"Dentre os grupos linguísticos dessa grande família congo-saariana, as línguas bantu apresentam um parentesco genético tão notável que pode ser encarado como um fenómeno relativamente recente. Não só linguistas como também historiadores e arqueólogos empenharam-se em elucidar a 'génese dos Bantu'. Mas as hipóteses diferem. Alguns presumem que a migração bantu, partindo do norte, mais precisamente da região do Camarões ou da bacia do Chade, teria marginado a floresta de modo a contorna-la a leste e, passando pela África oriental, ter-se‑ia difundido na África meridional. Outros, como Sir H. Johnston, acreditam que os Bantu vieram diretamente da região centro‑africana, através da floresta do Zaire. Por fim, alguns estudiosos, de acordo com a teoria do linguista M. Guthrie, que situa o núcleo linguístico protótipo dos Bantu entre os Luba e Bemba no Alto Zaire, apontam essa região como seu lugar de origem.
Avançando ainda mais, chega‑se a apresentar os povos de língua bantu como uma unidade cultural e biológica, esquecendo‑se que o termo bantu é apenas uma referência linguística. Todavia, alguns arqueólogos associam a difusão do ferro na parte meridional do continente à migração dos Bantu, que teriam introduzido uma tecnologia superior. Ora, ao desembarcar na ilha de Fernando Pó, no fim do século XV, os portugueses encontraram uma população que falava bubi, língua bantu, mas que desconhecia o uso do ferro. Esse erro, que consiste em confundir língua e modo de vida ou de produção, já tinha sido cometido pelos etnógrafos, que acumularam no conceito de camita uma unidade de raça, língua e civilização; ora, importa não insistir em se procurar tipos puros na evolução histórica. De fato, os povos Bantu diferem grandemente do ponto de vista antropológico: cor da pele, altura, dimensões corporais, etc. Assim, os bantu das florestas têm características somáticas diferentes dos Bantu que vivem na savana. Também há grandes variações no tipo de atividade económica e na organização social. Alguns grupos Bantu são matrilineares, outros, patrilineares; uns usam máscaras e mantêm sociedades secretas, outros não têm nada semelhante. O denominador comum é a estrutura linguística baseada em classes nominais, tendo sempre os índices dessas classes uma expressão fonética similar fundada num sistema verbal único."
(D. Olderogge - Migrações e diferenciações étnicas e linguísticas. História geral da África, I: Metodologia e pré-história da África / editado por Joseph Ki‑Zerbo. – 2.ed. rev. – Brasília : UNESCO, 2010. 992 p. Disponível em linha [em português]: http://www.unesco.org/pt/brasilia/dynamic-content-single-view/news/general_history_of_africa_collection_in_portuguese/back/9681/cHash/bf079d9e0d/).
Angola tem sido assolada por vagas de nativismo inconsciente, sobretudo nos últimos vinte anos. A artilharia argumentativa é geralmente pobre, reduzindo-se a este paralogismo: a maioria da população angolana é banto; a cultura dominante deve ser a cultura da maioria; logo, a cultura angolana deve ser bantu - ou, pelo menos, orientar-se pelos traços definidores da cultura bantu e expurgar dela os outros.
Como demonstra o excerto acima, trata-se mesmo de um paralogismo e não de um silogismo. Em primeiro lugar não há 'a cultura banto' mas sim culturas e nações de línguas bantu; em segundo lugar nunca foi definida essa 'cultura bantu' - muito menos pelos nativistas - e, portanto, não podemos seguir o que não se define; em terceiro lugar a criatividade humana é imprevisível e pessoal por definição.
Só a ignorância de alguns leitores e a má intenção de alguns intelectuais permite a propagação de tal paralogismo. Quem olha com atenção culturas bantu díspares de Angola pode facilmente confirmar o que diz o arguto investigador e quem olhar para a manipulação do 'ariano' pelos nazis alemães pode comprovar que a manobra é antiga e perigosa.
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