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O Prometeu angolano



  1. António Jacinto explorou também o mito de Prometeu, num dos seus contos. Escrevo também porque me lembro de Pepetela no Mayombe. É uma linha de exploração a seguir, no estudo da literatura angolana, o mito de Prometeu entre os escritores nacionalistas. É lógico o aproveitamento, pois a figura mítica de Prometeu foi considerada por alguns o próprio criador da Humanidade (a partir do barro, o que traz ressonâncias bíblicas e egípcias muito sugestivas), para além de salvador e civilizador dos homens, aquele que roubou o fogo para nos dar a nós. Ele representa ess ânsia de anteciparmos o paraíso, de o fazermos vir à terra. Ora o paraíso na terra é, precisamente, um dos tópicos típicos da retórica política marxista e, como sabemos, António Jacinto (como Pepetela) era marxista. Isso traz um sentido muito preciso ao trabalho literário por eles desenvolvido em torno de Prometeu e ajuda-nos a perceber melhor as conotações simbólicas das respetivas obras.
  2. Ainda no início do conto «Prometeu», António Jacinto escreve: "Nem grades nem janelas. Uma porta pesada, muito pesada e inútil. Por ela entra o Diabo […]" (p. 19 da edição da UEA de 1987). Ora o Diabo já andava há muito tempo a entrar e a sair pelas portas das tradições banto de Angola. Por isso existe aquele provérbio, talvez adivinha (cito de memória): "Vai diabo, vem diabo: essa porta!". O poeta refere, na entrevista colocada no início do livro. o convívio com a cultura tradicional de Cambondo e Golungo, bem como a consequente apropriação ou interiorização desse material. É um dado da literatura nacionalista, esta fusão entre propaganda marxista, mitos humanistas ou humanizantes simpáticos a essa propaganda e todo o material mítico disponibilizado pelas tradições orais angolanas.
  3. Mais à frente, na p. 21, retorna a imagem tradicional, mas agora transformada, mastigada, refuncionalizada. Faz parte de um quadro novo, o do fuzilamento junto ao muro branco: "a ligeira brisa sentia-se como chicotadas do homem do diabo, um irmão qualquer, feito abutre, que não sabia que tinha voz". O abutre é, de certeza, parente próximo daquela águia malvada (provavelmente capitalista ianquí), discípula fiel de Zeus, que todos os dias roía o fígado a Prometeu no mito grego.
  4. Avançando mais no livro de Jacinto encontramos o poema, justamente famoso, «Prometeu / (canto interior de uma noite fantástica)» (pp. 28-30) e, nove anos depois mas apenas uma página adiante, «Ainda Prometeu / (musseque Prenda)».
  5. Dito isto, como por agora não vou aprofundar mais, deixo uma derradeira sugestão: quando Agostinho se anuncia aquele por quem se espera não se coloca no lugar de Prometeu?

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