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Bocage em Angola - no século XIX


Por uma santa queres tu passar,
E mal sabes que no mundo exaltar
Honra e virtude, é uma peta e engano,
Como em bom verso disse o divo Elmano

(Cordeiro da Matta, «A uma Lucrécia», Luanda, 1887)



Ponto de situação

Esta e outras referências a Bocage (1765-1805) foram comuns no século XIX lusófono e Angola não constituiu exceção. Daí que se faça necessário compreender a figuração e, eventualmente, as funções da sua sombra sobre a poesia da época.
A posição literária de Bocage é inquestionável no panorama temporal em causa, quer pelo humor, quer pela mestria artística e linguística, quer pelo sentimento vibrante, quer pelas paisagens fúnebres, noturnas, arruinadas, de alguns dos seus sonetos e pelos tocantes autorretratos. Ele foi, como diz Fidelino de Figueiredo, o “mais evidente dos percursores”. O crítico aponta-lhe uma “impulsiva”, biológica “versatilidade [...] e o entusiasmo lírico, a veemência sentimental, a visão poética com que coloria quanto representava”. Mas não só, a sua literatura tinha ainda outros pontos de interesse para angolanos e brasileiros, além de portugueses.

Enquanto autor, aparece Bocage a meio da tabela nos livros mais requeridos, para o Rio de Janeiro, entre 1808 e 1826, melhorando em um ponto a posição relativamente ao período anterior (1769-1807) (Abreu, 2003 pp. 90, 107). Não era apenas um poeta popular entre o comum dos leitores, os seus congéneres continuadamente o admiraram até hoje. Garrett, em 1826 (no Parnaso lusitano) achava Bocage (e Filinto Elíseo) dotado “pela natureza de prodigioso engenho poético” e separa-o dos ‘elmanistas’, ou seja, dos epígonos  (Monteiro, 2005 p. 119). Gonçalves Dias cita-o, colocando-o consequentemente no cerne do movimento romântico brasileiro. No Tratado de versificação (1905), onde seguem elogiosamente Castilho, partilham Bilac e Passos a opinião de que Bocage é o mais “delicioso” e perfeito “de todos os nossos metrificadores”. Muito mais perfeito que Filinto segundo os três.

Pode-se argumentar que os parnasianos e Castilho estariam mais propensos a tal admiração – este pelo cultivo das agudezas métricas e rítmicas, aqueles pelo rigor formal associado a ritmos vivos que procuravam com seus poemas. É também por esse motivo, junto com o amor e domínio da língua portuguesa, que Bilac chama Bocage de “Mestre Querido”… Pode-se ainda lembrar que Almeida Garrett criticava a monotonia métrica de Bocage (muito repetida por Bilac e, na verdade, era mais o cânone da uniformidade, da unidade formal – oposto ao cânone romântico de adaptação das soluções métricas aos estados de alma sugeridos). Mas o metro (e o ritmo) aqui, sobretudo para os parnasianos, não é somente uma operação matemática e uma adição sintática. Ele “se dobrava flexível à ideia, prestando matiz e relevo aos pensamentos”, segundo o biógrafo da edição das Poesias adiante comentada (Bocage, 1853), que nisso corrige o seu amigo e mais velho Garrett. Com justeza passava Rebelo da Silva do metro para o ritmo, considerando que, ritmicamente, Bocage interpretava “o coração e a vida” e, se não fossem “os vínculos da imitação clássica”, não “deixaria de subir com a alma às eminências, onde campeia orgulhosa a escola moderna”. Portanto, bastava que ele tivesse outros modelos para que a sua plasticidade métrica e rítmica se tornasse romântica.

A biografia errática e turbulenta, a personalidade desregrada, a sátira, as anedotas, o arrebatamento de muitos dos seus poemas, o erotismo, as paisagens (românticas já) de vários sonetos, o vernáculo da linguagem, rítmica e emotivamente forte (também por isso Herculano o consideraria popular), a “invenção metafórica” (Monteiro, 2005 p. 124), “o espiritualismo plangente que depois vemos nas Meditações de Lamartine, e n’algumas odes de Victor Hugo” (Mendonça, 1855 p. 55) e o sentido de justiça fizeram com que se visse em Bocage um percursor e se mantivesse ativa a sua leitura ao longo do século XIX. Como disse Rebelo da Silva, de cuja apropriação falarei mais à frente: “príncipe na arte clássica, percursor, para nós, da revolução literária”.

Atestando a sua presença entre nós no século XIX (e, por tanto, a nossa natural inserção no mercado lusófono da época), ainda pude consultar as Poesias de Bocage na Biblioteca do Governo Provincial de Luanda, em duas coleções da edição de 1853, a melhor, organizada por Inocência Francisco da Silva, o famoso bibliógrafo. Elas são referidas também num espólio de Benguela, enumerado em 1856, o do “cirurgião médico Joaquim Joze Vieira de Carvalho” (1820, Lisboa; 16-4-1856, Benguela), cuja laje fotografei no cemitério da cidade.

