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Mensagens

A mostrar mensagens de fevereiro, 2011

Intertextualização revolucionária

No auge da paixão revolucionária, a UEA (geralmente avessa a publicar literatura estrangeira) fez sair em Luanda (com dedicatória a Agostinho Neto) um instrutivo livrinho de versos intitulado  Poesia uruguaia de combate . O primeiro  poema era uma "Saudação e mensagem para 1979 // Poema circulante em Montevideo durante os meses de Dezembro de 1978 e Janeiro de 1979, editado pelo Jornal clandestino da União das Juventudes Comunistas do Uruguai como saudação e mensagem popular de fim de ano." Juntava assim um recurso (e um título) típicos do ultrarromantismo (saudações de fim de ano, apontamento das circunstâncias que deram inspiração ao poeta, etc) e um título e circunstância tipicamente políticos. A mistura era normal na revolucionarite da época. O começo do poema também nos mostra como já nessa altura a poesia revolucionária era epigonal:    Ninguém tem mais direito que nós A levantar o copo. Quem mais que nós pode brindar Por c...

O Prometeu angolano

António Jacinto explorou também o mito de Prometeu, num dos seus contos. Escrevo também porque me lembro de Pepetela no Mayombe . É uma linha de exploração a seguir, no estudo da literatura angolana, o mito de Prometeu entre os escritores nacionalistas. É lógico o aproveitamento, pois a figura mítica de Prometeu foi considerada por alguns o próprio criador da Humanidade (a partir do barro, o que traz ressonâncias bíblicas e egípcias muito sugestivas), para além de salvador e civilizador dos homens, aquele que roubou o fogo para nos dar a nós. Ele representa ess ânsia de anteciparmos o paraíso, de o fazermos vir à terra. Ora o paraíso na terra é, precisamente, um dos tópicos típicos da retórica política marxista e, como sabemos, António Jacinto (como Pepetela) era marxista. Isso traz um sentido muito preciso ao trabalho literário por eles desenvolvido em torno de Prometeu e ajuda-nos a perceber melhor as conotações simbólicas das respetivas obras. Ainda no início do conto «Prometeu»...

Benguela - pântanos

Boletim oficial do Governo Geral da Província de Angola . 372 (13-11-1852) 2:  A 5-11-1852 foi aterrado o pântano que existia a Este da Fortaleza de S. Filipe de Benguela (é o próprio Governador, José Rodrigues Coelho do Amaral, quem dá a notícia). A Fortaleza dessa época supõe-se que ficasse onde hoje funciona um serviço da polícia e onde era o quartel, frente à Igreja do Pópulo e junto ao mar. Levando em conta o desenho da costa, o Este ficaria entre a Igreja do Pópulo e o bairro do Kioche, incluindo portanto uma parte do Feijão-mistura, a zona do Hospital e o bairro em torno dele. Levando, porém, em conta o mapa  de Nicholas Bellin, de 1757, a igreja ficava em frente ao pequeno fortim, não sendo indicadas casas à volta ( http://www.cpires.com/benguela_mapas.html ) . Há, sim, casas a Nordeste (poucas) e Sudeste, com dois edifícios maiores isolados a Este do Forte de São Filipe que, nesse caso, ficaria localizado algures entre o atual Palácio do Governo e o antigo Ciclo Prepa...

Cancioneiro oral annobonês

O CEIBA é uma instituição muito ativa nos estudos africanos na Catalunha. Ativa e com trabalho sério, isento, sobre as literaturas tradicionais africanas e outras, as urbanas. Juntamente com os Centros Culturais Espanhóis da Guiné Equatorial publicou, penso que em 2008, o Cancioneiro oral annobonés . Trata-se de uma recolha a vários títulos exemplar, embora feita com muitas limitações (por exemplo: a maioria dos textos foi recolhida junto a populações originárias da ilha – Ano Bom – mas que não estão a viver ali). O Cancioneiro é um texto importante para linguistas, estudiosos dos crioulos e pidgins. Eu não sou linguista, mas percebo que temos ali um crioulo de base inicial portuguesa que depois vai agregando léxico (eventualmente mais traços) de outras línguas. Segundo o texto introdutório, Hermínio Treviño Salas, ou Nánãy-Menemôl Lêdjam, recolheu uma grande variedade de textos – não só uma grande quantidade, mas uma grande variedade. Podemos encontrar na recolha canções em ...

Borges e a tigritude

Foi um traço marcante, nas culturas francófonas, o trazido pelos sufixos identitários. Por influência francesa, ou francófona, as culturas lusófonas sofreram também dessa espécie de doença cultural, que fechava tudo em identidades muito definidas, aliás pretensamente definidas: angolanidade, brasilidade, portugalidade, etc.  Há uma tendência esquematizante, muito recorrente na cultura francesa e sobretudo conforme ela foi estiolando. Essa tendência é que veio cristalizar as identidades em sufixos como '-tude', '-ité', etc.. Há outra corrente, na cultura francesa ou francófona europeia, que se pode notar em autores diferentes como Rousseau, Pascal, Chateaubriand, Bergson, mas que se foi tornando minoritária, escassa. Notamos nela um discurso mais fluído, geralmente mais harmonioso também, mais sensível e muito atento ao íntimo, melhor, ao que se sente por si próprio, pela experiência pessoal.  A fúria esquematizante do estruturalismo de voga dos anos 60-70, pelo cont...

