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O cónego António Francisco das Necessidades e a 'província angolense'





 



Texto apresentado ao Encontro «Exploring the Lusophone World through Transcultural Perspectives», sob o título A Memória de António Francisco das Necessidades: digitalização de fontes, contextos, propósitos. O Encontro realizou-se na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, promovido pela Lusophone Studies Association com apoio do 



    Resumo

É oportuno, no presente estágio das digital humanities, ou das humanidades digitais, aproveitar a problemática da digitalização de fontes para estudarmos a história da formação de uma literatura angolana, principalmente no que concerne às fontes locais. Neste ensaio rentabilizo as vantagens da digitalização de fontes estudando uma Memória, escrita pelo cónego António Francisco das Necessidades, hoje disponível em rede e em acesso aberto, mas até hoje ignorada pelos estudiosos da formação da cultura angolana, incluindo eu próprio. Trata-se da Memória sobre o estado religioso, administrativo e económico de Angola, subscrita em Lisboa, “no Hotel Duque de Bragança”, a 7.12.1845, onde se instalara o seu autor, acompanhando o príncipe do Congo (Kongo), D. Nicolau de Água-Rosada, na sua estada em Portugal. 

Três pontos principais me interessam:

1. A filiação identitária do presbítero e a sua redutora definição dos limites do território "angolense".

2. A organização retórica dessa Memória, em relação com produções angolanas anteriores, sobretudo Aos meus amados compatriotas, de Manuel Patrício Correia de Castro (Castro, Aos meus amados compatriotas 1822), e Memoria geográfica, e política das possessões portuguesas n´África Ocidental, de Joaquim António de Carvalho e Menezes (Menezes 1834) – os dois únicos deputados angolenses às Cortes portuguesas no período liberal português.

3. O detalhado plano político-religioso para a governação da "província angolense", feito num momento de espera e expetativa, em que a colónia aguardava nomeação de novo bispo e o autor repetia a sua vasta experiência convertendo os “gentios” nos “sertões”.

 

    Abstract

I study a text, today available online and in open access, signed by an Angolan father in the mid-19th century, ignored in this field of research (Angolan literary studies): Memoir on the religious, administrative, and economic state of Angola, subscribed at "Hotel Duke of Bragança", where the father Necessidades was installed to accompany the Prince D. Nicolau Água-Rosada, on her visit to Portugal. Three main points interest me:

1. The process of affirmation of the local identity, and the reductive definition of the boundaries of "Angolan" territory.

2. The rhetorical organization of this Memory, in relation to previous Angolan productions, especially Aos meus amados compatriotas, by Manuel Patrício Correia de Castro (Castro, Aos meus amados compatriotas 1822), and Memória geográfica e política das possessões portuguesas da África Ocidental”, by Carvalho e Menezes (Menezes 1834) – the only two Angolan deputies in the Portuguese Courts.

3. The detailed political-religious plan for the governance of the "Angolan province", conceived in a moment of waiting and expectation, in which the colony awaited the appointment of a new bishop and the author repeated his vast experience converting the “gentios” in the hinterland (“sertões”).

 

Introdução

Debruço-me sobre um documento não considerado pelos historiadores da literatura, porém conhecido por historiadores e ensaístas de campos adjacentes. O meu ensaio se insere numa tradição de pesquisa e de reflexão começada pelos nossos principais ensaístas da primeira e da segunda geração nacionalistas. Quer Mário António (M. A. Oliveira, A formação da literatura angolana 1997, M. A. Oliveira, Reler África 1990, M. A. Oliveira, Luanda, ilha crioula 1969, M. A. Oliveira, A sociedade angolana do fim do século XIX e um seu escritor 1961), quer Mário Pinto de Andrade (Andrade, Origens do nacionalismo africano 1997, Andrade, Origens do nacionalismo africano 2025, 88-98) – os dois ensaístas mais relevantes que se debruçaram sobre as fontes anteriores da literatura angolana, abrindo linhas de pesquisa complementares apesar de opostas – recuaram pelo menos até ao século XIX na busca de fontes e linhas de continuidade e ruturas. Os dois tentavam compreender a passagem da comunidade literária angolense, da segunda metade do século XIX, para a comunidade literária angolana, como veio principal da formação de uma literatura integradora e abrangente. Hoje percebemos que o arco temporal se estende, pelo menos, até à segunda metade do século XVIII, e sobretudo à geração nascida entre os dois últimos decénios de setecentos e os dois primeiros do século XIX.

Paralelamente, levantamentos como os de Paula Tavares e Catarina Madeira Santos (Tavares e Santos 2002) exploraram mais uma das fluidas fronteiras entre a semiosfera urbana e a das ruralidades, no que diz respeito à apropriação da escrita, muitas vezes realizada em folhas de bananeira e com tinta de casca de imbondeiro (Rosa 1864). O acervo de cartas por elas trazido ao público universitário sinalizava, mais ou menos na mesma época, uma contribuição cultural oriunda das unidades políticas paracoloniais. Uma longa fila de pesquisas pertinentes mostra já que tal apropriação começara praticamente desde que se criaram seminários em Luanda e Mbanza Kongo (São Salvador). É certo que, nos seminários, principalmente no começo, sob controlo rigoroso de missionários estrangeiros, não de filhos da terra, ficando estes talvez reduzidos ao famoso padre António do Couto. Nos seminários havia nativos de Angola filhos da elite colonial e filhos de cortes dos principais reinos bantos, como o do Congo. Por isso, logo depois, a segunda metade do século XVII e os primeiros decénios do seguinte viram surgir vários padres intelectuais angolenses, e um poeta (que também compunha em latim), radicados na corte de Mbanza Kongo – São Salvador, ou em Luanda.

A outra das fluidas e mal conhecidas fronteiras é a da apropriação de bibliografia importada, nela se destacando os periódicos, a partir de 1866 principalmente, mas também já desde 1845, data da criação do Boletim oficial. Na intersecção das três vertentes (oraturas, escrituras, imprensa política e de opinião) se foi formando uma literatura local. Relativamente a essa literatura em formação constitui-se precursor  o texto de António Francisco das Necessidades, aqui tratado, a par de poucos outros.

 

Contextos e propósitos

1.     Sobre as fontes

Um dos maiores desafios para manter e divulgar o acervo literário angolano é o da digitalização de fontes. Mesmo para as obras publicadas no século XX, mas não disponíveis hoje em papel, torna-se necessário disponibilizar uma produção a vários títulos ilustrativa e sintomática, pois a maioria dos títulos importantes não só não foi digitalizada como também não foi reeditada. Sem ter acesso a essas fontes não percebemos as nossas articulações com a memória da própria comunidade (microcosmo e multiverso), nem com o trânsito constante entre as oralidades e as leituras transnacionais.

