"formaste Hapi, (o Nilo), criaste o grande mar e dás vida a quantos existem dentro dele"
(Papiro de Hunefer, 1370 AC)
Desde a sua formação que o Egito e o Nilo se relacionam intensamente com regiões a Sul, por entrepostos e contactos diretos e indiretos, por várias vias (incluindo a marítima), até aos Grandes Lagos pelo menos.
Uma das origens mais consideradas dos povos que hoje habitam
maioriariamente Angola (umbundo, quimbundo, quicongo, lunda, quioco) é
precisamente nos Grandes Lagos, por migrações que viriam ao longo do rio
Zambeze (que também refluíram, em contracorrente, para o Grande Zimbabwe e
outras zonas orientais). As migrações terão seguindo ainda outros rios, principalmente
ao longo da atual RDC, mas o Zambeze parece ter sido a grande via. Não por
acaso encontramos no Centro e no Sul de Angola amuralhados em pedra, feitos em
montanhas, aparentados com os do Grande Zimbabwe que só tardiamente atingiram o
esplendor que os notabiliza. Encontramos também mitos idênticos ou
aproximáveis, palavras idênticas ou iguais (incluindo para designar os chefes –
mwene, wuene), conceitos e estruturas equivalentes de poder e estórias
aproximáveis de origem ou de formação política unindo povos ao longo do
Zambeze, de Moçambique, do Zimbabwe e de Angola.
É, portanto, possível que, desde o início destas migrações,
traços comuns abraçassem a futura civilização egípcia e a futura civilização
banto. As unidades culturais e políticas nodulares entre egípcios e bantos
oriundos dos Grandes Lagos seriam sem dúvida a núbia, kushita e, depois, a de
Axum. Bruce Williams afirma que a dinastia núbia deve ser a mais antiga da
história da humanidade. Segundo ele, “compreende-se melhor a essência
matriarcal da realeza egípcia e a importância do papel da rainha-mãe na Núbia,
no Egipto e no resto da África Negra” (Diop, 1981 p. 119) . Mas não só
funcionou como plataforma de intercâmbios pela antiguidade, a Núbia, ou pela
importância da ‘rainha-mãe’. O ouro núbio (ou que da Núbia seguia mais para
norte e oriente), que enriqueceu largamente o glorioso reinado de Tutmés III,
assegurava esse intercâmbio, a par de outras trocas comerciais, relações
políticas, interações culturais que a desenvolvida história do Antigo Egito
relata variamente.
Algumas palavras podem ser aproximadas, por seu lado, entre
Kush e as unidades político-culturais da Angola de hoje. Uma longa lista de
rainhas kushitas tem [mani] ou [amani] como
parte do seu nome, o que sugere que o radical funcionava como designativo real.
Dado que outros autores transcrevem [amani]
por [amon] (Sales, 1997) , podemos postular a
hipótese de Amani significar “de
Amon”, ou “consagrado por Amon”. Mas é uma hipótese apenas, porque os autores
podem fazê-lo já por sugestão e influência da cultura egípcia antiga.
O título [mani], quem o usa quando lá chegam os portugueses
são os congoleses, e mesmo antes da travessia do rio Zaire por Ntino ou
‘Motino’, o primeiro “rei do Congo” — daí o seu chefe supremo ser chamado [manicongo]. Algumas das rainhas
kushitas (p. ex. Amanishakhete e Amanirenas) passam a ter [amani] no princípio e não no fim
do nome, o que sucede no Congo, onde os senhores de Bata eram reconhecidos como
Encacande Amanicongo ([porta]voz do rei do Congo). Manis era também o nome de
um povo de arqueiros terríveis, animistas e polígamos, que invadiram a Serra
Leoa, acabando no entanto por se fundir “nos grupos sussus e outros” (J.
Ki-Zerbo, História da África Negra,
I, pp. 300-301). Simultaneamente, a criação das mais fortes unidades políticas
no território hoje angolano deve-se à transformação de ferreiros em reis e
sabemos como Napata, mais tarde Meroe, foram grandes centros de produção do
ferro, cujo segredo estava na dependência direta do poder real. Postula-se,
mesmo, que tenha surgido aí, pela primeira ou pela segunda vez, a fabricação de
instrumentos em ferro.