Uma das coleções da antiga Biblioteca Municipal de Luanda é de uma edição que circulou por Angola, seguramente, naquele tempo. Ela foi comprada por Joaquim Eugénio de Salles Ferreira a alguém de apelido “Rocha” (não foi o único livro que ele comprou a alguém com esse nome). Isso vem no vol. I, onde se especifica a data da compra (3/7/80) e o preço: 13.500 réis. A outra coleção das Poesias que vi na Biblioteca do Governo Provincial está muito estragada, sobretudo nas primeiras páginas do vol. I, dando somente para ver o carimbo da Biblioteca Municipal de Loanda. Para esse volume, danificado no início, onde faltam folhas, não me foi possível encontrar uma data, editora, ou local de publicação. O final do livro inclui uma «Advertência» por causa das gralhas, que é da autoria de Inocêncio Francisco da Silva. Essa nota vem datada de 30-03-1853 e localiza o subscritor em Lisboa, pelo que julgo tratar-se da mesma edição comprada por Salles Ferreira, que foi preparada e anotada pelo grande bibliófilo português. É a data mais aproximada que tenho. No outro exemplar se percebe que o autor do estudo biográfico introdutório (uma notável peça retórica) se chamava L. A. Rebelo da Silva (1822-1871) e que o volume saíra para as ruas em Lisboa, da casa de A. J. F. Lopes (António José Fernandes Lopes), em 1853.


O bibliófilo Salles Ferreira e a presença de Bocage em Angola

Tendo esta edição pertencido ao médico Vieira de Carvalho em Benguela (por onde se disseminou) e a Joaquim Eugénio de Salles Ferreira, político, professor e comerciante com posição destacada na pequena colónia de Luanda e arredores, ela merece maior atenção desde já.

Particularmente importante é, neste contexto, a pertença a Salles Ferreira e explico porquê, uma vez que Joaquim Eugénio de Salles Ferreira nunca vem comentado quando se fala de livros, cultura, literatura em Angola. Sugiro por isso acompanharmos a sua ascensão a partir do ano de 1874 com algum pormenor. Ela nos dará, por sinédoque, a noção da importância que tinha o facto de ele possuir, na sua biblioteca, exemplares da obra de Bocage.

Anteriormente a essa data não deparei com o seu nome no Boletim oficial (entre os que li depois deste nome se tornar significativo). O que pude acompanhar foi a ascensão do irmão, Francisco de Salles Ferreira, muito possivelmente mais velho e protetor do nosso docente.

Francisco de Salles Ferreira viera para Angola, provavelmente, a partir de São Tomé; digo isto porque, por Despacho de 9 de Janeiro de 1852, havia sido nomeado “Comandante interino do Batalhão de Caçadores da Rainha”, sendo então “Major graduado da Província de S. Thomé e Príncipe, servindo nesta Província”[1]. Tinha combatido já, no Pungo-Andongo, o “jaga” rebelde Bumba, derrotando-o e fazendo eleger definitivamente outro, a quem entregou os símbolos reais deixados por Bumba. Na sequência da subjugação do “Cassange”, de suas vias comerciais e da Feira local estava, já, prestigiado e com salário razoável. Era major, ainda, no Presídio de Pungo-Andongo em 17 de Dezembro de 1851[2]. A sua passagem por ali estará na origem da Memória sobre o sertão de Cassange (datada de “Loanda, 20 de Abril de 1853”), bem como na do livrinho (81pp.) Ouro, prata e carvão no Golungo Alto e Cambambe. Junto com Do tabaco em Angola e Minas de Angola (que parece ter íntima relação com Ouro, prata e carvão no Golungo Alto e Cambambe), são estas as obras dele referenciadas, publicadas em 1877 e 1896, respetivamente.  Em 1855 saem as Explicações de doutrina cristã em português e angolense para uso das missões do interior de Angola (150pp.), que foi a 4.ª edição do catecismo Genti­lis Angollae Fidei Mysteriis Instructus, ex lusi­tano i­dio­mate latine redditus, ao qual acrescentou um «Guia de Conversação». A edição foi custeada pelo negociante Francisco António Flores, pelo que podemos pensar que, nesse ano, Francisco Salles Ferreira não era ainda muito rico. No entanto, contribuiu com 10.000 réis para as “Exéquias fúnebres e Monumento do Exm. Conselheiro Pedro Alexandrino da Cunha, que foi Governador-geral desta Província”[3] e se destacou pelo combate ao tráfico transatlântico de escravos.

A rebelião de Cassange foi, como disse, a sua grande oportunidade, no tempo do governador Adrião Acácio da Silveira Pinto – a quem José da Silva Maia Ferreira dedicara um poema nas Espontaneidades da minha alma. Exoneraram-no do cargo anterior para servir enquanto “Comandante da Expedição de Cassange”[4], tendo derrotado o Jaga nas “duas expedições enviadas contra o ex-Jaga de Cassange” e sendo então transferido oficialmente para a Província de Angola, promovido ao posto de “Major efetivo de Infanteria da referida Província” por Decreto assinado pela Rainha. Era ainda o “Comandante geral da expedição de Cassange” em 8-7-1852[5].

