Morreu. É natural.
A 3 de Fevereiro do corrente mês em Paris.
Aprendi muito com ele. Sobretudo as noções principais da sua obra: crioulização (o processo, mais que o resultado, sempre provisório), poética da relação, o jogo fundamental entre identidade e relação, o 'caos-mundo' e o 'todo-mundo', sobretudo a liberdade e a lucidez em todas as atividades criativas.
Nascido três anos depois de Franz Fanon (de quem foi amigo), seis meses depois de Viriato da Cruz e exatamente um mês depois de Mário Pinto de Andrade, foi um destacado militante anticolonialista (cofundou, com Paul Niger, o Front Antillo Guyanais, que lutava pela independência das Antilhas – movimento dissolvido por De Gaulle em 1961) e feroz opositor à guerra da França na Argélia. As suas posições levaram à expulsão da Martinica natal (nasceu em Sainte-Marie) e das Antilhas francesas, ficando de residência vigiada na 'metrópole' – palavra que ele mostrou não mais fazer sentido. A sua militância política revela-se no movimento "Franc-Jeu", decisivo para a eleição de Césaire como presidente da Câmara de Fort-de-France, em 1945 (ano em que termina a II guerra mundial). A militância é mal conhecida pelos detratores – que de forma geral tresleram a obra, ansiosos por encontrar falhas e não perceberam bem os conceitos principais por ela postos em jogo. Isto apesar do caráter repetidamente didático de muitos ensaios e de muitas entrevistas. Aliás, as preocupações pedagógicas o levaram desde cedo a importantes iniciativas educacionais e culturais, como a criação, em 1967, do Institut Martiniquais d'Études, que dirigiu durante vários anos. Para além disso foi reputado professor universitário nos EUA, com destaque para a Louisiana State University, onde entrou como leitor em 1988, e a City University de Nova Iorque, onde começou a trabalhar em 1995. Já no fim da vida criou em 2007 o Institut du Tout-Monde (http://www.tout-monde.com/) para "fazer avançar o conhecimento dos fenómenos e processos de crioulização e contribuir para difundir a extraordinário diversidade dos imaginários dos povos […]". A preocupação pedagógica é mesmo um dos traços recorrentes nas observações sobre a personalidade do autor da Poética da relação.
Em primeiro lugar acho que fica dele uma excelente poesia, que tem o primeiro grande momento com Les Indes, de 1956 (publicado em francês e traduzido para inglês), embora o primeiro livro de poemas (Um campo de ilhas) date de 1953. O culminar da vivência poética atinge-se talvez no último grande livro, a "antologia da poesia do 'todo-mundo'" (Paris: Galaade, 2010). Os leitores apressados chamam-lhe poesia hermética, muito complexa, etc., eufemismos para confessarem que não percebem o que, nem o como, está escrito. Desde que reconheçamos as técnicas de colagem, divulgadas e desenvolvidas assumidamente pelos modernismos e a partir deles, o hermetismo começa a clarear. A sobreposição de citações, alusões, paisagens, etc., vai constituindo – já na trama dos versos – aquele 'caos-mundo' de que os ensaios, conferências e entrevistas nos falarão repetidamente. A antologia que referi condensa e materializa os conceitos principais do ensaio e as técnicas principais da composição poética. Os dois géneros, aliás (ensaio e composição poética), estão muito próximos na sua origem. No caso de Glissant estão tão próximos que me arriscaria a aproximar (não fundir, mas aproximar) o que António Cândido Franco desenvolveu como pensamento poético e os ensaios de Glissant, que nunca abandonam aquela origem comum, fervilhante, ainda não formatada por regras genológicas, aquela imaginação da qual saem os rios vários do ensaio, da oratória, da poesia. A antologia reúne textos (em vários géneros: ensaio, romance, lírica) sem qualquer fio condutor, sem qualquer critério definido, apenas ao sabor dos acontecimentos – acontecimentos significando aqui, fenomenologicamente, a ordem pela qual os mesmos poemas foram chegando à perceção e criatividade do antologiador.