É claro que isto não são aproximações decisivas. Para mani vários linguistas propõem como
origem o termo mwene, também
conhecido nas unidades políticas umbundo e quimbundo, tanto quanto em
Moçambique ou no Grande Zimbabwe. Não encontrei, porém, uma justificação
baseada em processos recorrentes estudados pela linguística histórica banto.
Também para a ligação entre ferreiro e poder, bem conhecida
entre povos de língua quimbundo e kikongo mas parece que em outros ainda do
atual mapa angolano, pode-se argumentar que foi um fenómeno geral e terá
acompanhado uma das principais vagas das migrações e colonizações banto. Mas
não deixa de espicaçar a nossa curiosidade a coincidência da associação entre
ferreiro e rei (ou rainha) no Kongo, por exemplo, e em Napata ou Meroe.
A tradição escrita europeia relatou desde cedo factos
ouvidos no Egito e em Meroe que nos alertam para o funcionamento do reino
kushita como plataforma de comércio cultural, tecnológico e político entre
povos da África negra e povos do nordeste africano.
Heródoto refere a terra dos “Amach, assim chamados porque
ficavam à esquerda do rei. Eram egípcios que haviam desertado do exército do
faraó Psamético II no decorrer da sua campanha no Sudão em 591 AC” (Shinnie, 1974
pp. 13-15) .
Não se sabe até onde foram os Amach, mas há a hipótese de terem “penetrado
profundamente pelo Nilo Branco e se haverem estabelecido no Kordofan Meridional,
para os lados de Bahr-el-Ghazal” (Shinnie, 1974
p. 15) .
Bahr-el-Ghazal fica no sudoeste do Sudão atual, próximo e junto às fronteiras
com a República Centroafricana e a República Democrática do Congo (a zona dos
lagos de Bahr-el-Ghazal). É bastante provável que estes ‘dissidentes’ se
instalassem aí partindo de um conhecimento que tinham do terreno – fértil então
– e por aí poderem desenvolver atividades lucrativas, intercambiando produtos
entre a plataforma globalizante que era o Egito e o interior da África negra.
Mas interessa ainda focar as relações do Egipto romano e dos
gregos com os povos de pele negra. Cito R. e M. Cornevin: “Alexandria é também
o lugar da recolha dos produtos vindos da África profunda pela Núbia, que
permanece independente durante todo o período romano” e cuja fronteira com o “Egipto
estava então entre a primeira e a segunda catarata” (Cornevin, et al., [1974 – impr.]
p. 76) .
Na Geografia de Estrabão
deparamos com informações sobre Méroè. A sua viagem foi um pouco abaixo de
Assuão (Elefantina), até Filas, e feita na companhia de Élio Galo, governador
romano. Define Méroè como ilha. Diz que ali não chove. Afirma ainda que o povo
se alimentava de sorgo, do qual também se fabricava uma espécie de cerveja,
ainda hoje conhecida e que fez parte das ofertas, para Amon, do primeiro faraó
kushita após a invasão assíria. O relato é feito pelo investigador J. Candeias
Sales a partir de uma estela encontrada em Napata e chamada O sonho de Tanutamon. Diz a estela:
“realizou para ele [Amon] importantes oferendas: 39 bovinos, 40 cântaros de
cerveja, 100 vasos” (Sales, 1997
p. 176) [1].
A referência ao sorgo é, no nosso contexto, muito
significativa. O sorgo é típico de África e conhecido pelos povos banto desde a
mais remota antiguidade (Diniz, 1918
p. 497) .
