O debate sobre a nacionalidade literária e as identidades nacionais, étnicas, regionais, imperiais, reaviva-se de quando em quando, conforme as situações específicas que enfrentam escritores de certos países. Especialmente os escritores de nações sem Estado (como a Galiza, a Escócia, a Martinica) continuam muitas vezes a ver no nacionalismo literário a via mais direta para reivindicar uma independência (pelo menos cultural). Para além disso, cada avanço da globalização sobre culturas locais provoca a reação dialética oposta, de resistência.
Não penso necessário o nacionalismo literário para sustentar uma reivindicação de especificidade cultural e de autonomia ou independência política. Uma cultura cosmopolita como a catalã não deixa de ser uma cultura identitária forte, por exemplo. Lembro-me de Gaudí, de Dali, de Miró, de Joan Brossa - todos eles, entretanto, profundamente catalães e profundamente universais. E de como a sua existência ajuda muitas vezes a criar simpatia pelas reivindicações de autonomia ou de independência da Catalunha. A manipulação global desses valores culturais locais nos conduz para aí, por vezes apesar das opiniões de chefes ou escritores 'nacionais', ou 'endógenos'.
Não creio que, no nosso caso, faça qualquer sentido hoje discutir os problemas da nacionalidade literária como o fazíamos quando apelávamos à independência. Mas não deixa de ser pertinente para qualquer teórico (e, portanto, para qualquer teórico angolano) discutir o lugar do universal e do local nas atuais culturas globalizadas ou globais.
A discussão torna-se estéril se a limitamos ao nosso caso particular. O nosso caso particular serve de contraste a outros casos e é nessa medida que ele pode ser útil a um teórico. Por isso também, não será produtivo refletirmos sobre questões de identidade literária, ou mesmo de identidade nacional, sem nos confrontarmos com outros países e com nações sem Estado. Ou seja: sem entrarmos no jogo dinâmico dos contrastes e das semelhanças, que é o método básico de qualquer raciocínio intelectual.
É estimulante ver que ensaístas nacionais discutem cada vez mais o tema dialogando com teóricos de origem diversa, porque a internacionalização da discussão nos torna mais aptos e nos evita cometer erros conhecidos por outros povos. É um caminho que, por mim, comecei há muito e não deixa de me surpreender que ainda hoje alguns amigos considerem pertinentes leituras que fiz há quase 20 anos. Por mim, continuo atualizando-me o mais possível.
Uma situação contrastiva que me parece produtivo levar em conta é a da Escócia, precisamente. Irvine Welsh falou recentemente no Edinburgh World Writers' Conference e reconfigurou a temática de uma cultura e de uma literatura nacionais em termos muito estimulantes. Entre outros, conta-nos a história do seu próprio sucesso: conforme foi vendendo mais livros no estrangeiro foi deixando de ser elogiado, foi deixando de ser considerado 'endógeno' (ele não usa esse termo) e passando, até, a ser acusado (por alguns escoceses) de usar a cultura local para entretenimento de estrangeiros (mais precisamente: "whoring out my culture for the entertainment of outsiders"). Do que talvez pudéssemos acusar já... Sir Walter Scott - que muitos dos nossos escritores dos séculos XIX e XX leram deliciados.
No seu texto Irvine refere a teoria de um estudioso das literaturas latino-americanas na Universidade de Miami, George Yúdice. A visão de Yúdice é a de que "emergiu uma nova divisão do trabalho cultural, combinando a diferença local com administração e investimento transnacionais". Ele dá vários exemplos convincentes e o conselho final de Irvine Welsh (na sua conferência) mostra-nos a pertinência desta visão.
Nada de muito novo mas algo totalmente esquecido por intelectuais anquilosados em antigas visões de esquerda (as de direita pulverizaram-se): universal a partir da diferença e contando-a, manejando o local através de ligações internacionais que o levam para o 'resto do mundo' (expressão, aliás, muito discutível).
Bom, mais extenso e mais preciso devia ser o meu escrito. Mas fica lançado o tópico e a leitura de texto de Irvine, disponível no The guardian, permitirá colmatar as imprecisões da minha pressa.
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