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Google, internet e conhecimento


Chad Wellmon, professor-assistente de estudos germânicos na Univ. da Virgínia, publicou na The hedgehog review um lúcido artigo a propósito das polémicas criadas em torno da Internet e do Google. 


A última terá partido de um artigo de N. Carr, intitulado «Is Google making us stupid?: what the internet is doing to our brains?» (The Atlantic (July–August 2008): <http://www.theatlantic.com/magazine/archive/2008/07/is-google-making-us-stupid/6868/>). Chad Wellmon demonstra como tal tipo de questão está mal colocado e não conduz a nada. O mesmo para a visão utópica da Internet e do Google e outros motores de pesquisa e de enciclopédia.


O que é mais interessante, porém, no seu artigo é a ligação que ele faz entre o desenvolvimento da Internet, do Google, da Wikipédia e a nossa maneira de lidar com a informação e o conhecimento. A partir de um breve historial ele nos mostra que o excesso de informação e publicação é uma queixa antiga e já inconsequente há muitos anos também. A solução perante uma enorme oferta de informação e formação e publicação também já vem de muitos séculos atrás, com as listas de concordâncias para leitores da Bíblia, os abregées e a própria enciclopédia. 


Uma das características da cultura livresca imediatamente anterior à da nossa época - uma característica à qual a maioria das pessoas não deu muita atenção, mas os criadores do Google deram - tem que ver com as notas de rodapé ou de fim de texto. Elas punham-nos já, no tempo do livro exclusivamente impresso, em papel, punham os leitores em rede, na rede da cultura 'universal' escrita. Remetiam-nos para outras obras que, por sua vez, nos haviam de remeter para outras num processo tendencialmente infinito embora ainda lento. 


O leitor ou leitora argutos nos lembrarão que essas notas eram, geralmente, bem dirigidas (antes da massificação da academia, sobretudo - porque a massificação da academia nos trouxe o culto da referência bibliográfica como recurso banal para mostrar erudição, leitura, conhecimentos - que muitas vezes não temos porque não lemos os livros todos que citamos e, como dizem os portugueses, ponto final parágrafo).


Em contrapartida, as hiperligações - que são as notas de rodapé de hoje - não são dirigidas. Outra das virtudes do artigo deste nosso colega da Univ. da Virgínia prende-se justamente com a sua preocupação em nos mostrar que as buscas em motores como o Google são, sim, dirigidas. Mais, os criadores e os gestores do Google estabelecem como ideal o tipo de busca no qual os usuários encontram exatamente o que procuram - portanto, perdendo cada vez menos tempo com 'informação a mais'. O direcionamento pode ser também de outra ordem, mas é diferente, sem dúvida, do que havia nos livros. Porque num livro as notas são feitas em função do próprio livro e na Internet ou no Google não podem sê-lo, visto que se destinam, em princípio, a todos os internautas. O que não impede o Google de nos dar indicações que vão precisando a natureza e a importância (relativa, claro) das hiperligações, inclusivé listando-as de acordo com o grau de aproximação às palavras de busca.


O resto é connosco - e foi sempre. Importa apurarmo-nos na arte da escolha, da decisão, para sabermos rentabilizar o manancial posto hoje à nossa disposição. Se ficarmos mais estúpidos é porque, de alguma forma, não soubemos escolher. Isso não é uma condenação determinada pelo excesso de informação. 


Uma pergunta que Chad Wellmon deixa no ar e que paira como chave de ouro sobre o seu artigo é relativa às mudanças que toda essa disponibilidade e rapidez podem trazer ao nosso processo de conhecimento - coletivo e pessoal. É cedo ainda para respondermos mas, pela minha parte, pude ir muito mais longe até agora e o caminho tem-se revelado produtivo.



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