É o alimento de referência ao se falar nas primeiras migrações banto para a
parte sul da costa oriental africana. As restantes plantas conhecidas pelos
povos banto de Angola são de origem asiática e terão sido esses povos a
espalhá-las por África, a partir da África Oriental (Diniz, 1918 p. 499) . Espalharam o sorgo
juntamente com o Songo, pano-moeda que concorria com o Zimbo quando a Angola
chegaram os portugueses, no final do século XIV. O fato é atestado por uma
manuscrita História do reino do Congo,
do princípio do século XVII. Ela fala-nos “em Ocanga onde trazem a vender huns
pannos chamados Songos, que por moeda correm em São Paulo de Luanda, [onde] nos
dizem tem communicação com humas gentes, que sa//bem [ou sobem] o [Mum], que he
o mar grande, os quays […]vir huns Songos, que são embarcações muito grandes,
para onde nasce o Sol, e tornarem para onde elle se poem, que [devem] ser sem
falta as nossas Náos da India” (Anónimo, sn -
séc. XVII pp. 1 r-v) . Pelo que sabemos, os congoleses
referiam-se aqui ao comércio que embarcava com os “guzerates”, de Quíloa,
Mombaça, Melinde, para Malaca, de lá trazendo produtos para troca, entre os
quais “panos já tingidos” e algodão para as manufaturas da costa oriental
africana. Essas manufaturas estabeleceram-se gradualmente nas duas margens do
rio Zambeze e tiveram, por vezes, consequências políticas decisivas nos reinos
que aí se formavam. Os congoleses conheciam, portanto, este comércio, que
atingia os extremos do seu reino e a origem mais remota dos Songos. Alguma
notícia lhes chegaria de outros povos envolvidos nessa crioulização oriental,
juntamente com os panos.
Séneca também fala numa expedição romana, dizendo ter ouvido
dois centuriões que nela participaram — e, como foi sob as ordens de Nero que
ela se realizou, julga-se que seja a mesma referida por Plínio. Mas alguns
dados diferentes nos relatos, citados por Hintze, apontam para duas expedições.
O objetivo da expedição era, segundo Séneca, descobrir as nascentes do Nilo.
Teriam penetrado no interior de África “com proteção e cartas credenciais do
rei meroeno” – o que atesta o domínio, pelo menos a influência que ele tinha
sobre os povos a sul. “Viram grandes pântanos e o rio [Nilo] tão
atravancado de vegetação que só era possível passar em barcos num único lugar.
Isto parece uma notícia em primeira mão do Sudd
do Sudão Meridional” (Shinnie, p. 21). Disseram os homens a Séneca terem visto,
na nascente do Nilo, duas rochas de onde jorrava água — mas nunca elas foram
identificadas (id.), tratando-se talvez da reabilitação de um mito referente a
Elefantina, segundo o qual Nun, o oceano primordial, residuado numa gruta, dera
origem, na primeira catarata (onde está Elefantina), ao Rio Nilo.
Nun dá, só
por si, mais um parágrafo (daria muito mais do que isso, caso houvesse tempo),
porque nos permite levantar uma hipótese que, sem dúvida, ficará sobre a mesa à
espera de consolidação, mas que nem por isso deixa de ser tentadora, porque nos
mostra que a notícia de toda esta mescla cultural e étnica chegou a Angola
antes das naus de Diogo Cão.
Khnum ou Nun era o Deus de Elefantina, assim
transcrito por J. Candeias Sales, muito apoiado na bibliografia da
especialidade. O Dicionário ilustrado das
mitologias, de M. Philibert, transcreve Khnoum
(Philibert,
1997 p. 166)
e Emanuel Araújo Chnum (Araújo, sd p. 385) . A grafia desta
autora (Philibert) deve ser especialmente levada em conta, pois nos garante que
“a ortografia dos nomes dos deuses se baseia sobre a fonética” e sabe que “ela
varia segundo os autores” (Philibert,
1997 p. 4) .
Mum é a transcrição feita pelo autor
da História do Reino do Congo, a que
acima fiz referência, do nome pelo qual os congoleses reproduziam, a partir do
que diziam os seus vizinhos, o “mar grande” de onde lhes vinham os panos
songos. Podendo haver erro na transcrição do anónimo autor da História do reino do Congo, e
tratando-se da referência a um povo longínquo no tempo e no espaço, trazida
muito provavelmente pelos comerciantes que atravessavam o Cazembe, tratar-se-á
de uma metamorfose de Khnoum? Realmente Nun, Khnoum, ou Khnum, “é o nome dado à
divindade cósmica que simbolizava o oceano primordial” (Sales, 1997 pp. 177, n.128; Traunecker, 1995) , o que se combina
com a ideia de “mar grande” transcrita pelo sacerdote europeu da História do reino do Congo – ideia de
resto expressa no nome habitualmente usado para designar o mar, que é ‘grande
verde’, naadj ur (Araújo, sd p. 89) . O “mar grande”,
o facto de ser adjetivado assim, encontra justificação na existência de “várias
teologias (ex.: Heliópolis, Mênfis e Hermopolis)” assegurarem que ele “recobria
o universo no seu estado incriado” (Araújo, sd p. 177) , razão pela qual
Claude Traunecher (ou Traunecker) lhe chama “a água da ante-criação” (Traunecker,
1995 p. 50) ;
mas Khnoum não é só isso, pois M.
