Experiências de escolas de vanguarda no século XX, com particular realce para o surrealismo e o concretismo, tinham-nos levado já às realizações estéticas de autores coletivos. Também, claro, experiências 'clássicas', de livros escritos a 'quatro mãos' (às vezes figurados num poetónimo, como Fradique Mendes), mas aí havia uma programação da obra, da participação de cada um, do próprio discurso, que desapareceu. Na verdade, as vanguardas do século XX trouxeram-nos um valioso contributo ao assumirem o aleatório e, nesse aleatório, o cruzamento ou colagem de vários discursos sem travões, embraiagens, dispositivos retóricos que permitissem dar a ideia de um mundo organizado à partida, de um mundo de cuja ordem nos aproximamos escrevendo uma obra.
A noção de autor coletivo beneficiou de uma transformação radical com a relação mais intensa entre novas tecnologias e produção poética. Daí que hoje seja necessário distinguirmos vários tipos de autor coletivo
- O 'clássico', no qual se dá uma premeditada colaboração na perspetiva de uma obra e de técnicas de composição organizadas, racionais, não-aleatórias.
- O 'disciplinar', em que a obra resulta da interação de várias disciplinas. O exemplo melhor continua a ser o da ciberliteratura, que supõe colaboração de programador informático, desenhador gráfico, eventualmente músico e artista plástico, para além do próprio artista verbal ou do verbo.
- O 'ergódico', em que a peça final resultará da interação da programação (de um motor textual, por exemplo) com a manipulação dos comandos pelo leitor e mesmo as informações introduzidas pelo recetor.
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