Num ensaio de 1981 (« A voz e a linguagem »), incluído em Arte y verdad de la palabra , Hans-Georg Gadamer afirma ser a literatura “verdadeiro escrever que «cria» algo para um leitor com quem já se conta ou para outro a quem há que seduzir” (p. 57). É uma perceção objetiva da realidade comunicacional da arte e de quanto ela condiciona a criatividade (sendo que, neste caso, o condicionamento a potencia). Sem dúvida muito mais interessante do que a ligação que, anteriormente, fizera com o conceito de « leitor ideal » e a armação teórica de Ingarden (p. 32, num texto datado de 1971). Olhando-a a partir do texto, “é a vizinhança, não disto ou daquilo, senão da possibilidade de tudo” que define e distingue a palavra poética – traço que se vê potenciado na ciberliteratura. Há uma íntima relação entre as duas afirmações: por se dirigir a um leitor “a quem há que seduzir” (e por ser esse leitor muito mais vasto e vago do que o de qualquer outro tipo de escritos) o escritor te...
Ensaios de estranheza, pesquisa e reflexão.