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José Manuel Capelo


Ontem à noite a notícia: morreu subitamente o José Manuel Capelo. Esta manhã foi cremado. 

José Manuel Gomes Gonçalves Capelo nasceu a 29 de Janeiro de 1946 em Castelo Branco. O pai, médico, faleceu novo em Angola, onde se encontrava com a família. Daí veio o poeta, com três ou quatro anos. Esta morte marcou-o para a vida tanto quanto na poesia. 

Foi poeta e editor, principalmente. Mas também investigador (investiu muito, nos últimos anos, pesquisando os Templários e, particularmente, os Templários em Portugal). Foi também ficcionista, produtor cultural, declamador (com uma excelente voz), jornalista cultural (assinando recensões críticas). Poemas seus estão traduzidos e/ou publicados em várias línguas e vários países. 

Homem com forte ligação à terra portuguesa, foi no entanto um viajante e um cidadão do mundo. A profissão que teve durante anos (assistente ou comissário de bordo, na TAP) permitiu-lhe conhecer países tão diferentes quanto a África do Sul e o Brasil, que o tocava intensa e paradoxalmente. 

Dos projetos editoriais brasileiros (por assim dizer) editou o poeta-filósofo Ângelo Monteiro, Lucila Nogueira, Maria de Lourdes Hortas, havendo planos para editar os sonetos de Ariano Suassuna (de que ainda publicou o ensaio sobre Olavo Bilac e Fernando Pessoa), de outros mais, planos que entretanto a vida pôs de lado. 

O número de autores portugueses publicado é vasto e meritório, nomes como António Quadros, Dalila Pereira da Costa, João Rui de Sousa, António Ramos Rosa, António Manuel Couto Viana,  António Telmo, António Salvado, José-Alberto Marques (um dos pioneiros da poesia experimental portuguesa), Joaquim Pessoa, J. O. Travanca-Rego, António Barahona, Albano Martins, Dórdio Guimarães, Pascoaes e Cebreiro (este, galego - publicou-lhes uma parte da correspondência) creio que também Raul de Carvalho, muitos outros e outras (Maria Sarmento por exemplo), de uma geração mais nova Paulo Borges, António Cândido Franco, vários nomes ainda que me faltam.

Publicou também o último livro do poeta angolano Mário António (Fernandes de Oliveira), 50 anos: 50 poemas.

Era essencialmente um lírico, muitas vezes preso ao quotidiano próprio, com o qual a sua poesia andava confundida, naquela típica transformação do 'ego' em 'ego-mundo' que funda a subjetividade lírica. Tem momentos de grandeza espetacular, de grandiloquência, marcadamente oratória. Cultivou bastas vezes o paradoxo, a contradição, a aproximação pelos contrários. Recorria frequentemente às hipérboles, que davam corpo à vivência exaltada do mundo, da amizade e das mulheres. E tem frases lapidares no meio desses bosques de versos, em particular nas Odes, que o poeta e crítico Ângelo Monteiro considerava, junto com Plancha D. Baca (famoso filólogo estremenho), o momento mais alto da sua obra. 

Publicou muitos livros, a maioria deles na sua própria editora, até pelo escrúpulo que punha nessas edições. O primeiro livro creio ser Miragem, das ed. Montanha (col. Opúsculo), saído em Lisboa, em 1978, com capa de Lino António Tudela e prefácio de Paulo Homem-Cristo. O primeiro livro mais conhecido foi, talvez, Fala do homem sozinho, saído nas ed. Danúbio, em Lisboa também (cidade da sua vida), em 1983, com retrato, capa e ilustrações de Luís Osório, sendo apresentado ao público por um prefácio de António Manuel Couto Viana. 

Quer como editor, quer como poeta, revelava uma especial sensibilidade às artes visuais, em particular a pintura - possuindo uma razoável coleção de quadros de pintores muito representativos e desenhando intuitivamente - em repentes, no meio das conversas, entre chávenas de café - nas toalhas de papel, aproveitando (como muitos, é certo) o próprio castanho do café para colorir. 

Mergulha agora na Noite das lendas essa tempestade em viagem que também foi o nosso amigo, tempestuoso amigo. Mergulha agora sua paixão em brasa na linha marítima do horizonte angustiado. Infelizmente não chegou a escrever a sua grande obra, uma autobiografia amorosa que superaria certamente o Decameron de Boccaccio, mais rocambolesca, mais atrevida, mais pitoresca e bandida. Temperamental, violento, mas capaz de passar frio e fome pelos amigos, inconstante e persistente, de aspeto vigoroso, beirão moreno e parcialmente judeu, ficou vivo na memória de todos os que o conheceram - e mesmo aqueles que tiveram com ele desentendimentos fortes hoje lhe recordarão certa graça e lhe perdoarão loucuras - o que se esperava de um poeta a negociar? Todo o tipo de poesia, claro.


Comentários

  1. Paz à sua alma!! e a minha saudade...

    Maria

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  2. "Que la tierra se vaya haciendo camino ante tus pasos; que el viento sople siempre a tus espaldas, que el sol brille cálido sobre tu cara; que la lluvia caiga suavemente sobre tus campos y; hasta tanto volvamos a encontrarnos, que Dios te guarde en la palma de sus manos"

    Hasta pronto amigo,
    Ramón Garrido

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  3. Alguém citou hoje,inesperadamente, o nome de José Manuel Capelo. Conheci-o na Madeira em 1996. Publicou na Átrio um livro meu de poesia, Estrada de um Dia Só,com posfácio de João Rui de Sousa, e incluio-me na colectânea Duplo Olhar (13 poetas portugueses contemporâneos)na Aríon. Procurei-o na internet e fui tristemente surpreendida pela notícia do seu desaparecimento no último mês de Março. Mas como penso que os poetas não morrem, apenas transmigram... Até um dia, José Manuel...sem esconder a saudade. Irene Lucília

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  4. Meu amigo e colega TAP, musiquei um poema dele “Noite sem ser dia” que foi gravado na Valentim de Carvalho de onde saiu o single em 1984.
    Lamento o seu falecimento… tinha outras músicas com os seus poemas.❤️🎼

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