Num livro que reúne uma série de conferências (v. referência mais em baixo), Jorge Luís Borges, na 3.ª dessas conferências, mesmo no final, faz uma série de pequenas confissões muito sugestivas para compreendermos a sua obra.
Numa delas diz, nomeadamente: "sabemos mais sobre as personagens de Dante ou de Shakespeare, que nos vêm - que vivem e morrem - em umas poucas fases" do que nas do Ulisses de Joyce. Conhecemos "mil coisas" sobre "os dois personagens [de Joyce], porém não os conhecemos" . Ao passo que os de Dante e Shakespeare, "desconhecemos mil circunstâncias sobre eles, mas os conhecemos intimamente. Isso, claro, é muito mais importante".
A comparação ilustra a sua tese de que "o romance está de um modo ou de outro em declínio". Mas explica também o próprio trabalho literário de Borges como aquilo que se podia fazer - ou devia - enquanto os "mais jovens" não regressassem à épica.
Outro sinal, para ele, do declínio do romance: "todos aqueles experimentos bastante ousados e interessantes com o romance - por exemplo, a ideia de deslocamento temporal, a ideia de a história ser contada por diferentes personagens -, todos eles nos conduzem ao momento em que o romance não estará mais entre nós." Isto foi dito em conferências pronunciadas na Universidade de Harvard em 1967-1968. Já não eram novas nessa altura tais experiências com o romance.
Na história da narrativa angolana podemos assinalá-las principalmente em Pepetela, que por esses anos terá começado a escrever romances. Nele é mais estruturante e recorrente o uso dos "experimentos" nomeados por Borges. Pela parte globalizante para que a sua escrita inevitavelmente remete também, é isso que ele nos traz: o caminho para o fim do romance como género fixado nos finais do século XVIII e, sobretudo, ao longo do século XIX. Não sei até que ponto Pepetela escreveu consciente disso e talvez não importe nada sabê-lo.
Interessa mais que, nessa medida, os textos narrativos curtos e incisivos de José Eduardo Agualusa faziam a sequência 'borgeana' dos "experimentos" de Pepetela. Mas o velho escritor argentino juntava a esta uma segunda profecia: que se havia de regressar ao poeta, o que implicava regressar à junção da narrativa com o verso (o autor de epopeias era poeta, mas o de romances não é chamado assim).
Claro que não podemos simplificar tanto, ignorar cambiantes, nuances e condicionalismos da história literária que matizam muito as ambições proféticas de Borges (não podemos, por exemplo, ignorar a força de toda a evolução do pensamento literário, que levou a restringir o significado da palavra poeta quase só à lírica e o da palavra "poesia" quase só ao verso). Mas há algo mais fundo que talvez o contista de Buenos Aires vislumbrasse: uma aproximação, ou reaproximação, entre o contar uma estória e o saber contá-la, saber através da própria constituição e articulação das palavras (não só dos eventos referidos por elas). O regresso da narrativa à magia, à sugestão muito próxima do iniciático, ou seja, do viático direcionado e do efeito poético. Algo de que ele se aproximou nos seus contos mas que também não surgirá por aplicação de receitas - o que nos pede uma grande discrição.
Ao que temos, porém, assistido em termos de mercado é à proliferação do contar estórias por assim dizer direitinho: numa linguagem escorreita e certinha, bem comportada, facilmente percetível; seguindo também as receitas das cartilhas de escrita criativa para candidatos a romancistas; mas sobretudo apostando no desenrolar da sequência, dos episódios, na força do enredo e na visualização das cenas que é constantemente excitada no leitor - um leitor que vê muita televisão, muito cinema. Provavelmente um leitor que, no cinema, não repara na fotografia, nem na qualidade dos diálogos, apenas se deixa surpreender (ou simplesmente prender) pelo desenrolar do enredo. O leitor que descende mais diretamente do antigo leitor dos livros do 'farwest' (ou faroeste, como dizíamos), de livros de 'suspense' (incluindo policiais, ficção científica) e que hoje consome a roer as unhas séries de bandidos e polícias. Mas que não repara no trabalho fotográfico, nas cores que manipulam conotações que fazemos sem dar por isso, na antecipação concentrada numa simples palavra de uma personagem, etc.
Esse é o tipo de leitor que prolifera. Correspondem-lhe muitos candidatos a campeões de venda, incluindo atores, atrizes, pivots de televisão, escritores que pagam a jovens para investigarem e rascunharem o esboço inicial. Esse tipo de sucesso é bem conhecido desde que o mercado começou a interagir mais fortemente com a literatura - ou seja, desde o declínio do mecenato. Constitui, porém, uma distração para o historiador da literatura. Não é dali que vem o novo, dali só vem um tipo de escrita para um tipo de leitor, tudo pré-definido, bem definido. Por igual tudo na função de passatempo (no caso do autor, um passatempo rentável). Não é daí que vem a novidade nem a evolução artística. Nem da pretensão de escritores pouco humildes, que forçam a sua própria colocação no papel de pioneiros arrasadores e não passam dos fogos de artifício.
Acredito que o novo sai do antigo, da origem, da fonte. E a fonte está nessa ligação intrínseca da palavra, da 'magia' (por assim dizer) e da arte. É sempre a ela que voltamos quando estudamos uma nova era literária.
Ao que temos, porém, assistido em termos de mercado é à proliferação do contar estórias por assim dizer direitinho: numa linguagem escorreita e certinha, bem comportada, facilmente percetível; seguindo também as receitas das cartilhas de escrita criativa para candidatos a romancistas; mas sobretudo apostando no desenrolar da sequência, dos episódios, na força do enredo e na visualização das cenas que é constantemente excitada no leitor - um leitor que vê muita televisão, muito cinema. Provavelmente um leitor que, no cinema, não repara na fotografia, nem na qualidade dos diálogos, apenas se deixa surpreender (ou simplesmente prender) pelo desenrolar do enredo. O leitor que descende mais diretamente do antigo leitor dos livros do 'farwest' (ou faroeste, como dizíamos), de livros de 'suspense' (incluindo policiais, ficção científica) e que hoje consome a roer as unhas séries de bandidos e polícias. Mas que não repara no trabalho fotográfico, nas cores que manipulam conotações que fazemos sem dar por isso, na antecipação concentrada numa simples palavra de uma personagem, etc.
Esse é o tipo de leitor que prolifera. Correspondem-lhe muitos candidatos a campeões de venda, incluindo atores, atrizes, pivots de televisão, escritores que pagam a jovens para investigarem e rascunharem o esboço inicial. Esse tipo de sucesso é bem conhecido desde que o mercado começou a interagir mais fortemente com a literatura - ou seja, desde o declínio do mecenato. Constitui, porém, uma distração para o historiador da literatura. Não é dali que vem o novo, dali só vem um tipo de escrita para um tipo de leitor, tudo pré-definido, bem definido. Por igual tudo na função de passatempo (no caso do autor, um passatempo rentável). Não é daí que vem a novidade nem a evolução artística. Nem da pretensão de escritores pouco humildes, que forçam a sua própria colocação no papel de pioneiros arrasadores e não passam dos fogos de artifício.
Acredito que o novo sai do antigo, da origem, da fonte. E a fonte está nessa ligação intrínseca da palavra, da 'magia' (por assim dizer) e da arte. É sempre a ela que voltamos quando estudamos uma nova era literária.
Referência: Jorge Luís Borges - Esse ofício do verso. Org. Calin-Andrei Mihailescu, trad. José Marcos Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. As citações vieram das pp. 61-62.
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