Herói de muitas cores, Malangatana Valente morreu. Ficou-me na memória um curto apontamento. Numas lusografias eborenses, com ajuda de vários ciganos e judeus (e quem éramos nós?), levámo-lo também. Ao jantar, numa tasca, no Verão do princípio de Julho, ouviu pacientemente muitas pessoas falarem. Falavam alto, falavam muito, não diziam nada. Era a química excessiva do dia a sair rapidamente empurrada pelo encorpado vinho alentejano e pelos petiscos que o distraem. Só ele estava calado. Perguntaram-lhe porque não dizia nada, instando para que falasse. O interpelado ficou em silêncio. A pouco e pouco, a longa mesa foi silenciando com ele. Só depois começou a murmurar, muito baixinho. Um bocado mais à frente descobrimos que o murmúrio era um canto que ia crescendo imparável de dentro e do fundo daquele peito largo de cabeça de tambor. Foi-se levantando o canto, crescendo, abraçando-nos e acabámos em uníssono, em voz alta mas medida, prestando a melhor homenagem que podíamos ao Alen...