A persecução de uma 'ordem fluida', orientada pela dinâmica da intimidade em vez de critérios predefinidos e calcinados, é precisamente uma das constantes da obra de Glissant. Por aí se liga à oralidade, à infância, à identidade, se entrega à criatividade em relação, se abre ao mundo e, sobretudo, evita as grandes construções sistemáticas da filosofia imperial (imperial enquanto filosofia: do império do sujeito ou do império do objeto para aludir a Leonardo Coimbra, outro pensador intimista). O intimismo é, portanto, o élan vital liberto, sem canalizações – não a manifestação doentia de um 'ego' mimado que só a si próprio se reporta.
Começando por militar (ainda culturalmente) nas hostes negritudinistas e aceitando o papel que a negritude teve no 'desbranqueamento' cultural, a reflexão de Glissant parte da realidade antilhana para afirmar uma identidade múltipla, misturando-se e crescendo com essa mistura (uma das suas frases mais populares é: "je peux changer, en échangeant avec l'Autre, sans me perdre pourtant, ni me dénaturer"). Isso tem um sentido preciso ali: a formação antropológica destas ilhas contou com os mais diversos contributos, acelerando-se o processo desde que, em 1816, a Martinica se tornou uma possessão francesa e também com a colonização inglesa de outra parte das Antilhas. Vieram, ainda no século XIX e nos começos do séculos XX, vieram juntar-se aos raríssimos descendentes de índios e à grande maioria de ascendência africana negra, chineses, indianos (v. genealogia de V. S. Naipaul, nascido em Trinidad em 1932), alguns europeus ainda (v. biografia de Saint-John Perse, nascido em Pointe-à-Pitre, Guadalupe, a 31 de maio de 1887). Logicamente, a identidade destes ilhéus não era negra, tendo embora a negritude uma atuação decisiva nela.
A partir desta observação (g)local, Glissant vai refletir sobre o mundo inteiro, ao mesmo tempo em que vai passando a viver em outros países (França, EUA) e vai tendo notícias, amigos, livros de outros países ou continentes, convivendo portanto com livros vivos, culturas vivas que são as pessoas com quem se cruza na ONU, na Jeune Afrique, nas Universidades em que ensina, etc. Foi percebendo então que todo o mundo caminhava, não necessariamente para uma globalização ocidentalizante (essa existia e existe mas é um momento e até já o foi mais), mas para uma mistura idêntica à das ilhas, agora à escala do planeta. Idêntica à das ilhas na medida em que os povos vão-se encontrando, recontrando e re-encontrando, misturando-se e conhececendo-se (ou reconhecendo-se), apesar de qualquer esforço político-cultural, numa sucessão sem balizas e sem roteiros pré-definidos. Nessa medida é um caos e, na medida em que nos engloba a todos, é o mundo. É, portanto, o caos-mundo – ao qual apenas é preciso dar exemplos de respeito uns pelos outros, de respeito pela autenticidade de cada um, sem que uma cultura ou religião tenha a pretensão de se impor às outras. A imprevisibilidade do 'caos-mundo' é, portanto, uma realidade recorrente e um valor acrescentado que nos garante a liberdade e a personalidade. Como se escreve no jornal crioulo Temoignages, ligado ao Partido Comunista de Reunião (http://www.temoignages.re/edouard-glissant-c-est-la-poesie-qui-m-a-amene-a-la-politique,48037.html), "l'identité créole [para Glissant] … est une identité composite à plusieurs racines, préfiguration de l'identité d'un monde entrant dans la diversité et puisant sa force créatrice dans le bouillonnant magma de tous les apports civilisationnels."