Por portaria de 1-9-1852, “foi exonerado do Comando da expedição de Cassange onde prestou úteis serviços, o Sr. Major Francisco de Salles Ferreira por terem cessado os motivos que deram logar à sua nomeação pela Portaria n.º 64 de 10 de Fevereiro último, devendo ser empregado como mais conveniente for ao serviço.”[6] A conveniência nomeou-o “Comandante interino do Batalhão de Infantaria desta Província”[7]. Na mesma altura foi nomeado “Membro do Tribunal da Junta de Justiça” por Portaria do Governador-geral n.º 151, de 6-10-1852[8]. A partir daí nunca mais parou de subir na hierarquia militar e civil da colónia, particularmente em Luanda, alcançando uma sólida posição no momento em que observei a ascensão social do nosso bibliófilo, seu irmão. A tal ponto chegou a sua fama e situação que, em 1-10-1893, quando o novo governador-geral Álvaro Ferreira tomou posse, a notícia e ele próprio são muito bem recebidos em Angola, por ser o filho de Francisco de Salles Ferreira e natural de Luanda, casado com uma filha do desembargador Joaquim Guedes, que também foi figura prestigiada na colónia. A esposa era, igualmente, natural de Luanda, neta de J. Rodrigues Coelho do Amaral, engenheiro (militar) que foi governador de Benguela (era-o em 1852 e 1853), duas vezes governador de Angola (1854-1860; 1869-1870), Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar em Portugal (4-1-1868 a 22-7-1868). Isto mostra igualmente a excelente colocação de Francisco de Salles Ferreira na hierarquia social da colónia de Angola. Do que terá beneficiado o irmão professor.

Joaquim Eugénio de Salles Ferreira fez parte, com António Urbano Monteiro de Castro (jornalista, versejador e bibliófilo de origem portuguesa, marcante no restrito cenário intelectual da Luanda da época), faziam parte da “Comissão de Angola” para comemorar o 1.º de Dezembro em 1874[9]. Joaquim Eugénio foi nomeado sócio honorário da Associação Comercial de Luanda, juntamente com F. A. Pinheiro Baião, Lino de Sousa Araújo (outro nome bem conhecido do jornalismo angolano[10]) e João Chrysóstomo Mackonelt, “como representantes da imprensa periódica desta capital”. Nessa altura Francisco de Salles Ferreira ocupava o cargo de primeiro secretário da mesma Associação[11]. Foi, nas eleições seguintes, escolhido para a direção da Associação Comercial de Luanda (de que também fazia parte Urbano de Castro), como primeiro secretário, passando Francisco de Salles Ferreira a vice-presidente[12]. Francisco de Salles Ferreira assume, pouco depois, as funções de cônsul do Brasil enquanto o cônsul ia para a Europa sem tempo determinado. Este dado é importante, pois reforça a hipótese de se terem lido poetas brasileiros contemporâneos em Angola. Parece que o irmão do nosso bibliófilo foi um cônsul ativo, rigoroso, a julgar pelos anúncios que saíram no mesmo Boletim oficial. Para além disto é um dos amigos referidos por Capelo e Ivens entre os que eles re-encontraram em Luanda, juntamente com o professor Miranda Henriques, Urbano de Castro (que lhes “prestou” um “vocabulário da língua N’bunda”) e José Maria do Prado[13].

J. E. Salles Ferreira fez ainda parte, com António Félix Machado (pai de Pedro Félix Machado, o nosso único parnasiano)[14], Carlos Augusto da Silva[15], Joaquim Bernardo Ferrão (irmão de José Bernardo Ferrão)[16] e Francisco Salles Ferreira, de uma Comissão de negociantes eleitores de “4 juízes jurados substitutos e supranumerários” em 1874. Os três primeiros nomes repetem-se, pelo menos, em 1865[17] e 1874[18].

Joaquim Eugénio foi professor também na Escola Principal de Luanda e integrou os júris dos exames (nomeado a 25-06-1874)[19]. Cerca de três meses depois era “Secretário do Conselho Inspetor” da “Instrução Pública” e lecionava a “segunda cadeira” da escola principal, onde se davam as seguintes matérias: “princípios de cosmologia, elementos de geografia matemática, geografia comercial, história geral e física elementar”. As aulas iam começar a 1 de Outubro e Alfredo de Sousa Netto, que nos deixou sinal de si com dois poemas no Almanach de lembranças, era o professor da “aula primária, anexa à escola principal”, onde na “primeira cadeira” se lecionava “arithmética, algebra, escripturação mercantil, geometria elementar e lingua franceza”[20]. Havia, portanto, em torno da embrionária rede de ensino, passando por ela e buscando nela prestígio e salário, um grupo de leitores interessados, cultos e bem relacionados na colónia e na ‘metrópole’. Entre eles estava este leitor de Bocage.

Fez Joaquim Eugénio uma viagem a Moçâmedes e Benguela, pelo que se deduz da notícia dos navios entrados e saídos em Luanda nesse mês de Setembro de 1874. As viagens relacionavam-se provavelmente com os exames que marcou sendo Secretário do Conselho de Instrução Pública. Não eram exames rotineiros: destinavam-se ao provimento de professores para as “aulas régias” de Benguela e Moçâmedes (hoje Namibe). Os exames são importantes para nos darem uma ideia, quer das exigências que o Secretário considerava indispensáveis, quer do que implicava ser professor da “aula régia” naquele tempo. Constavam de

1.º Leitura e recitação de um trecho de um livro clássico, princípios rudimentares de gramática geral, conhecimento racional e prático da língua portuguesa2.º Doutrina cristã e noções elementares de História Sagrada3.º Aritmética e sistema métrico decimal4.º Noções de corografia de Portugal e suas possessões, especialmente desta província5.º Noções de história pátria, factos mais notáveis Isto para as provas orais. Para as escritas1.º Problemas elementares de aritmética e sistema legal de pesos e medidas2.º Escrita de um texto em prosa ou verso de um livro clássico, ditado pelo presidente do júri3.º Resposta a um quesito sobre pedagogia prática ou sobre alguma das disciplinas de instrução primária [21]

Note-se a cultura geral exigida, que implicava conhecimentos de História que reforçam a minha intuição quando registei e comentei os livros dessa disciplina nas nossas fontes. Mais importante ainda para a pesquisa é o peso da literatura, dentro dela a clássica europeia e a sagrada, confirmando a pertinência da consideração do pendor clássico sobre os nossos tentames românticos – como, de resto, aconteceu com o primeiro romantismo no Brasil e em Portugal.

