(Esta era uma nota antiga que, por motivos que desconheço, não foi publicada aqui na altura em que a escrevi, logo nos primeiros dias do 'blogue'. Encontrei-a lá no fundo, classificada como 'rascunho', e recuperei-a. Acho-a, infelizmente, ainda actual - embora algum nome se possa já trocar por outro).
A existência de cânones literários em qualquer corpus histórico vem sendo investigada sob várias perspetivas e há várias décadas. Particularmente duas perspetivas foram produtivas nos últimos anos: uma, mais prolífica, visa deconstruir o cânone para deixar no seu lugar um território de ninguém, uma espécie de terra queimada que é a grande especialidade da popularização do deconstrucionismo euro-americano; outra, mais especializada e menos empenhada partidariamente, procura tão só compreender como se formam os cânones literários e como atuam nos sistemas literários respetivos.
Quando, do espaço lusófono, começaram a chegar a Luanda notícias (artigos, livros, conferências) de estudos sobre o cânone nas literaturas africanas havia de facto um cânone a funcionar, com sua mais remota origem nas primeiras gerações nacionalistas e mais próxima nos regimes de partido único pós-independência. Não me cabe, enquanto estudioso, criticar nem valorizar esse cânone - apenas constato a sua existência e procuro saber como se formou e de que forma atuou. Os académicos que então estudaram o cânone angolano (entre os quais me não conto, mas só porque estava ocupado com outros estudos) perceberam que havia que idenficar e explicar a formação e persistência de um fenómeno, tão só.
Talvez por erro de interpretação, certos críticos angolanos (com Luís Kandjimbo à cabeça), de canetas precipitadamente aguçadas pelo ambiente geral de guerra civil dos espíritos, vieram a terreiro assegurar que isso do cânone era um problema de brancos, melhor embrulhado: dos críticos europeus ou ocidentalizados que não percebiam nada da verdadeira realidade das literaturas africanas. O erro de interpretação manifesta-se até hoje mas, paradoxalmente, esses mesmos críticos falam agora em definir, determinar e impor um cânone literário angolano. Não só para o ensino universitário interno - que existe, é autónomo e dispensa conselhos desses, ainda por cima vindos de quem diz que não há ensino de literatura angolana nas nossas universidades.
Antes ainda de definirem um novo cânone, criado assim como um modelo da BMW ou um novo design de roupa, se não mesmo por decreto, afirmam também que se deve impor esse cânone aos que ensinam literatura angolana fora de Angola. Que pretensão e quanta incoerência, sem dúvida, mas sobretudo reparo que o erro persiste e é o de não se perceber que o conceito de cânone surge para estudar, descrever, explicar fenómenos prévios à elaboração crítica. Não surge para decretar quais os autores a serem lidos e a serem expurgados dos respetivos corpus literários.
Creio que é por ignorância que se age assim. Uma ignorância pouco ingénua, que cita Karl Popper e critica eventuais projetos culturais totalitários (vindos de países onde a expressão do pensamento é inteiramente livre) mas para implantar um autêntico genocídio literário em resposta. Na verdade, quando chega a hora de proporem o tal cânone a criar por decreto, a proposta consiste em expulsar da nossa literatura obras como Nga mutúri, a lírica de Tomás Vieira da Cruz, a narrativa de Castro Soromenho e Yaka de Pepetela. Qual o motivo para esta limpeza, aparentemente só cultural?
Aparentemente, ou explicitamente, o critério desta expulsão, feita demagogicamente a par da defesa do reconhecimento do pluralismo, é o de "excluir do cânone literário angolano aquelas obras que reflictam a ausência dos Angolanos e a negação da sua autonomia no plano ontológico" - como defende Luís Kandjimbo num ensaio publicado na secção de Ensaios do sítio da União dos Escritores Angolanos. O critério seria discutível, a sua aplicação é que já não é, por tanto falhar: então não há angolanos com autonomia no plano ontológico no Yaka de Pepetela, por exemplo a personagem principal, não é um angolano? Porquê? E há mais angolanidade nas Scenas d'África de Félix Machado do que na Nga mutúri? Como? Há menos angolanos, ou se reconhece mais aos angolanos uma diferença própria (uma identidade própria), na lírica de Tomás Vieira da Cruz do que em Debaixo do céu de Geraldo Bessa Victor? Há mais angolanidade nas duas primeiras narrativas de Óscar Ribas do que nas primeiras narrativas de Castro Soromenho? E, pondo a questão num nível comparativo globalizado, só pertencem às literaturas nacionais as obras que se centram sobre personagens nacionais? Se um brasileiro, ou um escritor dos USA, pode escrever um romance histórico e biográfico sobre Akhenaton sem perder a nacionalidade, porque não poderá um angolano fazer a biografia de um não-africano?
Justamente, uma das falhas cruciais desse processo de exclusão vem de não se perceber de que forma e com que transversalidade o cânone atuou na pequena comunidade literária angolana. Mas o dado mais perturbador, que não é inédito na ensaística de LK, é o que liga todos os excluídos a algumas personagens de Pepetela, Castro Soromenho e Tomás Vieira da Cruz: o facto de serem 'brancos'. O racismo e o tribalismo já mostraram as suas virtudes na história geral das guerras civis angolanas. É uma pena que nem todos o tenham percebido.
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