As obras relativamente recentes e as mais antigas, ainda quando reimpressas, não ficam disponíveis para o largo público interessado nelas, apenas circulam no mercado imediato e, vez por outra, algum especialista estrangeiro, ou emigrado, as consegue obter a custo, facultar a um amigo.

Dentro do vasto panorama de leituras possíveis, ocupa lugar de relevo o público universitário, que mantém vivo e dinâmico o legado com suas leituras, interpretações e paralelos, redistribuindo a notícia dessa memória coletiva e, simultaneamente, pessoal. A dificuldade no acesso às fontes leva muitos estudiosos estrangeiros, e a maioria dos alunos de outros países, a se desinteressarem por estudos angolanos, principalmente sobre épocas recuadas, ou, pior ainda, a fazerem uma leitura de grelha que se limita a dizer generalidades a que a obra serviria de pretexto. Para além disto, o baixo custo da digitalização e da disponibilização de fontes ultrapassa as dificuldades financeiras que se agravam com os custos elevados de publicação em papel e o baixo alcance da mesma, tornando assim mais democrática a pesquisa na bibliografia angolana se esta for digitalizada.

Um caso gritante, se não mesmo alarmante, neste lapso de digitalização, é o das obras que se liam em Angola quando surgiu, na imprensa luandense principalmente, a primeira textura protonacionalista. Esse cuidado exercício de corte e costura, de leitura e reinterpretação, reelaborava cânones e referências para efeitos práticos, na colónia, de um discurso retórico e literário arquitetado para sua própria defesa de interesses e de perfil. Onde foram buscar, ao longo da sua formação, jornalistas e poetas como Fontes Pereira, Maia Ferreira, Inocêncio Matoso da Câmara, Lino de Sousa Araújo, Cordeiro da Mata, Arantes Braga, Pedro Félix Machado, Mamede de Santana e Palma, tantos outros, onde foram buscar o domínio da ironia, da sátira, da palavra armada, certeira, afiada, com que animavam os debates públicos em torno dos problemas enfrentados pelos habitantes da colónia? Não beberam só da oralidade luandense e das circundantes, nem beberam só dos ensinamentos dos padres, ou da frágil escola primária. Para pesquisarmos isso, porém, deparamo-nos com uma dificuldade básica: a maioria dos periódicos[2] está muito pouco digitalizada, as coleções são reduzidas e, frequentemente, encontram-se em mau estado. O esforço de digitalização desenvolvido em Portugal é também lento, ficando os originais retidos muito tempo até ela se efetuar.

A falta de digitalização nos leva, por igual, a não conhecermos outros autores cujas obras são, também, sintomáticas e interessantes para várias linhas de pesquisa. Refiro-me, por exemplo, ao padre António Francisco das (ou de) Necessidades (que foi com D. Nicolau Água-Rosada a Lisboa), ao jurista e funcionário público Eusébio Catela de Lemos Pinheiro Falcão, ao médico e funcionário público (e polemista) Leonardo Africano Ferreira (personagem de uma das aventuras policiais de Augusto Bastos), ao funcionário público Manuel Alves de Castro Francina e seus relatos de viagem. Destes exemplos, alguns já têm seus textos digitalizados, mas em publicações de âmbito mais vasto (Anais da Sociedade de Geografia, do Conselho Ultramarino, Boletim oficial do governo geral da província de Angola, etc.), que ficaram disponíveis em rede e são, quase só, consultadas por historiadores, não por estudiosos da literatura angolana (por falta de comparência destes). Vários dos nomeados, porém, continuam sem digitalização disponível dos seus textos, muito raros, difíceis de encontrar. Por outro lado, neste primeiro momento, ainda não refiro alguns filhos de uma primeira diáspora, mal conhecida: nomes como o do médico benguelense Carlos Joaquim Tavares, orador exímio desde jovem, ou de um neto português (todos o foram) de Dª Ana Joaquina dos Santos e Silva, o hoje ignorado Luís Garrido, com obra extensa entre o positivismo, a filologia e a história da literatura em Portugal.

Estes autores hoje desconhecidos e seus textos, em particular no que diz respeito aos angolenses residentes, dão-nos uma ideia muito mais completa do que podíamos, à falta de outra expressão de momento, chamar o estado mental e o ambiente textual angolano da segunda metade do século XIX.

Nos casos dos textos digitalizados e disponíveis em rede, o processo operou-se no país de destino, geralmente com documentação dos arquivos locais (e sobretudo os portugueses), pelo que o acervo angolano (o que dele sobrevive) fica muito difícil de estudar, além de algumas incursões feitas a custo e disponibilizadas por José Curto, mais algumas investigadoras por ele orientadas e que produziram trabalhos relevantes, hoje em linha quase todos.

Nesse panorama, o contributo que posso deixar aqui, para não ficar apenas pelos lamentos, é uma pequena referência, oportuna para quem quiser aproximar-se da arqueologia textual angolana. Puxo dos papelinhos de bolso o nome talvez o menos mencionado pelos estudiosos: António Francisco das Necessidades, relacionado possivelmente com o ramo familiar importante dos e das Necessidades Ribeiro Castelbranco (e Varejão), que se formou com esses três apelidos ao longo do século XIX, mas cujas origens nos atiram, pelo menos, em Luanda, para todo o século anterior.

2.     Resumo biográfico

Na Angolana : Documentação sobre Angola podemos encontrar reunidas as principais referências a esta figura, geralmente mencionada apenas quando se fala nas relações da colónia e da igreja com o reino do Congo a meio do século XIX[3]. Elas estão concentradas no vol. III da série, este resultando de “pesquisa, seleção e anotação de Eduardo dos Santos” (IICA-CEHU 1976). Daí retiro, primeiro, informações biográficas e curriculares, e depois comento um texto importante para nós.

 

Foi o padre António Francisco das Necessidades nascido em Luanda. Viera ao mundo pouco antes de 21.6.1795 (ano em que terá nascido o pai de José da Silva Maia Ferreira), pois contava 63 anos ao falecer, em 21 de junho de 1858. O texto que vou comentar abre com esta frase, esclarecedora quanto ao nascimento: “eu falo de Angola minha rica Pátria, a Cidade de São Paulo da Assunção de Luanda” (IICA-CEHU 1976, 631). Mais adiante afirma: “eu sou um pobre eclesiástico angolense” (IICA-CEHU 1976, 637). Em seguida, ainda na mesma página, diz: “pela experiência, e observância, que faço há dezanove anos de Paroquiar várias Igrejas do Sertão daquela minha Província Angolense”.

