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Mensagens

A mostrar mensagens de fevereiro, 2010

José Manuel Capelo

Ontem à noite a notícia: morreu subitamente o José Manuel Capelo. Esta manhã foi cremado.  José Manuel Gomes Gonçalves Capelo nasceu a 29 de Janeiro de 1946 em Castelo Branco. O pai, médico, faleceu novo em Angola, onde se encontrava com a família. Daí veio o poeta, com três ou quatro anos. Esta morte marcou-o para a vida tanto quanto na poesia.  Foi poeta e editor, principalmente. Mas também investigador (investiu muito, nos últimos anos, pesquisando os Templários e, particularmente, os Templários em Portugal). Foi também ficcionista, produtor cultural, declamador (com uma excelente voz), jornalista cultural (assinando recensões críticas). Poemas seus estão traduzidos e/ou publicados em várias línguas e vários países.  Homem com forte ligação à terra portuguesa, foi no entanto um viajante e um cidadão do mundo. A profissão que teve durante anos (assistente ou comissário de bordo, na TAP) permitiu-lhe conhecer países tão diferentes quanto a África d...

António de Névada

Não desmerecendo o seu melhor passado e recuperando pela única via poética possível – a da criatividade – a poesia caboverdiana continua a evoluir no sentido do seu aperfeiçoamente estético e espiritual, atualizando-se a partir de energias que emergem também das suas mais fundas e poéticas raízes. António de Névada é um bom exemplo disso, a julgarmos por Esteira cheia ou o abismo das coisas , uma obra já com 11 anos de idade mas que permanece de uma serena atualidade. As epígrafes e outras referências explícitas apontam um leque sintomático: cultura popular caboverdiana e africana (com uma passagem pela Grécia a propósito da filha do etíope Perseu), John Coltrane, Dante Alighieri, T. S. Eliot ( The waste land ), Nuno Júdice. Da literatura esrita caboverdiana duas nomeações: João Vário e Corsino Fortes. João Vário foi um dos casos extraordinários da poesia caboverdiana. A profundidade filosófica, o rigor estético e o poder criativo das suas metáforas trouxeram-nos uma poesia que s...

Alphonse de Lamartine

"O egoísmo e o ódio têm uma só pátria. A fraternidade não". Com esta frase o poeta e político francês resumiu o grande defeito, a grande falha moral dos nacionalismos.Mas não só. Também a completou com esta, bem mais dramática: "é a cinza dos mortos que cria a pátria" - com o que não quis dizer que as pátrias não se criem.

Autor coletivo – três tipos

Experiências de escolas de vanguarda no século XX, com particular realce para o surrealismo e o concretismo, tinham-nos levado já às realizações estéticas de autores coletivos. Também, claro, experiências 'clássicas', de livros escritos a 'quatro mãos' (às vezes figurados num poetónimo, como Fradique Mendes), mas aí havia uma programação da obra, da participação de cada um, do próprio discurso, que desapareceu. Na verdade, as vanguardas do século XX trouxeram-nos um valioso contributo ao assumirem o aleatório e, nesse aleatório, o cruzamento ou colagem de vários discursos sem travões, embraiagens, dispositivos retóricos que permitissem dar a ideia de um mundo organizado à partida, de um mundo de cuja ordem nos aproximamos escrevendo uma obra. A noção de autor coletivo beneficiou de uma transformação radical com a relação mais intensa entre novas tecnologias e produção poética. Daí que hoje seja necessário distinguirmos vários tipos de autor coletivo O 'clássico...

Estruturalismo e fecho

Os estruturalistas de Praga diziam que a literatura se relaciona com o real na medida em que suscita no leitor a memória das suas experiências, em parte comuns às do autor. Este suscitar constituiria a base da comunicação artística.Ora a memória é o registo (dinâmico, sublinhe-se) das nossas percepções, logo, da nossa relação com o mundo. A visão dos primeiros estruturalistas foi largamente explorada por Ingarden, por Iser, por Jauss e mesmo por Umberto Eco. Ela nos mostra que o estruturalismo não fecha a linguagem num círculo vicioso, nem a obra. Que o fechamento estrutural do texto não corresponde à autonomia absoluta de um discurso fechado sobre si próprio e que apenas pode reproduzir-se indefinidamente noutros discursos – como defenderam alguns estruturalistas e sobretudo pós-estruturalistas franceses. Um dos erros grosseiros dos pós-estruturalistas foi precisamente o de não perceberem, como os de Praga perceberam, que "o arbitrário do signo não implica a não-referencialida...

José Marinho

Deve-se considerar "a claridade não na palavra , mas no pensamento em que a palavra se origina". Um pensamento íntimo, ou melhor, para a interioridade do qual se reflui a partir da palavra. É das mais fundas e belas justificações de leitura interpretativa, hermenêutica. Para ele os livros dão "sinais de um pensamento", não nos dão "um pensamento mesmo". Por tal motivo é preciso buscar atrás do textos, ou tentar acompanhar com o texto, esse pensamento. Esta orientação de leitura parece-me caraterizar os melhores críticos da Filosofia Portuguesa, com António Quadros à cabeça.

Fotografia em Benguela

No último quartel do século XIX tornam-se comuns para o investigador as notícias sobre fotografia na província e na cidade de Benguela. Um dos principais impulsionadores da fotografia na província foi o naturalista português (acredito que plenamente angolanizado) José de Anchieta, que viveu os seus últimos anos em Caconda, onde morreu no ano de 1897. Mas o interesse era geral. Há menção a fotografias e material para fotografias no periódico A semana , dirigido pelo escritor e causídico Pedro Félix Machado e creio que o primeiro periódico benguelense (1892-1893). Muitos inventários de órfãos dão conta, não só de material para tirar e imprimir fotos, mas também de livros sobre e de fotografias. Por exemplo o de Pedro Martins de Paiva (feito em 1873), capitão de porto, natural de Benguela, que possuía "uma máquina para tirar retratos", ou o de José Marques Ferreirinha (m. 1898), negociante solteiro que possuía oleografias (estava-se no auge da moda das oleografias), alguns l...

José Marinho

"Falamos antes de pensarmos, e isso tem consequências extraordinárias. Pois isso indica que há uma visão das coisas em nós, visão expressa numa imagética, anterior a todo o raciocínio. Interessa-me cada vez mais esta sabedoria inocente que está, como pressuposto de todo o saber, no fundo do que nos é dado formular" (numa carta ao genro, Alberto Ferreira, estando ele na cadeia do Aljube e Marinho em Lisboa).