Um belo dia, acompanhando um poeta que muitos de nós prezamos enquanto poeta, vi-o rabiscar num pedaço de papel. Ao sentir-se observado (na verdade, olhei por acaso para o lado), amachucou o papelinho na mão, por causa da pressa instintiva com que o guardou. Em seguida sorriu, com o sorriso típico da criança apanhada a fazer uma travessura, e explicou-se (sem que eu lhe tivesse perguntado alguma coisa): sabes, às vezes ouço coisas e leio coisas na rua que gosto, então guardo, depois junto-as e dá bons poemas.
Não me espantou. Lembrei-me de alguém me ter contado que, no espólio de Fernando Pessoa, havia muitos papelinhos do mesmo tipo, escritos com canetas e tintas diferentes, onde havia versos, primeiro soltos, em outros (presumivelmente posteriores) já parcialmente agrupados, em outros quase os que líamos na Mensagem, ou em mais livros de poemas do famoso escritor e pensador português.
Agora, que me estou a recordar disto, lembro-me também de uma vez o poeta A. M. Couto Viana (esse mesmo, que ajudou M. António a ser divulgado em Lisboa) me falar em dois tipos de escritores. O tipo dele era o que ia escrevendo e reescrevendo mentalmente; quando punha no papel era já tudo pronto. O rascunho era só escrito aos olhos do espírito. Assim, ia apanhando vozes, interiores e exteriores, ouvindo as suas próprias respostas (poéticas) e guardando. Associava-as depois, organizava a nova totalidade, olhava o conjunto várias vezes com os olhos da memória, retocava, limava, limpava, melhorava até sentir que podia sair o poema. Só nessa altura escrevia.
São dois métodos de composição: um mediado pela escrita desde quase o início; o outro próprio da oralidade. Chamo-os aqui, porém, por aquilo que mostram de comum aos processos de invenção artística. Se repararmos bem, o que os poetas fazem - tanto num caso quanto no outro - é ir colando sugestões, respostas, audições, leituras, pedaços de falas, de outros versos de outros poetas, de versos involuntários (por exemplo que lemos às vezes num muro ou numa hiace e que não foram escritos com intenção de fazer poesia), enfim, coisas que ouvimos no rádio ou vimos na TV, juntam-se os pedaços para se fazer uma com-posição.
É, de certo modo e em grande parte, o que alguma crítica francesa e Lévi-Strauss chamavam de bricolage. Corte e costura na ironia mordaz do David Mestre, que também conotava a expressão com a arte de mal-dizer típica dos meios artísticos e intelectuais.
Posta a questão nesta ordem, desde o início que a invenção tem qualquer coisa de plágio. O que escrevemos como poema tem pouco material nosso. O material são os sons, as palavras, frases ou bocados de frases, tópicos, conotações. O que é nosso é o vislumbre de uma nova totalidade que integra esses fragmentos e a escolha dos fragmentos a integrar - que em grande parte segue as sugestões conotativas da(s) semiosfera(s) na qual (nas quais) funcionamos.
Vem isto a propósito da questão do plágio, que novamente ganha terreno perante o mundo atual. Há plágios descarados - esses é que são mesmo. Por exemplo plagiar uma tese de doutoramento, como fizeram alguns políticos (e não só). Plagiar um artigo de um colega jornalista (como ainda recentemente aconteceu no jornal português Público). Ou seja: copiar é plágio e plágio é crime. Na cópia, tudo é igual ao original, incluindo a ordem das frases e das palavras.
Tirando isso, vamos perdendo intensidade plagiadora conforme nos aproximamos de outro mítico extremo: a criação absoluta, em que tudo é inteiramente novo (se ela se realizasse ninguém entendia o que se escrevesse então).
A corda que liga os dois mitos (o plágio completo, a cópia total, é coisa rara no meio artístico, felizmente) é o chão sobre o qual todos nós andamos. Todos nós, no mundo artístico e, mesmo, intelectual e científico.
Quando os surrealistas deram à colagem uma extrema dignidade artística e desenvolveram técnicas de colagem que alguns de nós ainda aprenderam como brincadeira no Liceu colonial, estavam somente a assumir uma veneranda instituição criativa.
Daí que não compreenda como se pode hoje tão facilmente acusar de plágio tanta gente que, de todo, não é isso que está a fazer. E, muito menos, que se entre no século XXI a confundir plágio com colagem, dizendo que ambos os processos falsificam a literatura. Não há confusão possível, porque do lado da colagem fica o toque decisivo da criatividade, o que reorganiza os materiais e os transforma em poesia. Ao passo que, do outro lado, fica toda a repetição exaustiva.
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