Iniciara função de pároco até 6.10.1826, o que faz pensar que terá nascido pelos começos do século XIX. Pregou no Golungo Alto e Ambaca, “onde era Pároco” e, “para mandar o que era mister, até o guizamento para a Fábrica da Igreja”, se valeu “só de meus próprios escravos” – o que implica possuir alguma riqueza, possivelmente herdada.

Em 1843, segundo Arlindo Caldeira (Caldeira 2007), o rei congolês D. Henrique II «Fu Kia Ngo»

enviou a Luanda seu filho D. Álvaro pedindo que um padre o fosse coroar. O Capítulo dos Cónegos do Congo, há dois séculos em Luanda, encarregou o padre africano António Francisco das Necessidades do caso e este chegou a S. Salvador em Novembro de 1843.

Terá protagonizado a cerimónia da coroação de D. Henrique II no dia 13.1.1844, segundo Douglas L. Wheeler (Wheeler 1968). Já nesse tempo o padre Necessidades se movimentava bem no circuito das promoções proporcionadas pelo poder colonial e eclesial, demonstrando a sua aptidão para perceber e manipular as hierarquias respetivas. A ida ao Congo para coroação de Henrique II Fu Kia Ngo foi muito bem aproveitada por ele. Por ofício da Rainha de 7.1.1845, ao “atual Comissário Apostólico no Reino do Congo” se atribuiu “Hábito da Ordem de Cristo”, facto ainda referido, sem precisão, por Livingstone (v. adiante).

Em junho de 1845 seguiu António Francisco das Necessidades para São Salvador, com o capitão António Joaquim de Castro, para, entre outras funções, voltar com D. Álvaro (filho de Fu Kia Ngo) a Luanda, embarcando com ele, depois, para Lisboa. Em cima da hora, por questões que se prendiam com a sua posição como príncipe herdeiro, D. Álvaro foi substituído por D. Nicolau (Água-Rosada), com quem o prelado angolense e o capitão português rumaram a Lisboa (e Coimbra), no começo de setembro de 1845, chegando à capital portuguesa em 31 de outubro. Esteve igualmente em Bragança, pois escreve de lá uma carta, a 22.12.1845, ao Internúncio, “pela qual remetia a resposta aos questionários que lhe foram enviados a 18 de novembro sobre a situação da Igreja Catedral de Angola.” (AAVV 2011, 408) Como veremos em seguida, a situação foi polémica e nela tomou claro partido o padre Necessidades.

Trabalhou rápido e bem os contactos em Lisboa. Pouco depois da chegada, por decreto real de 19.11.1845, receberia o “Presbítero Secular António Francisco das Necessidades” a nomeação “para um dos canonicatos que presentemente se acham vagos na Sé da Cidade de São Paulo da Assunção de Luanda, em atenção ao seu merecimento, e serviços” (IICA-CEHU 1976, 726-727). Seria negociador hábil (o que já demonstrara em São Salvador – Mbanza Kongo) e conseguiu pagar as importâncias consequentes à nomeação por descontos no futuro salário[4].

A 14.9.1846 a portaria 1622, do ministro da Marinha e Ultramar para o governador geral de Angola, servia “para informar o requerimento do cónego António Francisco das Necessidades para Capelão do Batalhão de Infantaria de Luanda”. Cabia ao governador dizer “o que julgar conveniente sobre semelhante pretensão.” (IICT-CEHCA 1995, 779), penso que depois conseguida.

A 16.4.1849 escrevia, na qualidade de Secretário do Cabido de Luanda, “ao Internúncio, participando o falecimento do Arcediago António de Azevedo Galiano, Vigário Capitular e Governador do Bispado de Angola, no dia 14 de Abril com a idade de quarenta e oito anos.” (AAVV 2011, 407) O Arcediago teria, portanto, nascido em 1801, antes de abril, ou 1800, depois de abril. O que significa pertencer à mesma geração angolense de António Francisco das Necessidades, Manuel Patrício Correia de Castro, Joaquim António de Carvalho e Menezes, António Nogueira da Rocha – formado este em Leis por Coimbra e filho natural (como Correia de Castro) e Tomás d’Aquino Pinheiro Falcão (ligeiramente mais novo[5]). Com definição mais vaga da geração, José de Fontes Pereira havia de referir vários destes nomes, considerando-os ilustrativos do nível intelectual atingido pelos padres angolenses[6]:

Não nos furtaremos ao dever de invocar os nomes desses ilustrados padres angolenses, que conhecemos, como sejam: cónegos, Marcelino José de Campos, (serviu de secretário do governo por duas vezes), José Manuel Gonçalves da Cunha, António d’Azevedo Galiano, Thomaz d’Aquino Pinheiro Falcão, Manoel Lopes da Costa, Manoel José Fernandes; e cá para diante: cónegos, António Francisco das Necessidades, Domingos Pereira da Silva Sardinha, Mathias José R[?]bella[7]: padres, Francisco de Assis e Andrade, Cosme de Lemos, António Ferreira d’Azevedo, André Pinheiro da Cunha, Félix Corrêa d’Araújo, Filipe Nery dos Santos, António João de Carvalho, D. Pedro, príncipe do Congo: capelães cantores, Manoel da Paixão, Bernardo Estevão da Conceição, Francisco Alves da Silva, Flávio José de Campos, Francisco d’Assis Rodrigues de Carvalho, António Paschoal Suzano, etc.

Por acaso esqueceu-se de Manuel Patrício Correia de Castro e de Manuel Monteiro de Morais.

Coerente com o que escrevera no texto que vamos estudar, o Secretário do Cabido, A. Francisco das Necessidades, sugeriu “ao Internúncio que intercedesse junto da monarca na escolha de um eclesiástico que pudesse reger o Bispado durante a sua vacatura”. No ano anterior escrevera, com data de 11 de maio, também na qualidade de Secretário do Cabido de Luanda, “a D. Sebastião da Anunciação Gomes de Lemos, Bispo [resignatário] de Angola, acusando o Padre Manuel Monteiro de Morais como causador de várias desavenças entre o Governo Civil e a autoridade eclesiástica, devido «à sua desobediência e má vontade de servir a Sé».” (AAVV 2011, 407) Ao fazê-lo posicionou-se claramente na contenda, que não só opôs o governador ao bispado, dividiu também a sociedade angolense.

