No auge da paixão revolucionária, a UEA (geralmente avessa a publicar literatura estrangeira) fez sair em Luanda (com dedicatória a Agostinho Neto) um instrutivo livrinho de versos intitulado Poesia uruguaia de combate. O primeiro poema era uma "Saudação e mensagem para 1979 // Poema circulante em Montevideo durante os meses de Dezembro de 1978 e Janeiro de 1979, editado pelo Jornal clandestino da União das Juventudes Comunistas do Uruguai como saudação e mensagem popular de fim de ano." Juntava assim um recurso (e um título) típicos do ultrarromantismo (saudações de fim de ano, apontamento das circunstâncias que deram inspiração ao poeta, etc) e um título e circunstância tipicamente políticos. A mistura era normal na revolucionarite da época. O começo do poema também nos mostra como já nessa altura a poesia revolucionária era epigonal:
Ninguém tem mais direito que nós
A levantar o copo.
Quem mais que nós pode brindar
Por cinco anos e meio de combate?ou sessenta e seis meses de combate?
Ou se quiseres dois mil e sete dias
e doze horas de combate?"
Depois de tudo bem contadinho em meses, dias e horas, salta-se um bocado que não há paciência e, lá pelo meio, para variar, falava-se num poeta vítima da repressão, fascista claro, um herói dos versos e da política. Chamava-se ele Ibero Gutiérrez. O mesmo que vem a aparecer num poema de João Melo, inserido no livro Definição, nesta passagem:
no Uruguai o jovem poeta
Ibero Gutiérrez
apareceu morto
numa rua sombria
com treze balas no corpo
A passagem, contraposta à qualidade e gosto de outros poemas (v. http://oalemhomem.blogspot.com/2011/02/joao-melo-na-casa-de-vidro.html), igualmente empenhados, demonstra pela intertextualização e em si própria, o caráter intermédio da lírica de João Melo, entre a poesia panfletária e o que depois veio a caracterizar a lírica dos anos 80, com traços que na sua obra se consubstanciam sobretudo (com felicidade) em Tanto amor.
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