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Mensagens

A mostrar mensagens de junho, 2014

Estro e inspiração

Muitas vezes lemos sobre o “estro” do poeta. Referimo-nos, com isso, à sua inspiração. Inspiração é uma palavra que se relaciona com ar, sopro, tendo a mesma origem que respirar, expirar, transpirar e … pira . Pira vem do gr. pirow, que significava “queimar”. Por isso o verbo se aplicava também quando se queimavam os defuntos na pira funerária. Talvez daí venha o sentido de “purificar pelo fogo”. A palavra «estro» vem do gr., por via latina. Originalmente indicava também um “moscardo”, cujo ferrão funcionava como aguilhão. Não sei se por isso, mas significou também a inspiração dos poetas. Não propriamente a inspiração mas o furor, a fúria poética. Esta associação do furor à inspiração, que nos recorda a palavra «estro», prende-se com a própria etimologia indo-europeia: «estro» vem de [eis-], raiz indo-europeia para “paixão”. De [eis-] veio a latina «ira», que podia ser a ira dos deuses. De modo que «estro» talvez não significasse inicialmente nem “moscardo” nem “fúria poética” mas ap...

João-Maria Vilanova - 7 poemas da acácia rubra florindo

João-Maria Vilanova andou pela vida literária criando mistérios interditos. Até me conseguiu instilar curiosidade sobre se faria parte da família Vilanova que viveu em Benguela no princípio do século e de que um dos membros teve a ideia de plantar casuarinas (“acasuarinas”) na Praia Morena e espalhar sistematicamente acácias pela cidade... Mas o mistério que nele me interessa consiste na surpresa que a sua poesia trouxe – apesar de previsível desde a viragem poética da narrativa de Luandino Vieira, segundo o próprio influenciado por Guimarães Rosa. Quando veio a terreiro, nesses anos já distantes do fim do colonialismo (1971), e foi premiado (Prémio Mota Veiga), a vivacidade, a propriedade e o discursivismo caracterizavam a sua poesia, empenhada como toda, ou quase, nessa altura, em Angola. Creio que a vivacidade, para além de impressa pelo ritmo, derivava da surpresa de se pegar numa linguagem popular e dar-lhe estatuto lírico dos mais elevados. Assim perdurou o seu mito. R...

Henrique Guerra no quissanje

Cumprindo com uma das suas funções principais, a UEA republicou, em 2013, O tocador de quissange , de Henrique Guerra (Guerra, 2013). Trata-se de uma colectânea de seis contos, não muito longos mas nem por isso menos desenvolvidos. Henrique Guerra é um escritor discreto, discreto por opção própria. Um veterano vindo da Cultura do fim dos anos 50, quando o nacionalismo angolano radicalizou o seu apelo militante ao combate por um país independente. Justamente no quadro da sua geração O tocador de quissanje (livro guardado por Cândido da Velha durante mais de 20 anos) se distingue por várias características, quase todas anotadas na apresentação eficaz da obra feita por Irene Guerra Marques (Guerra, 2013, pp. 9-11). Pertencendo a uma geração que virou o rumo da língua literária angolana do português clássico (clássico mas nosso, ou seja, com características próprias de Angola, das “ricas xanas do Leste”, da “noite entregue aos cazumbis e feiticeiros” que “bungulam à porta das casas”) par...