Os livros que lia o Secretário de Instrução foram, portanto, significativos para os seus alunos, os professores, os leitores dos periódicos e os amigos da elite luandense da época e respetivas adjacências. Temos visto e continuaremos a ver várias vezes o seu nome referido como proprietário de obras muito significativas para o nosso meio nesse tempo e muitas delas em edições atualizadas.

Fica, portanto, claro que a presença de Bocage na sua bibliografia merece uma atenção particular. Ora, essa presença filtrava a passagem da figura do poeta por uma biografia muito sugestiva, de L. A. Rebelo da Silva, à qual por isso passo a dedicar algumas linhas.


A biografia de Rebelo da Silva mostrando Bocage aos angolenses

Luís Augusto Rebelo da Silva cresceu no meio dos primeiros românticos. Almeida Garrett e Alexandre Herculano (Pato, sd) frequentavam a quinta do seu pai (transformada na casa de Joaninha das Viagens na minha terra (Barreiros, 2006)), próximo de Santarém. Mas foi no ambiente lisboeta que principalmente se formou, estreando-se na Revista universal de Castilho, que lhe deu a primeira comunhão em 1842. Por recusa de Alexandre Herculano, foi ocupar o lugar que seria do grande historiador no Curso Superior de Letras (Leone, [2008]). Foi também cofundador do Grémio Literário lisboeta, juntamente com Almeida Garrett, Herculano e outros (Barreiros, 2006). Nas páginas da Illustração luso-brazileira (propriedade de A. J. F. Lopes, o editor do livro de Bocage prefaciado por Rebelo da Silva) foi, por muitos números, Rebelo da Silva elogiosa e detalhadamente comentado por Ernesto Biester (1829-1880), que Camilo Castelo Branco, o sucessor de Bocage na prosa narrativa, adjetivou de “um dos mais observantes e impecavéis sócios do elogio mútuo.” A partir do n.º 8, a Ilustração começa a sair aos Sábados e tem como diretor este estudioso de Bocage (L. A. Rebelo da Silva), com quem não praticou o elogio mútuo... Note-se que o periódico era do mesmo editor de O panorama e de várias obras que circularam entre angolenses e portugueses residentes, nessa época, em Angola – como também circulava no Rio de Janeiro, onde era muito conceituado. O panorama girava como órgão de um grupo nuclear no romantismo português, marcando em particular o nosso primeiro poeta a publicar um livro, José da Silva Maia Ferreira. O próprio Rebelo da Silva colaborou nas suas páginas desde o primeiro número – com uma biografia curta esperançosa e bajuladora de D. Pedro V, que então contava 19 anos, um deles de reinado.

O que Rebelo da Silva escreveu foi, portanto, sintomático de como o primeiro romantismo (e o segundo) absorveram Bocage. Com a vantagem de nos dar um texto já tardio, portanto de um momento no qual a apropriação de Bocage estava consolidada em Portugal – e a vitória do romantismo também. 

Bocage é interpretado quase como um primeiro romântico, um romântico escrevendo ainda sob recortes clássicos, ideia que depois se tornou comum e a que não eram estranhas as considerações de Garrett sobre Bocage em 1826. Ao grande sonetista e sátiro português dedicou Luiz Augusto Rebelo da Silva uma obra, talvez o desenvolvimento do estudo incluído neste volume das Poesias de Bocage: Memoria biográfica e litteraria ácerca de Manoel Maria Barbosa du Bocage : do caracter das suas obras, e da influência que exerceu no gosto, e nos progressos da poesia portugueza (Silva, 1854). O “estudo biographico e crítico” é um primeiro exemplo, que Rebelo da Silva nos dá, da aquisição, ou assimilação, do neoclássico pelo romântico operada sobre a figura de Bocage.

Uma das primeiras marcas é de índole estilística, do próprio ensaísta (que denuncia as suas opções estéticas na prática discursiva). O biógrafo compõe frases apuradas, comedidas, expressivas e sentimentais como estas: “a sua agonia foi ainda um cântico!” (se o leitor escutar bem, a frase é feita com dois pentassílabos, o ritmo dominante nas citações seguintes); “via sobre si a sombra imensa da morte”. Acompanha-as uma imagem típica do poeta inato, do genuíno génio: “vate desde a infância [...] ainda balbuciava, e já as palavras lhe acertavam com a melodia poética” – portanto: nascera a cantar e a cantar morrera (por pancada: “as palavras lhe acertavam com”).

Repare-se que o meu parêntesis não contém apenas ironia: as palavras ‘acertavam-lhe’ – não tinha de as procurar. Portanto a poesia não era uma questão de oficina mas, romanticamente, uma vocação, um talento nato como o da eloquência, ativado por inspiração. Dando continuidade à síntese que faz entre romantismo e neoclassicismo, o biógrafo salienta que os poemas mais elucidativos da sua genialidade eram, não somente sentidos, mas bem limados: “abram os seus livros nos poemas onde a lima passou mais lenta, e a meditação se demorou um pouco”. Classicamente, o equilíbrio trazido por uma “lima” dá correspondência à ponderação no campo das ideias e a um resultado estético melhor.