Na sequência da missão no Congo e em Portugal escrevera, a 13.3.1849, ao Internúncio, na mesma qualidade de Secretário do Cabido, comunicando a missiva que lhe enviou “o Príncipe Nicolau regressado à sua pátria em 1847.” O autor aproveita para remeter a correspondência oficiosa do Ministério do Ultramar relativa à recusa de um clérigo em servir na Sé, onde havia falta de sacerdotes para as funções eclesiásticas.” A dedicação às causas da Igreja em Angola mantinha-se, portanto, levando-o a enfrentar qualquer opositor aos interesses das autoridades eclesiásticas locais, em parte representadas por filhos da terra, (AAVV 2011, 407) – entre os quais o próprio denunciado Manuel Monteiro de Morais.

Já em 1854, dez anos depois da sagração do rei do Congo, o explorador Livingstone recebeu uma visita cortês deste cónego (“um  gentleman de cor”). Foi visitado em Pungo Andongo e o descreveu, preconceituosamente[8]: apesar de ter “toda a aparência de um negro de verdade, inspirava respeito no povo.” (Livingstone 1899, 286). Não era já homem novo: segundo Livingstone, o coronel e comerciante Manuel António Pires dizia conhecer o padre Necessidades há mais de 30 anos e que ele era bom homem. O nosso Necessidades andaria por ali batizando e casando, não residia lá, mas a sua presença na zona era constante.

O nosso presbítero faleceu poucos depois, em Malanje, a 21.6.1858, “dois meses depois de dolorosos padecimentos”. O “reverendo cónego” andava “em missão” por ali. Foi comunicada a morte pela própria Igreja, conforme publicação no Boletim oficial 667 (1858.7.10), p. 12.

 

3.     Obras

a.   O padre Necessidades trasladou uma “Memória de como veio a nossa cristandade de Portugal, sendo El-Rei D. João 2.º, com o Príncipe do Congo D. Afonso, no ano de 1484”. A Memória ficou manuscrita, estando hoje disponível em linha. Segundo Arlindo Caldeira, “foi trasladada, em 1844, pelo reverendo cónego […] de outra mui deteriorada, dizendo ter sido feita em 1782, que existia em poder do falecido rei daquele país, D. Henrique 2.º”. A citação tem origem na própria Memória. O traslado da Memória termina assim:

Memória das coisas antigas acontecidas neste reino do Congo, e o modo com que nos veio a cristandade, e os Bispos que nos vinham de Roma para governar este bispado do Congo, e [as igrejas que tem São Salvador], destruídas com as guerras. Feito este papel hoje 1.º de Janeiro de mil setecentos oitenta e dois anos – 1782.

Está conforme o original por mim trasladado, que El-Rei Católico, o Snr. D. Henrique 2.º, me fez ver, e me pediu copiasse daquele papel antiquíssimo e quase estragado. Reino do Congo de São Salvador, 7 de Fevereiro de 1844 – António Francisco das Necessidades, vigário e missionário apostólico, visitador geral e embaixador no reino do Congo.

b.   José Joaquim Lopes de Lima refere também uma “notícia” sobre as paróquias de Angola e Benguela, que transcreve (Lima 1846, 152-154), e agradece-a “à obsequiosa condescendência e zelo do reverendo Cónego António Francisco das Necessidades, que tendo sido vigário de algumas paróquias daquele Sertão, e depois missionário no Congo, se acha hoje em Lisboa como Capelão-mor do príncipe D. Nicolau Água Rosada” (Lima 1846, 152).

c.    Em parte (e com uma organização diferente) essa “notícia”, numericamente ordenada, emparceira com a Memória sobre o estado religioso, administrativo e económico de Angola, a curta obra que me trouxe aqui.

d.   Por sua vez, uma Relação das capelas e igrejas de Angola, seus oragos e estado, pelo cónego António Francisco das Necessidades, aparecia pouco depois da chegada de D. Nicolau. Vinha assinada, em Lisboa, “no Hotel Duque de Bragança”, a 7.12.1845, pelo “Ex Vig.º António Francisco das Necessidades / Em Comissão” (IICA-CEHU 1976, 755-758). Talvez Lopes de Lima a recebesse também; a transcrição de Lopes de Lima parece-me reduzida relativamente a esta Relação, podendo se tratar de um primeiro esboço

 

Estudo da Memória

Refiro agora o texto que nos interessa, hoje ignorado: a Memória sobre o estado religioso, administrativo e económico de Angola. Recolheu-se o texto bem depois de escrito, no “vol. III (1845)” da Angolana (IICA-CEHU 1976, 631-642). Esta Memória, no final, está assinada a “Bordo da Fragata Diana 6 de Outubro de 1845. / A. F. de Necessidades.”

Quando foi redigida? Não sabemos, mas é possível ter o cónego se baseado num conjunto de notas que guardasse (mentalmente?). essas notas serviriam de apoio à Relação e ao que facultou a Lopes de Lima (que talvez fosse já o manuscrito da Relação). Suponho que tivesse escrito pelo menos algumas delas, porque ele refere dados que não viriam de mera lembrança. Com base nas eventuais notas, durante a viagem terá composto a curta Memória.

 

Notas sobre a retórica do texto

Esta Memória, mudando o que há para mudar, ao jeito da época recorda a de Carvalho e Menezes (n. em 1791). Partilha com essa antecedente mais do que o tipo de título e o alcance que explicitamente fixa: Angola, província angolense, reino de Angola e Benguela.

As duas revelam, do começo ao fim, declarado amor pela terra, sentimento de pertença ao grupo específico (os angolenses) e defesa do progresso do território colonizado. Na Memória do padre Necessidades o parágrafo de abertura e o de fecho são, para além de explícitos quanto a isso, de vincado relevo afetivo. Leiam-se (Necessidades 1976, 631, 642):

Eu falo de Angola minha rica Pátria, a Cidade de São Paulo de Assumpção de Luanda

como já citado, e, no fecho

Eis aqui meus amados Patrícios Angolenses[9] o meu pensamento; eu me cansei a vacilar sobre uma maneira, e modo que devia dar um conhecimento ao nosso digno Deputado, o Ill.mo Comandante da Fragata Diana, João Maria Ferreira do Amaral, para mais avivar os seus conhecimentos, detratar a beneficio de nossa desgraçada Angola; é por tanto meus caros Patrícios o piqueno trabalho, que teve [tive] na viagem, a bordo da mesma Fragata Diana, e se ele não é do gosto de muitos (como suponho) não faltara [faltará?] pelo menos uma pessoa cordata, e inteligente, que emendando, c corrigindo os meus erros, me faça uma apologia mandando se for possível imprimir este pequeno opúsculo para se oferecer aos meus dignos Patrícios Angolenses; portanto desculpem meus erros, e minha insuficiência.

