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Mensagens

A mostrar mensagens de novembro, 2010

frente e costas, de bicicleta

Veio a público, a partir da Mandrágora  portuguesa, pedalando numa bicicleta que descende por via uterina do próprio Marcel Duchamps, a primeira ação do projeto editorial frente & costas . Como entre pessoas íntegras frente e costas não se desmentem, ambas as metades dessa assimetria são assinadas por M. Almeida e Sousa, performer, ator, poeta português desde cedo envolvido nas vanguardas artísticas ibéricas. Como em todas as peças assim concebidas, o final das duas partes fica, paradoxalmente, no meio da brochura. Mas o que mesmo interessa está lá dentro, de qualquer maneira. Na frente um teatro absurdo, com uma linguagem completamente nova e intraduzível - embora de sonoridade agradável. As indicações cénicas são dadas em português e culminam com a última, onde uma linguagem profundamente lírica, surreal e paradoxal fecha a peça com chave (portuguesa) de ouro.  Na segunda metade, a presença da linguagem se junta à sua indiferenciação, por ilegibilidade ou por i...

II trienal de Luanda

A II trienal de Luanda continua a cumprir uma função estruturante no meio artístico luandense: a de atualizar as culturas artísticas locais pelo emparceiramento com criadores de outros países e de qualidade evidente.  Este ano a fotografia ganhou relevo e mostrou o que já se vinha observando a pouco e pouco, mitigadamente: que a fotografia artística angolana pode apresentar-se, de igual para igual, em qualquer parte do mundo. Esta trienal torna-se, por consequência, um marco na história da fotografia angolana – ainda que, felizmente, não se reduza a isso. Outra escolha da trienal que me parece de realçar é a inclusão de espetáculos de leitura de poesia, articulada ou não com música, design, fotografia, projeções. Há sem dúvida mais trabalho a desenvolver, porque a apresentação de poesia é – também ela – um espetáculo total, incluindo performance , representação, mímica, projeção de imagens e de sons, dança. O poema chama por tudo isso para se transmitir. Por sua vez, nem todos...

Sugestões de leitura

1. Morreu uma figura emblemática de Luanda, Gabriel dos Santos Baguet, pai do nosso amigo Gabriel Baguet Jr. Jerónimo Belo publicou, no Jornal de Angola de Domingo (21-11-2010, p. 7) uma sentida crónica. Desta vez não é o aspeto estético (está muito bem escrita) que me interessa mais – apesar de tudo. O mais retenho são informações bibliográficas que, para além do momento sentido, fortemente emotivo, são fundamentais para quem tiver a pretensão de fazer História da Literatura. O retrato psicológico de Gabriel dos Santos Baguet, feito por Jerónimo Belo (“um dos rapazes de então a quem o meu querido primo Baguet influenciou”), retrata-o “em primeiro lugar” enquanto “Mestre e amigo”: “foi toda a vida um homem de tertúlias, um nacionalista convicto, um perguntador constante mas sempre muito disponível para ouvir os outros e um cantor da Mulher”. O que fazia com os amigos em tertúlia é o que mais me interessa agora: “contava desafios de memória, muitos d...

contraste sem confronto

Título do Novo jornal (19-11-2010, p. 19): «Angola com dificuldades em travar proliferação da pólio» Subtítulo: “Ministro da Saúde admite ‘responsabilidade moral’”. Sem dúvida um exemplo – e vindo de quem se tem empenhado na luta contra a poliomielite. Realmente, a democracia e a ditadura estão, antes de tudo, na cabeça de cada um de nós.

contrastes e confrontos 2

Jornal de Angola , 5.ª F.ª, 18-11-2010. Chamada à capa: “Mais energia para Luanda/Entrevista”. Entrevista (p. 5), título: «João Borges garante mais energia para Luanda». Aviso, na última página – título: «Redução de energia à cidade de Luanda».