O percurso biográfico e reflexivo (mais justamente: poético-reflexivo) de Glissant tem muitas afinidades com o do nosso Mário António, o angolano. Ambos partiram para outro país (potência colonial respetiva), estudaram e conheceram outros países em vários continentes, ambos refletiram e compuseram poemas embrulhados originalmente nessa vivência e ambos também se identificaram com os processos de crioulização históricos e trans-históricos, ou melhor: estudados diacronicamente e sincronicamente. Se Mário António explorou mais a imagem do Caos-mundo na poesia lírica, foi por motivos pessoais e circunstanciais – a que a própria doença não terá sido estranha. Mas a perceção é, estruturalmente, a mesma. Esta coincidência particular (entre os dois autores, as comunidades de que emergem e as conclusões que daí tiram) e a mais recente história humana (caminhando efetivamente para o caos-mundo) suportam a leitura da evolução da cultura angolana (e da portuguesa e da mundial) como crioulização a partir das bases locais. Retrospetivamente e esticando a corda ao máximo, uma crioulização que se foi alargando desde que o primeiro banto avistou o primeiro não-banto e desde que ambos (cada um por seu lado) avistaram os primeiros europeus.
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Obras de Glissant:
- Un Champ d'iles, 1953
- La Terre inquiète, 1955
- Soleil de la conscience, 1956
- Les Indes, 1956- The Indes (tr. Dominique O'Neill)
- La Lézarde, 1958 - The Ripening (tr. Frances Frenaye, 1959; J. Michael Dash, 1985)
- Le Sel Noir, 1960 - Black Salt: Poems by Edouard Glissant (tr. Betsy Wing, 1999)
- Le Sang rivé, 1961
- Monsieur Toussaint, 1961 - Monsieur Toussaint (tr. Joseph G. Foster and Barbara Franklin, 1981) / Monsieur Toussaint: a Play (translated by J. Michael Dash with the author)
- Le Quatrième Siècle, 1964 - The Fourth Century (tr. Betsy Wing, 2001)
- Les Indes, un champ d'îles, La Terre inquiète, 1965
- ed.: Mémoires de M. d'Artagnan, by Gatien de Courtilz, 1966
- L'Intention poétique, 1969
- Malemort, 1975
- Boises, 1979
- Le Discours antillais, 1981 - Caribbean Discourse: Selected Essays (tr. J. Michael Dash, 1989)
- La Case du commandeur, 1981
- Edouard Glissant, 1982
- Pays rêvé, pays réel, 1985
- Mahagony, 1987
- Poétique de la Relation, 1990 - Poetics of Relation (tr. Betsy Wing, 1997)
- Fastes, 1991
- Poèmes complets, 1994
- Tout-Monde, 1995
- Introduction à une poétique du divers, 1996
- Faulkner, Mississippi, 1996 - Faulkner, Mississippi (tr. Barbara B. Lewis, Thomas C. Spear, 1999)
- Traité du Tout-monde, 1997
- Sartorius: le roman des Batoutos, 1999
- Le Monde incréé, 2000
- Ormerod, 2003
- Collected Poems Of Edouard Glissant, 2005 (tr. Jeff Humphries, Melissa Manolas)
- La cohée du Lamentin, 2005
- Une nouvelle région du monde, 2006
- Mémoires des esclavages, 2007
- Quand les murs tombent. L'identité nationale hors-la-loi?, 2007 (with Patrick Chamoiseau).
- La terre magnétique: les errances de Rapa Nui, l'île de Pâques, 2007 (with Sylvie Séma)
- Miquel Barceló, 2007
- L'intraitable beauté du monde. Adresse à Barack Obama, 2009 (with Patrick Chamoiseau)
- Philosophie de la relation, 2009
- La Terre le feu l'eau et les vents, 2010
(fonte: http://www.kirjasto.sci.fi/glissan.htm)
Há, naturalmente, muitos endereços em rede para consultar. Um deles parece-me especialmente sugestivo, que é do Potomitan: http://www.potomitan.info/atelier/glissant.php.
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