 

Identificação do território de pertença

Seguindo aquelas poucas páginas apercebemo-nos de que essa Angola tem Luanda por capital e partes do que hoje são as províncias do Quanza-Norte, Malange, Bengo como território. É a Angola angolense levada até aos limites da administração colonial. A Angola dos “amados compatriotas” de Manuel Patrício Correia de Castro incluía Luanda e Benguela. A de Carvalho e Menezes era mais extensa, embora de fronteiras pouco definidas, mas abarcando Benguela, Moçâmedes e, de forma genérica, o território sob administração colonial. Ainda um pouco mais à frente, os protonacionalistas das últimas décadas do século XIX, reportando-se a Angola, não pareciam incluir o Congo (já ‘conquistado’, ou ‘pacificado’), nem Cabinda (que Manuel Patrício Correia de Castro defendeu nas Cortes não pertencer a Portugal (Castro, Indicação 1822)), nem as grandes zonas do interior, efetivamente não ocupadas nem administradas pelo governador-geral e suas tropas.

Esse é o território de identificação do autor: angolenses e província angolense, em torno de Luanda principalmente e tendo-a por capital.

 

Identificação de leitores e destinatários

Há dois leitores explícitos:

1.   O governador Ferreira do Amaral, igualmente o comandante da fragata Diana, em que o padre se dirigia para Lisboa com D. Nicolau Água-Rosada.

2.   Os patrícios angolenses.

Explorando aquelas páginas percebemos, porém, que elas principalmente se dirigem ao segundo leitor explícito, que não é destinatário oficial nem oficioso, mas ao qual se dirige o autor, principalmente no fim, no extrato que transcrevi.

Por três vezes, o prelado parece dirigir-se ainda a “sua majestade”, a rainha D.ª Maria II, mas parece com isso fazer a sinédoque do reino português, ou do governo real.

Na primeira das vezes (IICA-CEHU 1976, 633), a possibilidade de se dirigir à rainha diretamente é muito remota, parece-me mais provável que ele escrevesse pensando que “sua majestade”, ou seu ministro, podiam mais tarde ler. Nessa passagem, por discurso indireto, reporta argumentos dos chefes de distrito e militares que, por terem sido nomeados pela rainha, achavam não tinham de dar atenção às críticas, lamentos e pedidos do padre, podendo perseguir os seus interesses individuais em nome do reino sem serem importunados. A rainha, como se depreende, era o reino, e a denúncia articula-se muito bem às críticas aos chefes militares feitas pelo periódico A civilização da África portuguesa (1866-1869).

Na página seguinte, a possibilidade de se dirigir à rainha é escassa ainda, mas cresce, tanto quanto a sugestão de que ele pensaria que “sua majestade” lesse o escrito. Vem na sequência da crítica e denúncia que fazia dos chefes e visa reforçar um pedido que reitera ao longo da Memória, o de aumento da “pequenez da côngrua”, ou do salário de padres e “Mestres”. Ele diz que, testemunhando os abusos, vê muitas autoridades voltarem-se contra ele e outros párocos, daí que muitas autoridades apresentem aos superiores queixas e falsas denúncias. O estado de coisas então gerado inviabilizava a ação missionária (IICA-CEHU 1976, 634):

havendo tais diferencias é impossível prolongar-se a Religião no Sertão; porque não Missionando o Pároco[10] na sua Freguesia, com o auxílio de quem governa aquele Território, muitos Povos, ficam sem receber o fruto primário de todos os Sacramentos; como observei em quanto fui Pároco em conquistas da minha Província;

É um recado para Ferreira do Amaral e para a governação metropolitana da colónia, supervisionada formalmente por D.ª Maria II. A terceira referência surge na p. 634 ainda e se reporta ao choque de interesses entre exército e igreja em torno do convento de Sto. António:

A Igreja e Convento extinto de Santo António, é hum digno asilo para a educação da mocidade Angolense; mandando Sua Majestade para ali os Mestres necessários, sendo salariados segundo o costume […]

Entende que os militares vão reagir mal e justifica a sua posição, quer em dados históricos, quer em dados práticos (eles têm morada assegurada e salário).

Além de “sua majestade”, a rainha é nomeada como “Augusta Soberana”, que devia determinar soluções para solucionar problemas graves como os da corrupção, da concentração de degredados ali, da falta de “Mestres” e dos abusos de poder – uma vez mais as mesmas denúncias constantes das páginas d’A civilização da África portuguesa.

 

Os propósitos

Como se vai percebendo, há vários propósitos para vários destinatários, leitores explícitos e implícitos. Eles se resumem por recados:

1.   Para os angolenses:

a.   O de fazer com eles a defesa dos interesses locais e, particularmente, os do Ensino e da melhoria de salários ligados ao Ensino; dentro desse, a defesa do desenvolvimento, principalmente pelo comércio mais justo e oleado.

b.   O de os alertar para as más práticas em que, juntamente com as autoridades coloniais, incorrem quando nomeados para chefias administrativas e militares.

c.    O de alcançar apoio, não só para a causa, também para imprimir em livro a sua Memória.

2.   Para o governador geral, a rainha, o governo português:

a.   O de fazer presente o préstimo dos angolenses, principalmente os religiosos.

b.   O de alertar para as más práticas de abuso de autoridade, corrupção, deslealdade, por parte de chefias coloniais.

c.    O de esclarecer sobre o real estado das igrejas e paróquias.

d.   O de reforçar a necessidade de financiar a Igreja, levando em conta as vantagens várias da ação missionária, das conversões no interior, do ministério educativo. 

e.    O de esclarecer sobre as potencialidades de cada concelho.

f.     O de lembrar que o fim da escravatura não devia ser tão rápido, sem preparação do momento seguinte – posição comum a esclavagistas inconfessos, a José da Silva Maia Ferreira (nos EUA), a juízes e fazendeiros em Angola... Em sentido contrário agia decididamente o marquês de Sá da Bandeira, como se sabe.

Os planos

Tal como a Memória de Carvalho e Menezes, também esta serve de suporte a dois planos: um pessoal, outro coletivo.

