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Mensagens

A mostrar mensagens de agosto, 2012

Plágio e colagem

Um belo dia, acompanhando um poeta que muitos de nós prezamos enquanto poeta, vi-o rabiscar num pedaço de papel. Ao sentir-se observado (na verdade, olhei por acaso para o lado), amachucou o papelinho na mão, por causa da pressa instintiva com que o guardou. Em seguida sorriu, com o sorriso típico da criança apanhada a fazer uma travessura, e explicou-se (sem que eu lhe tivesse perguntado alguma coisa): sabes, às vezes ouço coisas e leio coisas na rua que gosto, então guardo, depois junto-as e dá bons poemas. Não me espantou. Lembrei-me de alguém me ter contado que, no espólio de Fernando Pessoa , havia muitos papelinhos do mesmo tipo, escritos com canetas e tintas diferentes, onde havia versos, primeiro soltos, em outros (presumivelmente posteriores) já parcialmente agrupados, em outros quase os que líamos na Mensagem , ou em mais livros de poemas do famoso escritor e pensador português.  Agora, que me estou a recordar disto, lembro-me também de uma vez o poeta A. M. Cou...

o fascínio do cânone

(Esta era uma nota antiga que, por motivos que desconheço, não foi publicada aqui na altura em que a escrevi, logo nos primeiros dias do 'blogue'. Encontrei-a lá no fundo, classificada como 'rascunho', e recuperei-a. Acho-a, infelizmente, ainda actual - embora algum nome se possa já trocar por outro). A existência de cânones literários em qualquer corpus histórico vem sendo investigada sob várias perspetivas e há várias décadas. Particularmente duas perspetivas foram produtivas nos últimos anos: uma, mais prolífica, visa deconstruir o cânone para deixar no seu lugar um território de ninguém, uma espécie de terra queimada que é a grande especialidade da popularização do deconstrucionismo euro-americano; outra, mais especializada e menos empenhada partidariamente, procura tão só compreender como se formam os cânones literários e como atuam nos sistemas literários respetivos. Quando, do espaço lusófono, começaram a chegar a Luanda notícias (artigos, livros, conferênc...

Mais uma vez, nacionalidade literária e identidade nacional...

O debate sobre a nacionalidade literária e as identidades nacionais, étnicas, regionais, imperiais, reaviva-se de quando em quando, conforme as situações específicas que enfrentam escritores de certos países. Especialmente os escritores de nações sem  Estado (como a Galiza, a Escócia, a Martinica) continuam muitas vezes a ver no nacionalismo literário a via mais direta para reivindicar uma independência (pelo menos cultural). Para além disso, cada avanço da globalização sobre culturas locais provoca a reação dialética oposta, de resistência.  Não penso necessário o nacionalismo literário para sustentar uma reivindicação de especificidade cultural e de autonomia ou independência política. Uma cultura cosmopolita como a catalã não deixa de ser uma cultura identitária forte, por exemplo. Lembro-me de Gaudí , de Dali , de Miró , de Joan Brossa - todos eles, entretanto, profundamente catalães e profundamente universais. E de como a sua existência ajuda muitas vezes a criar simp...

Maia Ferreira, a guerra civil nos EUA e dois filhos

Em 1864, segundo Carlos Pacheco, José da Silva Maia Ferreira deixa os EUA e regressa ao Brasil. Teria abandonado o país durante o penúltimo ano da guerra civil, que terminou em 1865. Nesse ano (1864) ainda se alistaram soldados para a guerra e, curiosamente, aparece nas listas um homónimo do nosso poeta, com uma descrição coincidente em grande parte: nascido em Portugal, ocupação mercador, olhos negros, cabelo negro, tez escura.  Alistou-se no Brooklyn a 25 de Fevereiro desse ano, no 6.º Regimento de Cavalaria. Será que regressou ao Brasil para fugir da guerra civil nos EUA? Depois de se ter alistado? O desfasamento vem pela idade. Este José da S. M. Ferreira (nome com que está na ficha de alistamento), não se lhe dá ano de nascimento mas diz-se que tem 35 anos. O nosso Maia Ferreira nasceu a 7-6-1827. Mas uma diferença destas pode não ser muito significativa para o caso, tanto mais que o registo no ancestry.com , de onde saquei as informações, indica nascido “ cerca de ...

Maria Manuela Araújo, Virgílio e Nita

Publicamos aqui uma conferência de Maria Manuela Araújo, intitulada « António Aurélio Gonçalves: contar com ironia a relação h omem-mulher no espaço humano mindelense», apresentada ao  Colóquio Internacional Cabo Verde e Guiné‑Bissau: p ercursos do Saber e da Ciência . Através da narrativa a autora tenta perceber como se representava então a relação de género naquele núcleo urbano sui generis . " O texto que se apresenta trata a relação do par Virgílio e Nita, no conto « Noite de Vento », de AntónioAurélio Gonçalves , com o objectivo de uma melhor compreensão da relaçãohomem/mulher no espaço humano da cidade do Mindelo , S. Vicente . A formulação do olhar crítico aqui presente será efectuada à luz de um suporte conceptual, de índole social, cultural e literária, cujas fontes são da autoria de FrancescoAlberoni , Roland Barthes e Victor Seidler . A escolha desta temática deve‑se ao facto de o texto implicar na sua arte narrativa uma perspicácia analítica de comportamentos regu...