As ambiguidades, ou ambivalências, continuavam. A ambiência na qual a morte nos leva o poeta participa de uma sintonia absoluta. Toda a paisagem, física e humana, remete para o drama da sua morte nesse dia preciso. Diríamos hoje que é um quadro holístico o do passamento de Bocage na biografia:

[…]o último dia, que respirou, nasceu sepultado em nuvens. Parecia que tinha medo a claridade de romper. O céu forrado e escuro; o sol encoberto; e o sul gemendo sobre a cidade, tornavam triste o aspeto de Lisboa.

O autor assume como verdadeira esta relação entre a natureza e o estado da personagem, que não se dava mal com a adequação do visível ao sentido na poética horaciana, mais tarde na poética realista e em escritores africanos como Manuel Lopes. Leia-se, a propósito, esta passagem do ensaio de Rebelo da Silva: “a melancolia do tempo estava em harmonia com a melancolia dos homens” (repare o leitor, paralelamente, como o ritmo da frase pode ser segmentado numa sequência de 5+2+5+5+2).

A paisagem humana e física é a da cidade de Lisboa. O romantismo, período literário acompanhado pelas revoluções liberais e nacionais, ou simplesmente por revoluções, ergueu, mais do que nenhuma outra fé literária, o mito do poeta que iconiza a identidade coletiva, de uma cidade como de uma nação. O quadro da morte é, não só holístico, mas o momento apropriado para mostrar a identificação da cidade, mesmo do país, com o poeta agonizante: “curvada diante das cinzas do seu vate predileto a bella capital não fingia o lucto, carregava-o!”. Observe-se a hipérbole (“a cidade”, “a bella capital” – como se toda a cidade estivesse inteiramente suspensa do desenlace). O quadro social envolvente é transversal, pois são referidas pessoas de todas as classes e condições acorrendo para saber notícias e acompanhar o sátiro no derradeiro suspiro. Até os desentendidos, naquele momento, apareciam, mesmo os que tinham polemizado com ele, ou se tinham indisponibilizado com ele em vida, perguntavam pelo seu estado, preocupados e solidários.

O processo alquímico da transformação de uma poesia profundamente pessoal numa figura coletiva tinha referências literárias contemporâneas na Europa: “o interesse dos inglezes por Walter Scott, o seu romancista querido; a ansiedade de Paris por Mirabeau, o seu orador sem rival, dava-se em Lisboa por Bocage”. O crítico e biógrafo tem a preocupação de mostrar que Bocage conhecia bem as heranças literárias europeias: imitou “(mais do que sublime tradutor)” Ovídio (43 AC – 17), Delille[22](1738-1813), (1758-1832) e Castel (1758-1832), o naturalista-escritor do poema Les plantes e tradutor de Le mariage des plantes (anónimo, sd).

Camões é, claro, uma sombra pairando sobre tudo isto. Camões era nesta época o poeta nacional por excelência e Bocage queria segui-lo também no panteão. Parece que se dispôs a “entoar o canto das guerras dos semi-deuses da conquista, na Ásia e na África portuguezas!” (Bocage, 1853). Pela sua biografia e pelos “primeiros rudimentos de um poema, intentado sobre o descobrimento da América”, ele vem legitimar a colonização contemporânea. A leitura que se fazia de Os lusíadas era idêntica, tornando a sua figura (de Bocage) ainda mais pertinente para a justificação e glorificação das colonizações portuguesas. Essa a parte que particularmente agradaria ao segmento colonial entre nós – tanto quanto desagradaria ao segmento colonizado.

Outra referência a África nos seus poemas advém da polémica violenta com os novos árcades. A polémica levou à composição de vários sonetos e teve como alvo destacado o poeta, violoncelista e letrista Domingos Caldas Barbosa. Caldas Barbosa, que nascera no Rio de Janeiro em 1739 ou 1740, era mestiço, o que não parece ter inibido a sua carreira em Lisboa. Quando, porém, estalou a polémica, a veia satírica de Bocage revela-se igual à de Gregório de Matos, ou do poeta Chiado, recorrendo a preconceitos raciais para humilhar o adversário. É aí que aparece a referência africana, pois lhe chama “neto da rainha Ginga”. Transcrevo:

Preside o neto da rainha Ginga
À corja vil, aduladora, insana:Traz sujo moço amostras de chanfana,Em copos desiguais se esgota a pinga: Vem pão, manteiga, e chá, tudo à catinga;Masca farinha a turba americana;E o ourango-outang a corda à banza abana,Com gestos e visagens de mandinga: Um bando de comparsas logo acodeDo fofo Conde ao novo Talaveiras;Improvisa berrando o rouco bode: Aplaudem de contínuo as frioleirasBelmiro em ditirambo, o ex-frade em ode;Eis aqui de Lereno as 4.ªs F.ªs

As referências africanas são três e duas delas remetem para o espaço que hoje é Angola. A rainha Ginga não tinha, pelos vistos, grande prestígio em Portugal. Se tivesse, o autor não usaria a menção ao seu nome para desprestigiar o seu alvo. Mas isso quer dizer que havia ali memória dela. O “mandinga” era já associado à feitiçaria, à magia negra, como parece estar sugerido aqui. A banza é, como se sabe, uma palavra angolana até hoje, bem funcionalizada pela nossa literatura.