O plano pessoal se deixa perceber nas entrelinhas, ainda, do exórdio (Necessidades 1976, 631):

e de sua [de Angola] decadência atual, e vantagens, que pudera ter tanto do seu comércio no interior do Sertão, que está estagnado como da sua Religião, que ao presente se acha no último abandono, por falta de Ministros, e de hum vigilante Pastor sobre a Religião.

Que ministro seria este? Qual o seu perfil? Convinha que fosse vigilante. Logo na página seguinte se lê e repete que (Necessidades 1976, 631):

A Religião em Angola presentemente está no ultimo abandono, por falta de hum Pastor, e mui vigilante nas suas obrigações, para preenchê-las com maior honra, e respeito ao seu carácter, e emprego; fazendo trazer as suas ovelhas desgarradas ao grêmio da Igreja e da nossa Santa Religião

Ora António Francisco das Necessidades, ao longo do seu texto e mesmo em outros, assinala sempre que tem muitos anos de experiência de conversão e acompanhamento do ‘gentio’ nas mais diversas paróquias, incluindo com investimento próprio, sempre que não houvesse apoio das autoridades locais. Fica no ar a sugestão de que talvez pensasse que podia ser escolhido para bispo, ou qualquer outro cargo superior na hierarquia da igreja angolana, embora não tivesse nunca antes havido algum bispo filho da terra. Identicamente agira Carvalho e Menezes, pensando que o triunfo setembrista lhe abria possibilidades de desempenhar um cargo muito elevado na administração colonial de Angola.

Por sua vez, o quadro contextual era o seguinte: a 3.1.1844, a diocese de Angola e Congo, já na prática gerida por Lisboa, oficialmente passava de São Salvador da Baía para jurisdição metropolitana portuguesa (Patriarcado de Lisboa). A 14.8.1845, cerca de dois meses antes da data de fecho da Memória de António Francisco das Necessidades, o ministro da Marinha e Ultramar (então Joaquim José Falcão) decretava que o Estado assumiria as responsabilidades educativas em Angola. Começou realmente nesse ano a implantação de um sistema de ensino, com criação de escolas em várias zonas da ‘província angolense’, como em Benguela, mais tarde em Moçâmedes e para o interior até à Huíla. Sebastião da Anunciação Gomes de Lemos entraria como bispo somente em abril de 1846. A igreja precisava de alguém que enfrentasse os novos desafios e superasse os anteriores: a falta de financiamento (cujo agravamento era de prever após o decreto do ministro Falcão), a corrupção, a imoralidade, a concorrência do Estado, o escasso número de padres. O perfil do futuro bispo devia, portanto, contemplar alguém com bom conhecimento da atividade da igreja na colónia e muitos anos de vivência nela. Algumas das propostas que faz e das descrições das paróquias e concelhos apontam realmente para um padre com muita experiência, conhecedor do terreno, das fragilidades e, portanto, em condições de alvitrar soluções. As soluções compunham o plano coletivo proposto.

 

O plano coletivo passava por uma reformulação, não só religiosa, mas administrativa, da colónia. Ao longo do texto o presbítero angolense avançava  com várias propostas, que enumero, ilustrativas do plano que propunha, simultaneamente, a Ferreira do Amaral (e a quem ele desse a ler o documento) e aos seus “patrícios Angolenses”.

Logo no § 1 da Memória (IICA-CEHU 1976, 634) fez uma segunda introdução para focar o leitor no tema "Religião em Angola". O discurso começa realmente na organização religiosa, mas, a partir dela, no ensino também, na política de envio de degredados, "desterrar abusos", enfim, reformar Angola moralmente, mas também política e administrativamente. Vejamos agora ponto por ponto.

1.   Quanto à reorganização da igreja:

a.   Indica para cada freguesia o que existe e o que deve existir.

b.   Propõe dividir a freguesia-paróquia de Nª Srª dos Remédios em quatro, conforme a população das várias zonas da Baixa: a de Corpo Santo, “desde o açougue do peixe, até ao lado esquerdo da freguesia” dos Remédios, incluindo o largo do Pelourinho e o bairro dos Coqueiros; a própria dos Remédios, “desde a direita da Igreja, até à esquina da Casa de D. Ana Joaquina dos Santos, “subdividindo ao beco do falecido Coronel Luís Gomes Ribeiro[11], no Bairro do Bungo”; desde a casa de D. Ana Joaquina até à esquerda da ermida da Nazaré, e da direita dela até à fortaleza do Penedo, ficaria a freguesia da Nazaré; por fim, retomava-se a do Carmo, com o extinto convento, que iria “do bairro da Ingombota até ao seu recinto de Dangi = aroza[12]”. (IICA-CEHU 1976, 632-633)

c.    Propõe que “as Igrejas do Sertão” sejam “todas providas de Párocos, com obrigação de missionarem”. Mas não só: os párocos deviam ter à sua disposição, para tal fim, “doze pretos carregadores”, para além de um “Altar portátil”. Aproveita para criticar que os responsáveis coloniais (administração e exército, que geralmente estavam juntos antes) tenham deixado de fornecer carregadores e outros apoios aos missionários. Aproveita, igualmente, para detalhar a sua experiência nas diversas freguesias, a sua dedicação pessoal, e que só graças a ela se tinham superado as dificuldades.  (IICA-CEHU 1976, 633-634)

d.   Como já referi, propõe que a igreja e o “convento extinto de Santo António” sirvam de “asilo” para “a educação da mocidade Angolense”. Esta última proposta implicaria, também, o envio de “Mestres”, assalariados “segundo o costume”.