contrastes e confrontos 1

“É urgente criar uma mentalidade de rigor e profissionalismo na gestão das empresas públicas. Tem que haver uma boa gestão, fazer prevalecer o princípio da transparência e da prestação de contas” – afirmação, pertinente e notável, da Ministra da Comunicação Social em entrevista ao Novo jornal (19-11-2010, p. 13). E muito mais em se tratando de empresas de comunicação social, em que o rigor e o profissionalismo se estendem à exatidão, isenção e sentido de oportunidade da notícia, à necessária existência de contraditório, ao rigor usado na linguagem e no raciocínio, à acuidade das perguntas em entrevistas, etc. Da mesma entrevista (mesma página): “infelizmente, [d]os pedidos que estão aqui no Ministério [para abertura de televisões privadas…] o tipo de nome que é dado à televisão, os planos editoriais que nos apresentam, que não são aliciantes nem abrangentes, [bem como] pela falta de capacidade financeira” não podem ser aprovados. A TV Zimbo, por reunir todas ess...

Necessidade de expressão

"Necessidade de expressão" - sempre ouvi esta expressão com um sentimento de vazio. O próprio facto de estar a escrever sobre isso levou anos a acontecer, porque sempre me parece pretensioso (o pretensioso pretende afirmar(-se) algo que, se fosse, dispensava afirmações). Portanto calo-me. Se escrever, terei de lutar pela expressão, mas escrever pela pretensão de me exprimir é caricato. Andar com sapatos de sola rota.

Dizer ao contrário

Notícia do portal Angonotícias , datada de 10 de Novembro e transcrita do Jornal de Angola : Título:  Imprensa em Angola é imparcial Primeiro parágrafo: " A secretária-geral do Sindicato dos Jornalistas Angolanos, Luísa Rogério (na foto), reconheceu, na segunda-feira, em Luanda, que os níveis de observância dos princípios de imparcialidade na abordagem de matérias jornalísticas em Angola têm estado a melhorar, apesar de reconhecer que falta ainda muito trabalho pela frente."  Terceiro parágrafo:  “A questão da imparcialidade em Angola está na ordem do dia. Tem vindo a ser discutida a vários níveis. Pensamos que existem algumas melhorias. Contudo, será melhorada com a aprovação de certos diplomas legais, como, por exemplo, o referente à carteira profissional”, disse a secretária-geral. A sindicalista referiu, igualmente, que a observância da imparcialidade vai ser ainda melhor avaliada no contexto angolano, quando for aprovado o novo estatuto do jornal...

Cultura - notas positivas

Duas notas positivas no campo cultural: a atribuição de prémios no âmbito do Prémio Nacional de Cultura e Artes foi, desta vez, bastante mais consensual, corrigindo injustiças antigas, esquecimentos inexplicáveis.  Segunda: não se realizou (pelo menos ainda) o encontro para a construção de uma história oficial da literatura angolana. Que não faz nenhum sentido. Os historiadores da literatura, particularmente no âmbito das universidades, se cumprirem o seu papel tornam desnecssária uma iniciativa inusitada, dispendiosa e inconsequente. 

Violeta, Cândido Furtado e Casimiro de Abreu, com Cruz e Sousa de passagem

Na p. 116 do Almanach de lembranças para 1864, o poeta português J. Cândido Furtado, então residente em Angola onde foi Juiz, escrevia um poema que marcou época «No álbum de uma africana». Cerca de um século depois, o poema foi alvo de polémicas e incompreensões resultantes de leituras anacrónicas. Ali se elogia, na verdade, a mulher africana a partir de um verso de Virgílio (Égloga II, v. 18): as brancas alfenas caem, colhem-se as negras bagas . Num dos seis quartetos aparecem estes dois versos:   É menos bella, acaso, a violeta porque o céu lhe não deu nevada côr?   A passagem conota, portanto, metaforicamente, a violeta com a mulher negra. A conotação da violeta com a cor negra deve ter sido um cronótopo mesmo depois do romantismo lusófono. Cruz e Sousa, no Brasil, escreveu muitos anos depois uma série de poemas intitulada «Campesinas e outros versos»; no segundo desses poemas, ao glosar uns olhos negros, ele escreve:   Teus olhos, flor das violetas, Lembram certas uvas pretas...