Não se escreve, nem se fala, nem se pensa no vazio. O vazio é uma ponte para outra margem, simbolizada no rio Letes pelos romanos. Do lado de lá não se fala. Deste lado do vazio, reescrevemos e redizemos em função de múltiplos fatores, entre os quais tudo aquilo que lemos. Portanto faz todo o sentido saber o que foi lido quando a personalidade se formava. Também faria sabermos o que foi falado, mas isso não ficou registado, só deixa sinais, alertas, aliás em parte na própria escrita, que é sempre uma ficção... Vejamos um pouco melhor. A nossa fala insere-se num fluxo contínuo que dá conta de mais enciclopédias que a nossa e as incorpora, é um vulcão, o fogo da fala como titulou Boaventura Cardoso. A voz são vozes, em um magma que as letras esfriam (quando não são trabalhadas como signos visuais). A leitura reacende o fogo pelas sugestões que levanta, pelas vozes que recorda, pelos pensamentos que desperta. Quando pensamos, destrinçamos os elementos fundidos para friamente os analisarmo...
Ensaios de estranheza, pesquisa e reflexão.