e.    Prevendo a crítica de políticos e militares à criação de tal “asilo” para a mocidade estudantil (e para os mestres, suponho), fundamenta a sua proposta historicamente e na crítica aos abusos, desmazelo, delapidações e apropriações dos militares. Em seguida propõe que a soberana, “e a Nação”, mandassem “despejar” os “soldados” que ali se alojavam, “e fazer-se um Seminário para educação da mocidade Angolense, que se tem perdido por falta de Mestres e estudos; então ver-se há um novo hemisfério reluzir sobre a nossa zona = Tórrida Angolense”. (IICA-CEHU 1976, 635)

f.     Ainda no âmbito da igreja, cada vez mais envolvendo políticas públicas, propõe-se um aumento da “côngrua” dos religiosos, demonstrando-se, por contas e preços, que a existente não chegava para a sua sobrevivência, menos ainda para a sua dignidade. (IICA-CEHU 1976, 635-636)

g.    Igualmente, no mesmo sentido, propõe que se mandem fazer contas aos rendimentos de cada paróquia e de cada freguesia, pois os próprios rendimentos da igreja estavam nas mãos de “Comissões Mistas, e Administrativas”. Assim se saberia, não só quanto rende a paróquia, mas também quanto é que tem cada pároco de dinheiro consigo, e cada concelho (de dinheiro da paróquia), cada chefe, “tesoureiro” e mesmo “sobas”, “meirinhos, nomeados por sobas”[13], e “quilambas” que recebiam e gastavam proventos locais (“que muito se utilizam com aquelas cobranças” – incluindo de sepulturas). Para parar com isso era necessário impor-se uma “prestação de contas” e uma visita anual a cada freguesia para as verificar. (IICA-CEHU 1976, 636) Aproveita, claro, para criticar de novo a corrupção das autoridades, que chegam a desvirtuar decretos ordenados a partir do reino, e para realçar a sua experiência, “que faço há dezanove anos de Paroquiar várias Igrejas do Sertão daquela minha Província Angolense”. (IICA-CEHU 1976, 636-637)

2.   Numa passagem intermédia (entre propostas religiosas e políticas) afirma ser contra a escravidão, contrária às leis divinas e humanas. Porém propõe que primeiro se tentasse encontrar “um meio” de substituir os lucros dela, incluindo para o Reino (mas ele fala sobretudo da sua “Província Angolense”), pois, “se não houver algumas providências será pior a priori”. (IICA-CEHU 1976, 637) Note-se que esta era uma posição muito comum na época, popular mesmo, não só em Angola e no espaço lusógrafo, também nos EUA e na própria Inglaterra.

3.   Passa, então, já assumidamente, a fazer propostas relativas aos “interesses da nossa Província Angolense, que se tem posto no esquecimento, e que podiam dar maiores vantagens aos cofres da Nação”. (IICA-CEHU 1976, 637) Vai por “distritos”, apresentando as respetivas riquezas e fazendo algumas sugestões e mencionando produtos cuja comercialização beneficiava os filhos da terra – as menções a tais produtos eram propostas de que se desenvolvesse a economia com eles relacionada.

a.   Em muitos dos distritos realça que há “madeiras” valiosas, que localmente se podem trabalhar (“e carpinteiros para as trabalhar” - (IICA-CEHU 1976, 638)). Este ponto é significativo, porque, já para o fim do século, vários filhos da terra vão cortar e vender madeiras do interior da “província angolense” para Luanda, mantendo-se uma rede local de interesses e profissões que desafogava economicamente vários angolanos (incluindo “gentio”). A rede englobava os que abatiam as árvores, os carpinteiros, os comerciantes, os que levavam a madeira para Luanda, intensificando os contactos comerciais entre Luanda e o Quanza, através dos quais também circulavam mercadorias diversas, incluindo bens culturais. O caso mais conhecido foi o do poeta Cordeiro da Mata, exportando, a partir da barra do Quanza, madeiras do Tombo. Mas é também de notar a crítica dos angolenses às elevadas taxas a pagar para negociar com madeira, que se repetiram nos jornais do fim do século. Falando nessas madeiras, o cónego reforçava negócios em que os locais também tinham vantagens.

b.   Outra menção constante é relativa aos minérios, perseguidos pelos portugueses desde que ali chegaram. Muitos empresários (incluídos alguns antigos traficantes de escravos) apostaram nesses anos na descoberta e exploração de minas como uma das alternativas ao fim do seu negócio mais hediondo e lucrativo. O caso mais notório foi o de Francisco António Flores

c.    Terceira menção de realçar vai para o café, que naturalmente aparecia em várias das terras interioranas e algumas famílias angolenses conseguiram, mesmo no período de colonização mais intensa, manter propriedades agrícolas a produzir café.

d.   Mas:

Os maiores e mais vantajosos interesses, que a minha Província Angolense tem são nos Dízimos dos Distritos, e Presídios, que enriquecem os Cofres daquela Nação ao presente, depois que lhe foram os mais coartados e este é pago por cada fogo; ou por regulação dos Arimos das margens dos Rios.

(IICA-CEHU 1976, 639)

Nessa mesma linha,

Dever-se-ão conservar alguns pretos forros nos Arimos dos moradores, ou Feirantes, que possam chegar a vinte pouco mais, ou menos, e que estes queiram servir voluntariamente, aplicando-se ao serviço daquele morador renumerando-lhe conforme merecer o seu trabalho[14]: e tomando-se estas medidas, seguem-se mais outras necessárias, que vou a propor.

 

e.    Seguia-se, efetivamente, uma proposta económica e administrativa importante, radical e transformadora: acabar com as incursões no mato, evitando assim todo o tipo de abusos - de carregadores e de exploração de carregadores, de quem os arranjava, de ladrões assaltando nos caminhos, de comércio não taxado. Essa proposta foi também defendida vigorosamente nas páginas d’A civilização da África portuguesa e tinha já antecedentes no local. Em lugar disso deviam criar-se feiras nas urbanidades controladas pelo poder colonial e, necessitando de artigos que os comerciantes ali vendessem, os habitantes das mais diversas regiões iriam negociar os seus próprios produtos à feira, pelo que nenhum comércio se perdia, acabando-se com violências e abusos. (IICA-CEHU 1976, 369) Tudo o resto passaria a ser reprimido: angariação de carregadores, apoio (nessa angariação) para os comerciantes (que geralmente revertia a favor dos chefes militares e administrativos), evitando-se “flagelar” o gentio “até se locupletar[em]” chefes e intermediários gananciosos, que provocavam “a grande injustiça, e vexame, que sofriam aqueles Povos”. (IICA-CEHU 1976, 640) Note-se o alcance político-militar da medida, não somente económico, pois o novo sistema proposto evitaria rebeliões e prejuízos causados pela exploração selvagem das populações do interior, em geral mais fracas, desprotegidas. Nas palavras do padre Necessidades (IICA-CEHU 1976, 640),

por tanto, acabado[s] os auxílios [ao emprego de carregadores e às expedições comerciais no “sertão”] julgo acabar-se também o despotismo, Egoísmo, e Orgulho, que tanto reina, até também entre os meus Patrícios Angolenses, quando chegam a Governar em Conquistas do Sertão, o que sempre experimentei em abandono até da Religião, e seus Ministros.

f.     Uma vez aplicadas essas medidas, com seu bom conhecimento dos lugares daquela “minha província Angolense”, passa o político-sacerdote a propor e justificar os lugares concretos nos quais as Feiras deviam ser instaladas.

