmente a sua memória ficou manchada pela maneira como
saiu de Brazzaville. Na verdade julgo que o remorso o matou aos poucos em vida,
porque no fundo era um “anarquista” romântico à maneira do século XIX, sem
nenhuma vocação nem disciplina para a actividade “militante”, coisa que
realmente ele nunca foi. Na vida real era um bom homem, um pouco ingénuo, muito
“farrista” (farra antes de tudo), africano até à medula mas vítima de si
próprio e da sua falta de clarividência política.
Penso nele com muita tristeza e, hoje, sem o julgar.
Quanto ao artigo desse Serra, vale o que vale.
Um abraço
Adelino
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