O conceito de ingerência estrangeira e o valor da não-ingerência nos assuntos internos de outro país foram-se desenvolvendo, desde a sua criação, numa ambiguidade que os aniquila ou, pelo menos, os transforma em meros joguetes a esgrimir em função de interesses políticos imediatos. Infelizmente, a literatura teve nesse processo um papel meramente passivo, o de representar os interesses do momento e, portanto, o de confirmar a subjugação do conceito e do valor a tais interesses.
Caminhada política
Quando a ideologia marxista realizava a sua caminhada ascendente a nível mundial, usava-se geralmente o conceito de ingerência estrangeira para denunciar o 'imperialismo' e o 'capitalismo' dos EUA. O valor era, porém, invertido e o conceito neutralizado por uma estratégia retórica simples mas eficaz, que nos ensinava as exceções, os casos em que não se tratava propriamente de ingerência ou, conforme os contextos, os casos em que tínhamos a obrigação de realizar essa ingerência.
Com o tempo as democracias partidárias, liberais ou socializantes, mais ou menos musculadas, adotaram uma retórica semelhante para defender o seu direito de apoio a movimentos democráticos no mundo inteiro.
Conforme se foi desenvolvendo e popularizando o islamismo radical, ao mesmo tempo em que a ideologia marxista declinava, o discurso político islamista apropriou-se dos mesmos mecanismos retóricos e com a mesma incoerência.
A incoerência de raiz, útil para cobrir contradições instiladas por interesses económicos momentâneos, só podia resultar em incoerência política. Não precisamos falar de regimes marxistas, cujas incoerências são bem conhecidas e se repetem hoje, por exemplo, na Venezuela. O líder Venezuelano denuncia constantemente ingerências imaginárias no seu país e mete-se constantemente na política das Honduras, da Colômbia e de outros países contrários ao socialismo bolivariano. Mas trata-se do mesmo traço retórico e, por isso, vamos encontrar incoerências idênticas na França – para dar apenas um outro exemplo. A mesma França que é acusada de laxismo (no contexto isso significa ser acusada de não-interferência) relativamente à Tunísia de Ben Ali, a mesma França é acusada de querer interferir na Costa do Marfim quando defende o candidato eleito democraticamente. A acusação faz sentido nos dois casos: a França devia ter pressionado (no mínimo pressionado) Ben Ali e está realmente a ingerir-se (mais uma vez) na Costa do Marfim. Porém, tal acusação denuncia o prolongamento da incoerência entre os críticos da França: porque razão devia meter-se na política tunisina e não devia meter-se na política marfinense?
Para dar um terceiro exemplo, o Irão protestou veementemente contra a ingerência de outros países quando se viu a braços com as gigantescas manifestações contra a fraude eleitoral mais recente da sua história. O mesmo Irão interfere agora explicitamente e sem qualquer pudor na política egípcia, pressionando para que as manifestações tenham um cariz religioso obrigatório e vinculativo.
O problema é que o conceito de ingerência nos assuntos internos de outros países e a valorização da não-ingerência desenvolveram-se a par de um processo de globalização cada vez mais intenso e abrangente. Como tal foram sendo usados, ao sabor das ocasiões, quando a algum regime convinha travar a influência externa. O processo de globalização, porém, avançou cada vez mais (e continuará). Avançou até ao ponto em que estamos, um ponto de não-retorno, porque dependemos cada vez mais uns dos outros. E é este contexto que nos deveria levar ao questionamento definitivo do valor da não-ingerência e à transformação do conceito de ingerência nos assuntos internos de outro país. Até que ponto nós, os que seremos afetados pela revolução no Egito (o atentado contra o gaseoduto, hoje, deu-nos uma ilustração exemplar), podemos ou devemos ficar indiferentes ao que se passa lá?
Cada vez mais os entendimentos internos passam pelos entendimentos entre nações. Essa é a realidade. Portanto, cada vez mais o conceito de ingerência externa deve ser substituído pelo da consensualização internacional. A relação entre os equilíbrios (ou desequilíbrios) de forças locais e entre nações é que regula a evolução das políticas internas. Por vezes uma elite consegue manter o poder graças ao apoio externo e, por isso, aposta nele; outras vezes consegue manter-se porque silencia completamente as oposições internas (como acontece na maioria dos países islâmicos menos democráticos – a Líbia, a Síria, atualmente o Irão, vários outros). Aí, o ditador dominante obriga as potências externas a aceitá-lo a troco de vantagens que cede e, portanto, em última análise, empenha cada vez mais o futuro do seu país – tanto quanto o que tem de pagar, ao estrangeiro, a dívida da sua manutenção no poder. Assim que um dos equilíbrios se rompe surgem situações caóticas que, geralmente, só um poder forte e fortemente articulado com potências externas pode superar.
