João-Maria Vilanova andou pela vida literária criando mistérios interditos. Até me
conseguiu instilar curiosidade sobre se faria parte da família Vilanova que
viveu em Benguela no princípio do século e de que um dos membros teve a ideia
de plantar casuarinas (“acasuarinas”) na Praia Morena e espalhar
sistematicamente acácias pela cidade...
Mas o mistério que nele me interessa consiste na surpresa
que a sua poesia trouxe – apesar de previsível desde a viragem poética da
narrativa de Luandino Vieira, segundo o próprio influenciado por Guimarães Rosa. Quando
veio a terreiro, nesses anos já distantes do fim do colonialismo (1971), e foi
premiado (Prémio Mota Veiga), a vivacidade, a propriedade e o discursivismo
caracterizavam a sua poesia, empenhada como toda, ou quase, nessa altura, em
Angola. Creio que a vivacidade, para além de impressa pelo ritmo, derivava da surpresa de se pegar numa linguagem popular
e dar-lhe estatuto lírico dos mais elevados. Assim perdurou o seu mito.
Recentemente, em Angola e Portugal, a nossomos, de acordo com os herdeiros de Vilanova, pôs a circular um
caderno poético muito bonito, com uma capa recordando antigas encadernações,
com a particularidade de o desenho (de Luandino Vieira) nos lembrar estames e folhas de acácia. Chama-se
7 poemas da acácia rubra florindo. Uma
edição graficamente muito cuidada, com espaços de silêncio e
oxigenados, separadores entre cada poema, tudo graficamente muito respirável,
nada saturado.
Quando os lemos são 6 belos haicais, ou haikus, ou
simplesmente 6 belas analogias, mais uma que não me parece bela nem feia, é uma
conclusão que resume as peças anteriores:
Acácia festim
da vermelha
cor
Com estes 7 poemas João-Maria Vilanova, mais uma vez, nos
surpreende. Surpreende-nos em relação à imagem que nos deixou de uma poesia
discursiva e coloquial, estendida como bandeira que se prolonga pela multidão.
E surpreende pelo contraste com toda uma poética anterior, a da sua geração. Mas
surpreende, sobretudo, pela beleza, pela capacidade de síntese, de concentração
semiótica e estética em pouquíssimas palavras.
Sempre me pareceu que a chamada ‘poética mensageira’, típica da poesia
internacionalista do seu tempo, não era a mais próxima das nossas tradições,
mesmo das urbanas. Pelo que li e ouvi até à data, nós temos duas tendências bem
marcadas até nas nossas brincadeiras de olhos verbais e quotidianos. A de um
Tu, meu irmão,
Que gostas de camisa de cor
Camisa sarapintada
Com variados desenhos,
Camisa fora das calças
E óculos vermelhos nos olhos.
- como escreveu M. António em 1951. E a outra, que me faz lembrar
a maneira como a cobra cospe seu veneno: rápida, incisiva, fatal.
Raiva
nos dentes:puro
uivo
da cor
- como escreveu Vilanova num destes haicais.
O discursivismo panfletário, a verborreia redundante,
aparentemente lógica, de conotações político-partidárias imediatas e já muito
batidas, isso entra na nossa história literária por imperativo de luta, não por
imperativo estético.
Por este motivo sempre me pareceu que as estruturas
analógicas, que formam a base dos provérbios, das adivinhas, da grande lírica
popular urbana e rural, viessem elas do Japão ou de quadras populares
luso-brasileiras, eram muito mais próximas das nossas tradições. Bem como a
grande oratória, que podia ter sido surrealista mas não foi, a grande oratória
barroca, das cortes tradicionais, o ouro, a vivacidade e os contrastes bruscos
eram a outra parte da nossa veia lírica e poética.
Não por acaso, nem me parece que por modismo, Lopito Feijoo,
que se inicia tentando essa grande oratória em poesia com a ironia ácida e
luxuriante de Doutrina, acaba
escrevendo haicais profusamente. David Capelenguela, aquele dos poetas da sua
geração mais próximo talvez das tradições rurais, desenvolveu igualmente esse
gosto pelos haicais em Véu do vento e
já desde M. António e de 1963 que as analogias tradicionais são consideradas, entre alguns
de nós, com toda a justiça, como “pura poesia”. Veja-se o trabalho feito com
elas por Arlindo Barbeitos, principalmente nos seus dois primeiros livros (Angola, angolê, angolema e Nzoji (sonho)), bem como as suas
afirmações sobre o assunto aí exaradas.
Sendo assim, este novo livro de João-Maria Vilanova é de
saudar como uma surpresa mas, também, como um reencontro. O reencontro de um
poeta nacionalista com a mais funda verve do seu povo.
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