Uma passagem de Bocage que ainda não comento agora servirá para mostrar aversão ao preconceito racial enquanto coisificação do homem.


José da Silva Maia Ferreira e Bocage

Salvato Trigo notou, num texto sobre a presença das letras francesas no século XIX em Angola, a intertextualização com Bocage na lírica do nosso primeiro poeta, José da Silva Maia Ferreira  (Trigo, sd pp. 102, 112-113). Bocage é, por exemplo, convocado à epígrafe do poema «Ainda a ela!» (Ferreira, 2002 pp. 111-112).

Outra intertextualização das Espontaneidades remete-nos para Delille e, por sua via, de novo para Bocage. Explico:

Jacques Delille (1738-1813), considerado o ‘Virgílio francês’, foi ficando encoberto pelos oceanos de papel que as massificações literárias dos séculos XIX e XX produziram. Foi, no entanto, muito popular no seu tempo. Além de poeta, foi tradutor. A sua biografia pode ter despertado alguma curiosidade entre os primeiros românticos: ‘filho natural’, tornou-se abade sem sequer ter sido ordenado padre, foi preso durante breve tempo no período do Terror (da Revolução Francesa; era contra a Revolução e muito mais ainda contra Napoleão), casou-se e fugiu para a Suíça, tendo viajado por diversos países. Mais tarde regressou a França. Nos últimos anos de vida esteve cego.

A sua melhor poesia é marcada por um tom elegíaco. Bocage foi, precisamente, um dos seus tradutores para português, num livro publicado em Lisboa e que se vendia no Rio de Janeiro (por anúncio, por exemplo, no Jornal do comércio, a 19-1-1830).

O poema traduzido chamou-se, em português, Os jardins ou a arte de aformosear as paisagens e a tradução data de 1800, sendo a impressão do livro de 1801. Estava integrada com O consórcio das flores, “Epístola de La Croix a seu irmão”, que deu título ao conjunto. O poema aparece também na edição das Poesias de I. F. da Silva, tomo V (Bocage, 1853 pp. 13-94), antecedido por uma explicação do tradutor – e essa edição, como já referi atrás, andou por Angola durante o século XIX.  

Além disto, a mestria técnica (estrófica, métrica, rítmica e rimática) revelada por Maia Ferreira, na qual Mário António e Gerald Moser repararam com acerto, não nascia só da leitura de Gonçalves Dias (outro metrificador exímio), mas desta herança neoclássica admitida pelo romantismo e com ele partilhada. No que não estava sozinho, pois por exemplo Garrett, em D. Branca, e Castilho em A primavera, apanham a “dulcificação” das formas da poesia e outras influências do poeta maior do século XVIII português.


Joaquim Dias Cordeiro da Matta e Bocage

Outra vertente da obra de Bocage indissociável da sua popularidade é, sem dúvida, a da sátira. No mesmo Tratado de 1905, Bilac e Passos adjetivam-no como exemplo superior de sátiro português. O autor do “estudo biographico e crítico” da já citada edição das Poesias, que sobrevivia nas recuperadas prateleiras da Biblioteca do Governo Provincial de Luanda, fala da “alma” de Bocage “feita como a de Chenier para acerar o jambo da satyra” (Bocage, 1853).

Falo da sátira nela incluindo a crítica e a denúncia, políticas ou sociais. Um exemplo de como essa crítica e essa denúncia calavam fundo no nacionalismo brasileiro nota-se numa correspondência enviada, de Pernambuco, para o Correio brasiliense em 3-12-1816 (Fiel, 1817 p. 468).

A correspondência refere-se aos abusos sobre os negros e ao desbaratar de custos. A repressão a uma “insurreição” imaginária de “pretos” numa fazenda de Alagoas (eles estavam apenas dançando ao redor do batuque) leva ao degredo deles para “Fernando” (Fernando de Noronha, talvez) e ao enforcamento de um tirado ao acaso. O correspondente relata: “no fim da cena, em lugar da pateada, apareceu o clamor do público, não repetindo com Bocage “folga a justiça, e geme a natureza”, mas sim “geme a justiça, e geme a natureza””. Enviada nessa época para o primeiro jornal brasileiro, feito em Londres e de cariz liberal, a carta em causa cria já ambiência para a revolução pernambucana de 1817. Para o nosso particular assunto, o importante é que o faça com uma citação de Bocage, que assim era visto como justiceiro.

Foi, creio, por aí – sátiro e justiceiro – que mais se entusiasmou com ele outro poeta novecentista, originário de Icolo e Bengo. Joaquim Dias Cordeiro da Matta – o segundo dos três angolanos que publicaram livros de poesia no século XIX (Mata, 2001) – entre os seus Delírios nomeia por duas vezes “Elmano”, uma delas recordando o “verso” do português, outra numa estrofe que reestrutura o final de um soneto satírico de Bocage. Tendo sido ele, nitidamente, um protonacionalista é de observarmos estas intertextualizações mais de perto.  