Philibert nos assegura que as “suas atribuições são modelar as formas para
constituir o ser humano”, “moldando […] o nascituro e o seu ka”; complementarmente, reúne o
masculino ao feminino e amassa com as “duas mãos a argila para despertar, no
homem, os dons dos deuses” (Philibert,
1997 p. 166) .
A similaridade das suas funções com as do Deus do Génesis é flagrante, ainda mais quando o nome surge associado ao olfato
(e, portanto, ao sopro); mas também, vamos agora vê-lo, há cumplicidades com a conceção
do Deus primordial espalhada por várias zonas litorâneas do Centro e Sul de
Angola. Na verdade, aqui podíamos encontrar explicação para, entre certos povos
do litoral do centro-sul de Angola, Kalunga
significar ao mesmo tempo Deus (o Deus criador) e Mar, pois do Khnoum original emergiu, segundo as
mesmas teogonias, “por vontade própria, o Demiurgo (Atum-Ré, Ptah), sendo, por
isso, muitas vezes, chamado «pai dos deuses»” (Sales, 1997 pp. 177, n. 128) e, pelo que diz
Philibert, também dos homens. Khnoum
era, como Kalunga, o Deus criador do
universo, das pessoas e de todas as coisas, e designava ao mesmo tempo o mar
original, conhecido pelas mais diversas tradições do mundo inteiro.
Até hoje parecia-me estranha a associação entre Kalunga e o mar, visto ser o termo
usualmente relacionado com lunga e ilunga pelos tratadistas. Essas palavras
coligam-se à dignidade e à inteligência, à sabedoria, mas não designam mar. O
facto de uma mesma palavra designar ao mesmo tempo o mar e Deus, a origem
material e a origem transcendental de todas as coisas, encontra parentesco com
o mitografia de Khnoun, e por aí se
compreende melhor.
Já depois da queda final do reino kushita, os herdeiros
dinásticos saíram pelo interior de África vivendo de vender o segredo do ferro,
disseminando igualmente uma cultural mista mas muito própria, que se diluiu com
o tempo nos novos reinos banto. Os núbios cristãos e o reino de Axum, que
ocuparam o território kushita, mantinham entretanto contactos intensos, por
vezes violentos, com povos mais próximos das fontes do Nilo. Consequentemente,
instrumentos culturais, a par dos técnicos, haviam de intercambiar-se entre
tais povos. Axum, localizado no antigo país de Punt, havia de perdurar
longamente como reino cristão entre povos islamizados e desenvolveu profundas
relações com o interior da África negra.
Sabemos seguramente que, a partir do século X DC e até à
chegada dos portugueses à costa moçambicana, o comércio do ouro e do marfim
ganha um grande incremento, precisamente por contactos com negociantes
orientais, sobretudo árabes e por contactos mais antigos, mas mal conhecidos,
com a Núbia cristã. Esse é, precisamente, um período crucial para a formação de
algumas das grandes unidades políticas précoloniais e mesmo paracoloniais
angolanas, que estavam em contacto com os Grandes Lagos e o Grande Zimbabwe.
Pelo outro lado, o ocidental, mas agora no litoral norte de
África, as relações comerciais dos Ptolomeus com Cartago foram intensas e,
quanto a estes, os cartagineses espalhavam-se por Tartessos (Andaluzia) e para
o interior do continente africano, em busca de ouro, pedras preciosas, etc. É
de lembrar que se trata de produtos cujas rotas comerciais iam até à Guiné e ao
Monte Cameroun. Esse monte fica nos Camarões (república que faz fronteira com a
Centroafricana), no litoral, junto à fronteira com a Nigéria, sendo o ponto
mais alto da África Ocidental, com mais de 4000 metros de altitude e a apenas
cerca de 1250 kms, em linha reta, de Mbanza Congo-São Salvador (AAVV, 2010
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