Face a tais condicionalismos, é preferível que a retórica política assuma, de uma vez por todas, um ponto de partida real: a necessidade de consensos ao mesmo tempo internos e externos para a consecução de poderes estáveis.
Encruzilhada literária
A literatura pode, se os autores forem conceptualmente criativos e não apenas formalmente criativos, a literatura pode contribuir para a consolidação, mesmo o estabelecimento desta nova atitude. Porque a criação de situações hipotéticas que ela realiza, ou que sugere, permite experimentar possibilidades novas com a vantagem de uma manipulação praticamente científica das variáveis em jogo.
Infelizmente, isso não se tem verificado. Ao invés de explorar as contradições em torno das ingerências e de mostrar a complexidade e ambiguidade na qual o conceito e o valor surgem, a literatura mostrou bem mais ser um soldado fiel, um manifestante exemplar. Ou seja: limitou-se a ilustrar a ideologia e a retórica do partido a que o escritor estivesse ligado.
Podemos notar a mesma contradição da retórica política no tratamento dado, por exemplo, pela literatura angolana aos 'carcamanos' e aos cubanos. Nesse aspeto, Savimbi e a propaganda oficial da UNITA eram mais coerentes: silenciavam a presença sul-africana (porque não lhes podiam chamar amigos) e falavam só na cubana. O que não constituiu nem solução nem originalidade, como sabemos.
Ainda hoje, a maioria dos autores que se debruçam sobre esse período da história angolana, mesmo sobre o mais recente, continuam somente a ilustrar a dicotomia bons-maus, acarretando para o lado dos 'maus' a conotação de ingerência, ou de invasão, ou de estranheza.
A maioria da recente literatura egípcia tem seguido o mesmo percurso. Talvez por estar acalorada com o fragor das manifestações e pela saturação do regime de Mubarak (nem por sombras o mais odioso ou ditatorial dos seus congéneres, mas de qualquer modo mafioso e constitucionalmente antidemocrático). Regime que, aliás, deriva do carismático Sadat, sendo que Sadat, por sua vez, sucede a Nasser – um ditador socializante, nacionalista e com seus laivos de fundamentalismo, que era dos mais acerbos críticos do 'imperialismo' e da 'ingerência' dos países 'estrangeiros' no mundo árabe e no Egito em particular. Nasser foi, ao mesmo tempo, o instaurador da censura (que Mubarak aliviou fortemente, pois a imprensa egípcia era livre nos últimos anos), da ditadura, dos serviços secretos e de todo o esquema de segurança e de limitação de liberdades fundamentais.
A produção literária que se pode repescar em rede, neste momento, remete para o panfletarismo, o discurso imediatista de insulto ao ditador, exaltação do herói contestatário e crítica ao famoso 'imperialismo'. Não aprofundando as raízes da situação não se evocam as complexas relações entre Nasser e radicais islâmicos (da Irmandade Muçulmana, esses mesmos que hoje dizem querer a democracia nas ruas do Cairo, confundindo-se com manifestações espontâneas surgidas fora do seu controlo e que não querem ser controladas). Não assumem o caráter libertário e genuíno do protesto, não o ligando à mais profunda ânsia de liberdade e realização que une os homens em protesto contra os sistemas políticos institucionalizados e legitima interferências ou apoios aos manifestantes.
A literatura ainda não construiu, para estas nem para outras manifestações, a claridade ambígua e a diversificação inevitável dos processos espontâneos de massas, em fúria contra a sua própria infelicidade mas sem qualquer horizonte pacificador ou libertador. Essa mesma complexidade que nos cria simpatias pela capacidade inovadora e transgressora das hiaces (que no Egito só circulam de porta aberta), as mesmas que nos atropelam nas ruas e fogem do controlo policial, mas que driblam constantemente o que as instituições possam representar de opressor, limitador, cerceador.
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