Parece-me ter ele realizado leituras profundas e ter conhecido bem a obra do sátiro português. Para detalhar uma das ‘visitas’ à poesia de Bocage, começo por interpor a figura de um discípulo hoje menos conhecido, Pato Moniz, Nuno Álvares Pereira Pato Guerreiro Velho Moniz Perdigão, ou Nuno Álvares Pereira Pato Moniz (1781-1826). Descendente da velha nobreza lusitana, herdeiro e dono de solar antigo (séc. XV) em Alcochete, poeta, político maçónico, jornalista, grande amigo e discípulo de Bocage, escreveu um “poema herói-cómico” satirizando o Pe José Agostinho de Macedo, a que por isso mesmo deu título de Agostinheida (“poema heroe-comico em 9 cantos” (Moniz, 1876)).

Não sei se Cordeiro da Matta alguma vez o leu, mas veio-me a suspeita quando reparei nestes versos inseridos em Delírios, com que se inicia o poema «A um analfabeto / (que se tinha em conta de sábio)»:

Vós ó civilizadas gentes, que os sucessos
Estupendos e raros, sempre ouvis expressosEm fúlgida dicção;

Veio-me a suspeita porque, procurando versos semelhantes em rede, encontrei estes de Pato Moniz:

Vós que folgais de ouvir bem celebradosEm fúlgida dicção heróis sublimes

Ambos os poemas podem ser considerados satíricos e, como se vê, une-os esta expressão exatamente igual (“fúlgida dicção”), sendo que o verso que a antecede, no poema de Cordeiro da Matta, está semanticamente próximo dos versos que a antecedem em Pato Moniz. Esta foi, aliás, a única expressão exatamente igual que encontrei na minha pesquisa via google, não havendo qualquer outra em que ‘fúlgida’ e ‘dicção’ estivessem juntas.

Em Bocage aparece a palavra “dicção”, mas “dicção narrativa”. Coincidência ou não, a terceira secção do poema, nos Delírios (Matta, 2001 p. 116), inclui no primeiro verso uma referência a “Elmano”, ou seja, Bocage, ou seja, o amigo e mestre de Pato Moniz, que ainda veio a anotar os seus poemas:

Se és de Elmano o Satanaz

Achei o verso estranho naquele poema e procurei mais. Na mesma estrofe surge a expressão “pobre lapuz”. Encontrei-a num livro despretensioso, de um professor do Liceu do Porto, publicado em 1853 (Silva, 1853 p. 172). Mas antes a encontrei num apólogo de Bocage e, quer pelo texto do nosso poeta quer pelo conteúdo do apólogo, parece mais provável a expressão constituir uma reminiscência de uma leitura criativa do bardo português. O apólogo chama-se «Os cães domésticos, e o cão montanhez», uma fábula em verso na qual se critica abertamente o racismo, sobretudo no final. Antes se dá o contexto: “Afirma escritor antigo [deve, portanto, ser uma fábula de Esopo, ou de Fedro] / Que lá n’um grande sertão / Três cães perdidos na caça / Viram sósinho outro cão. / Que este era cor de azeviche, / Aquell’outros cor de neve […/…] Tinham pelo muito fino / e eram da cidade os três” – enquanto o negro era do campo (Bocage, 1853 pp. III, 193). O mais valentão dos cães brancos vira-se para o cão negro e diz-lhe que ele é escravo deles. Sigamos a narrativa: 
 Em fim, co’um ar espantado
Lhes disse o pobre lapuz[23]:Eu captivo! Porque crime?Vós senhores! Com que jus?

E a resposta vem certeira no final:

«O nosso jus é a força,O teu delicto é a cor.»De homens pretos, e homens brancosCuido que fala este autor

As intertextualizações não ficam por aqui. No apólogo anterior, Bocage fala de «Dois burros e um mono», pondo na voz do mono este verso: “Burro com fumos de mestre” – que resume o dedicado de Cordeiro da Matta no poema que estou a citar (“A um analfabeto / que se tinha em conta de sábio”).

Na sua estrofe, o poeta angolano caracteriza o seu dedicado como

alarve, bruto e capataz

Ao fazê-lo, parece adaptar a uma figura local outro verso de Bocage. Desta vez o verso vem no vol. I da mesma coletânea que tenho citado (Bocage, 1853 pp. I, 321) e diz assim:

Oh dos brutos e alarves capataz

Trata-se de um soneto e, como se não bastasse, a composição bocagiana tem por título, também, uma dedicatória. Por sinal, a dedicatória faz lembrar a personagem focada por Cordeiro da Matta:

A um, que não sabendo nem escrever o seu nome,Dizia que os versos do autor eram errados.

A intertextualização permite-nos compreender melhor a secção III do poema de Cordeiro da Matta, que agora vale a pena transcrever:

Se és de Elmano o Satanás,Alarve, bruto e capataz;Quem na mente t’inflama o gás,
Tu que em divórcio co’o alfabetoAndas sempre, pobre lapuz!?...
Quem morder sílabas t’induz,Tu que nem o sinal da cruzCom tinta – em quadro branco ou preto –
Fazes, ó santo analfabeto?!!...

Se compararmos agora com todo o soneto de Bocage, vemos que esta estrofe de Cordeiro da Matta, além das citadas intertextualizações, reestrutura os tercetos do sadino:

Cara de réu, com fumos de juiz,Figura de presepe, ou de entremez,Mal haja quem te sofre, e quem te fez,
Já que mordeste as décimas que fiz: Hei-de pôr-te na testa um T com giz,Por mais e mais pinotes, que tu dês;E depois com dois murros, ou com três,Acabrunhar-te os queixos, e o nariz: Quem da cachola vã te inflama o gás,E a abocanhares sílabas te induz,Ó dos brutos e alarves capataz? Nem sabes o ABC, pobre lapuz;E pasmo de que, sendo um Satanás,Com tinta faças o sinal da Cruz!









