Foi um traço marcante, nas culturas francófonas, o trazido pelos sufixos identitários. Por influência francesa, ou francófona, as culturas lusófonas sofreram também dessa espécie de doença cultural, que fechava tudo em identidades muito definidas, aliás pretensamente definidas: angolanidade, brasilidade, portugalidade, etc. Há uma tendência esquematizante, muito recorrente na cultura francesa e sobretudo conforme ela foi estiolando. Essa tendência é que veio cristalizar as identidades em sufixos como '-tude', '-ité', etc..
Há outra corrente, na cultura francesa ou francófona europeia, que se pode notar em autores diferentes como Rousseau, Pascal, Chateaubriand, Bergson, mas que se foi tornando minoritária, escassa. Notamos nela um discurso mais fluído, geralmente mais harmonioso também, mais sensível e muito atento ao íntimo, melhor, ao que se sente por si próprio, pela experiência pessoal. A fúria esquematizante do estruturalismo de voga dos anos 60-70, pelo contrário, conduziu-nos a discursos em geral rígidos, desconfiados da experiência, tentando sempre enquadrá-la, reduzi-la, determiná-la, forçá-la a entrar nos 'eixos' e nos sufixos'. Esse estruturalismo é um dos movimentos mais característicos do traço maioritário da cultura francesa - pelo menos maioritário no século XX. E a asfixia da lírica francesa terá sido uma das consequências do excesso de esquematização, de racionalidade quando muito.
Jorge Luís Borges, que desde pequeno sofreu uma forte influência das culturas hispanófonas e anglófonas, reagiu consequentemente a tal traço. Nas conferências de Harvard (v. a referência no texto anterior), a pp. 117, ele afirma: "porque nós somos modernos, não precisamos lutar para ser modernos. Não é uma questão de tema nem de estilo". Ao falar assim, Borges tocou num ponto crucial da evolução das culturas na segunda metade do século XX.
Trata-se de um tópico importante para os estudiosos das literaturas africanas também. Quando os '-tude' e as '-ité' francófonos avassalavam a África recém-independente, encharcando-a com 'negritude', 'africanidade', no nosso caso 'angolanidade', etc., ficou famosa aquela frase de Soyinka segundo a qual um tigre precisa de agir e não de mostrar a sua tigritude.
Não por acaso, Akinwande Oluwole Soyinka, prémio nobel da literatura em 1986, tinha por pai o diretor da St. Peter's Primary School, por mãe uma comerciante e política de confissão cristã e veio a estudar na Universidade de Leeds. Apanhou por aí, não sei se coincidindo com a cultura yoruba ou o sincretismo religioso de que disfrutava em casa, mas apanhou por aí um traço recorrente das culturas anglófonas, oposto ao de que falei até aqui. Elas estão, geralmente, pouco preocupadas com a identidade definida à maneira francófona - dentro dos limites de sufixos identitários, com regras, estereótipos, grelhas, grades.
Sem dúvida, isso não foi o melhor que nos trouxe a cultura francesa. É sintoma de uma doença que Jorge Luís Borges apresentou muito bem: "acho que um dos pecados da literatura moderna é ser muito autoconsciente. Por exemplo, tomo a literatura francesa como uma das grandes literaturas mundiais (não suponho que alguém ponha isso em dúvida). Porém acabei sentindo que os autores franceses são muito autoconscientes. Um escritor francês começa definindo a si mesmo antes de saber direito o que irá escrever. Diz ele: o que (por exemplo) um católico nascido em tal e tal província, e sendo um bocadinho socialista, escreveria? Ou: como devemos escrever depois da Segunda Guerra Mundial? Suponho que haja muitas pessoas pelo mundo afora que labutam nos mesmos problemas ilusórios. // Quando escrevo [...] tento esquecer minhas circunstâncias pessoais. Não tento [...] ser um 'escritor sul-americano'" (p. 123). Esta última frase resume a questão tal como se nos colocava há poucas décadas.
Para quem, em Angola, ainda se revolve nas tormentas da angolanidade (eu colocaria essa palavra no plural, ao menos isso), querendo forçar uma angolanidade prévia, laboratorial e isolada das interações e dinâmicas do homem angolano de hoje, eu aconselharia a ler um pouco mais em inglês do que em francês. Não porque eu seja anglófilo, mas porque as literaturas e culturas anglófonas podem servir para nos libertarmos desses traços redutores, asfixiantes, que a francofilia de alguns dos nossos intelectuais imprimiu à nossa semiosfera urbana. Vai sendo mais do que tempo de substituir o substantivo abstrato angolanidade (quase um adjetivo) pelo substantivo concreto, plural, angolanos. Do que formos sendo, vivendo uma liberdade verdadeira, pessoal e intransmissível, é que sairá, por abstração, uma ideação qualquer que tentará definir o que fomos entretanto.
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