Borges e o declínio do romance

Num livro que reúne uma série de conferências (v. referência mais em baixo), Jorge Luís Borges, na 3.ª dessas conferências, mesmo no final, faz uma série de pequenas confissões muito sugestivas para compreendermos a sua obra. Numa delas diz, nomeadamente: "sabemos mais sobre as personagens de Dante ou de Shakespeare, que nos vêm - que vivem e morrem - em umas poucas fases" do que nas do Ulisses de Joyce. Conhecemos "mil coisas" sobre "os dois personagens [de Joyce], porém não os conhecemos" . Ao passo que os de Dante e Shakespeare, "desconhecemos mil circunstâncias sobre eles, mas os conhecemos intimamente. Isso, claro, é muito mais importante".  A comparação ilustra a sua tese de que "o romance está de um modo ou de outro em declínio". Mas explica também o próprio trabalho literário de Borges como aquilo que se podia fazer - ou devia - enquanto os "mais jovens" não regressassem à épica.  Outro sinal, para ele, do...

Gustavo Guerrero - teorías de la lírica

Um livro minucioso, indispensável para todos os interessados na teoria dos géneros e, particularmente, na do género lírico.  Gerard Genette, numa obra também incontornável ( Introduction à l'architexte , de 1979), veio dessacralizar a visão triádica dos géneros. Fê-lo explorando uma hipótese que, na altura, caiu como uma bomba no meio académico: a visão triádica (drama, epopeia, lírica) era meramente produto romântico e resultava natural, verdadeira ou canónica pela confusão entre as noções de género e de modo da enunciação. O romantismo promoveu essa confusão, mais claramente associando a primeira pessoa à lírica e, de forma geral, a terceira à epopeia e o jogo eu-tu ao drama. A história da teoria dos géneros literários para cá é razoavelmente conhecida (embora haja zonas obscuras, autores e livros que deviam ser melhor estudados e caíram no esquecimento). Mas, para trás, nada foi tão sistematicamente estudado como o fez Gustavo Guerrero em Teorías de la lírica . A sua obra n...

Édouard Glissant

Morreu. É natural. A 3 de Fevereiro do corrente mês em Paris. Aprendi muito com ele. Sobretudo as noções principais da sua obra: crioulização (o processo, mais que o resultado, sempre provisório), poética da relação, o jogo fundamental entre identidade e relação, o 'caos-mundo' e o 'todo-mundo', sobretudo a liberdade e a lucidez em todas as atividades criativas. Nascido três anos depois de Franz Fanon (de quem foi amigo), seis meses depois de Viriato da Cruz e exatamente um mês depois de Mário Pinto de Andrade, foi um destacado militante anticolonialista (cofundou, com Paul Niger, o  Front Antillo Guyanais, que lutava pela independência das Antilhas – movimento dissolvido por De Gaulle em 1961) e feroz opositor à guerra da França na Argélia. As suas posições levaram à expulsão da Martinica natal (nasceu em Sainte-Marie) e das Antilhas francesas, ficando de residência vigiada na 'metrópole' – palavra que ele mostrou não mais fazer sentido. A sua militânc...

Ingerência nos assuntos internos

O conceito de ingerência estrangeira e o valor da não-ingerência nos assuntos internos de outro país foram-se desenvolvendo, desde a sua criação, numa ambiguidade que os aniquila ou, pelo menos, os transforma em meros joguetes a esgrimir em função de interesses políticos imediatos. Infelizmente, a literatura teve nesse processo um papel meramente passivo, o de representar os interesses do momento e, portanto, o de confirmar a subjugação do conceito e do valor a tais interesses. Caminhada política Quando a ideologia marxista realizava a sua caminhada ascendente a nível mundial, usava-se geralmente o conceito de ingerência estrangeira para denunciar o 'imperialismo' e o 'capitalismo' dos EUA. O valor era, porém, invertido e o conceito neutralizado por uma estratégia retórica simples mas eficaz, que nos ensinava as exceções, os casos em que não se tratava propriamente de ingerência ou, conforme os contextos, os casos em que tínhamos a obrigação de realizar essa inger...

Naguib Mahfouz sobre Mubarak 1992

"Hosni Mubarak? His constitution is not democratic, but  he  is democratic. We can voice our opinions now. The press is free. We can sit in our homes and speak loudly as though we were in England. But the constitution does need revising." ( The Paris review . Verão 1992. – Em rede: http://www.theparisreview.org/interviews/2062/the-art-of-fiction-no-129-naguib-mahfouz )