Como se vê por este resumo, a Memória de António Francisco das Necessidades era, sob a capa de facultar informações precisas e preciosas, um verdadeiro plano de governo para todo o vasto hinterland de Luanda, no qual efetivamente exercesse controlo a autoridade colonial. Por isso ele termina sugerindo que os angolenses, o destinatário último e real, imprimissem o documento, o lessem, pressupondo-se que lutariam pelas medidas aí consignadas. Não só angolenses, também colonos recentes e liberais, na linha de Sá da Bandeira em Portugal, adotaram a defesa dessas medidas como bandeira e condição para o desenvolvimento de Angola.

 

Fecho

Tudo isto e muito mais podia ser observado e comentado por estudiosos caso as fontes angolanas e angolenses estivessem devidamente expostas a todos, digitalizadas, disponíveis em sistema aberto e aproveitadas por historiadores da literatura, críticos literários, estudiosos da formação de uma comunidade literária angolana.

Imagine-se agora o tanto que ainda hoje se encontra por digitalizar – e principalmente das fontes angolanas – o prejuízo que isso traz aos estudos e ao conhecimento da formação de uma identidade transnacional[15] a caminho da gestão do seu próprio território, poucas décadas depois reivindicada, por exemplo por José de Fontes Pereira nos anos em torno do famoso Ultimatum.

 


 

Obras Citadas

AAVV. Arquivo secreto do Vaticano : Expansão portuguesa : Documentação. Editado por José Eduardo Franco, Arnaldo Espírito Santo e Manuel Saturnino Gomes. Vol. 1: Costa Ocidental de África e Ilhas Atlânticas. Lisboa: Esfera do Caos, 2011.

Andrade, Mário Pinto de. Origens do nacionalismo africano : Continuidade e ruptura nos movimentos unitários emergentes da luta contra a dominação colonial portuguesa (1911-1961). Lisboa: Letra Livre, 2025.

—. Origens do nacionalismo africano : continuidade e ruptura nos movimentos unitários emergentes da luta contra a dominação colonial portuguesa : 1911-1961. Lisboa: D. Quixote, 1997.

Azevedo, Elisa Dias Ferreira de. O complexo cultural luandense oitocentista : O papel da religião católica na conformação dos «filhos da terra». Programa de Pós-Graduação em História , Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: autora, 2015.

Caldeira, Arlindo. “O reino do Congo : a decadência final do reino do Congo.” Arlindo Caldeira . 18 de ag. de 2007. https://www.arlindo-correia.org/180807.html (acedido em 27 de out. de 2024).

Castro, Manuel Patrício Correia de. Aos meus amados compatriotas, habitantes do reino de Angola e Benguela. Lisboa: [autor], 1822.

—. “Indicação.” Vers. digital. Debates parlamentares. Metatheke software. 14 de set de 1822. https://debates.parlamento.pt/catalogo/mc/c1821/01/01/01/037/1822-09-14/436 (acedido em 18 de jan de 2024).

Curto, José C. “O arquivo paroquial da Muxima [...].” Africana studia, Porto de 2024: 165-180.

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[1] Universidade do Porto, Faculdade de Letras, CITCEM (Centro de Investigação Transdisciplinar «Cultura, Espaço e Memória»).

[2] Como se sabe, era nos periódicos que os angolenses mais publicavam. Foram muito escassas as publicações em livro.

[3] De passagem mas suportado em pesquisa bem resumida, Xavier de Figueiredo refere o padre Necessidades e suas obras no romance histórico O Príncipe do Congo (Figueiredo 2020).

[4] Com efeito, a 7.4.1846, o Ministro da Marinha e Ultramar subscreveu a portaria 324, dirigida à Junta da Fazenda de Angola, nos seguintes termos: “Atendendo ao que Lhe [à Rainha] representou o Presbítero António Francisco das Necessidades, que por Decreto de 19 de Novembro último foi Apresentado em uma das Cadeiras de Cónego da Sé de Luanda, Há por bem Conceder-lhe a faculdade de pagar os Direitos desta Mercê importantes em cento e cinquenta mil reis, pelo desconto da quarta parte dos seus vencimentos”. O documento se transcreve no citado volume (III) de Angolana.

[5] N. em Luanda, 6.1.1805, filho de Bento Pinheiro Falcão e de D. Francisca Joaquina Moreira. Foi ordenado sacerdote em 1827, cónego a 3.2.1831. era Cavaleiro da Ordem de Cristo e desempenhou cargos de maior relevo na hierarquia da igreja angolana, incluindo o de tesoureiro-mor da Sé. F. com 57 anos (e dois meses) a 7.3.1862. As informações foram dadas pelo filho, também cónego, Timóteo Pinheiro Falcão no Boletim oficial de 22.3.1862, pp. 90-91. O filho o refere ao pai como “o caro amigo”, não como pai. Por razões compreensíveis, não se assumiram como pai e filho. A publicação da nota de falecimento vem com data de 13.3.1862.

[6] Em O futuro d’Angola, 65, 14.3.1887. Veja-se também (Azevedo 2015, 151).

[7] Batizou na Muxima nos anos de dezembro de 1846 a fevereiro de 1848 e exerceu no interior da “província angolense” em diversos anos (Pombo] 1934, 170, Curto 2024).

[8] Repare-se no “but” na frase.

[9] A expressão foi comum ainda na época, trazida de séculos anteriores pela tradição escrita europeia. Manuel Patrício Correia de Castro, no manifesto em que explica porque seguiu para as Cortes Constituintes sem consultar os seus eleitores, recorre a um tratamento idêntico logo para o título: «Aos meus amados compatriotas» (Castro, Aos meus amados compatriotas 1822).

[10] Ele escreve “parroco”, não só nesta passagem.

[11] Repare-se que os limites são marcados por propriedades de filhos da terra, ambos por acaso negreiros, o segundo igualmente bibliófilo.

[12] Leia-se “Dangui”.

[13] Manuel Alves de Castro Francina, em um dos seus relatos de viagem, refere-se as estes “meirinhos”, que seriam muitos, não legais, e que adjetiva negativamente, argumentando que deviam reduzir os meirinhos aos nomeados oficialmente e estes ao mínimo possível. A sua viagem começou a 22.6.1846.

[14] Esta medida foi defendida ardorosamente mais tarde pelos fundadores d’A civilização da África portuguesa e por Francisco Pereira Dutra.

[15] No sentido em que se formava entre e para além das antigas nações.

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