[1] LUANDA. Governo-geral da província de Angola – Boletim oficial. 328 (10-1-1852) 1.
[2] LUANDA. Governo-geral da província de Angola – Boletim oficial. 328 (10-1-1852) 2.
[3] LUANDA. Governo-geral da província de Angola – Boletim oficial. 328 (10-1-1852) 2.
[4] V., por ex., LUANDA. Governo-geral da província de Angola – Boletim oficial. 338 (20-3-1852) 1.
[5] Governo-geral da província de Angola – Boletim oficial. 354 (10-7-1852) 3.
[6] Governo-geral da província de Angola – Boletim oficial. 364 (18-9-1852) 2.
[7] Governo-geral da província de Angola – Boletim oficial. 366 (2-10-1852) 2. – Portaria de 2 de Outubro.
[8] Governo-geral da província de Angola – Boletim oficial. 370 (30-10-1852) 2.
[9] LUANDA. Governo-geral da província de Angola – Boletim oficial. 5 (31-01-1874) 51.
[10] Foi um aluno brilhante da Escola principal (onde também se estudava métrica e prosódia), onde estudou com o conhecido professor Miranda Henriques e com Joaquim Luiz Bastos (LUANDA. Governo-geral da província de Angola – Boletim oficial. – 23 (03-06-1865) 3). Trabalhou nas Alfândegas, sendo suspenso quando estava na posição de “aspirante” por ter publicado um artigo contra o governador em 1874. O seu nome vem relacionado com o Dec.-lei n.º 173/XXIV/1.ª, “sobre o governo ser autorizado a abonar a Lino Maria de Sousa Araújo as percentagens de verificador da alfândega de Luanda, correspondentes ao tempo em que esteve suspenso do exercício interino”. Era, em 1899, “recebedor” na Rep. Fazenda de Luanda e 1.º Tesoureiro Geral da Rep. Fazenda provincial, tendo pago nesse ano emolumentos. V. LUANDA. Governo-geral da província de Angola – Boletim oficial. 7 (18-02-1899) 97;109. Aposentou-se em Junho de 1899 com pensão anual de 600$000 réis. O pai, José Maria de Sousa Araújo, era oficial do exército de D.ª Maria II, nascido em Braga; terá ido para Angola cerca de 1824. A mãe era angolana.
[11] LUANDA. Governo-geral da província de Angola – Boletim oficial. 22 (30-05-1874) 254.
[12] LUANDA. Governo-geral da província de Angola – Boletim oficial. 20 (10-05-1874) 229.
[13] De Benguela às terras de Iacca. Vol. II. Lisboa, IN, 1881. pp. 224;376.
[14] Portugueses oriundos do Brasil (Recife), o pai e um tio. P. F. Machado foi o terceiro poeta angolano a publicar, ainda no século XIX, com a particularidade de ser igualmente o nosso primeiro ficcionista a editar um romance. Fundou e redigiu, também, o primeiro periódico de Benguela (A semana, 1892-1893).
[15] Creio ser o jornalista que refere discussões sobre a independência no jornal O mercantil, discussões “muito comuns” em Angola e especialmente no Cazengo, de onde assina o artigo (“Cazengo — Agosto — 82”), mas não tenho, de momento, como confirmar. O autor toma uma posição moderada sobre o assunto, que já referi na Notícia da literatura angolana (Soares, 2001), onde recordo igualmente a sua recensão aos Delírios de Cordeiro da Matta e a sua notícia de que José Bernardo Ferrão andava afastado dos irmãos no fim da vida mas que um deles, António, iria publicar o seu livro de poemas – o que não sucedeu. O mesmo “Carlos da Silva” (como assina os artigos) veio a ser, segundo penso, dir. de O arauto africano; um Carlos Augusto da Silva Júnior era vigário em Luanda (v. Kicola. I. Luanda: Mayamba, 2012).
[16] José Bernardo Ferrão, nascido em Portugal, era considerado um dos três ‘poetas do Quanza’.
[17] LUANDA. Governo-geral da província de Angola – Boletim oficial. 1 (1-1-1865) 8.
[18] LUANDA. Governo-geral da província de Angola – Boletim oficial. 41 (10-10-1874) 487.
[19] LUANDA. Governo-geral da província de Angola – Boletim oficial. 28 (11-07-1874) 219.
[20] LUANDA. Governo-geral da província de Angola – Boletim oficial. 39 (26-09-1874) 462-463.
[21] LUANDA. Governo-geral da província de Angola – Boletim oficial. 41 (10-10-1874) 484.
[22] Discípulo de Rousseau, considerado pré-romântico segundo Álvaro Manuel Machado - As origens do romantismo em Portugal. Lisboa: ICALP, 1979. p. 35. Uma sua tradução do Paraíso perdido, de Milton, vendia-se no Diário de Pernambuco. Recife. (5-3-1842) 4. Maia Ferreira retira-lhe um verso para epígrafe de um dos seus poemas (Espontaneidades…, p. 142). De Milton não vi até hoje nenhuma referência nas fontes angolanas.
[23] Ou seja: rústico.

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