As eleições e a democracia em África, particularmente na África Ocidental, continuam num processo de avanços e recuos em que, naturalmente, os recuos são trágicos.
Enquanto na Guiné Conakry - um país com cinco décadas de ditaduras - o candidato derrotado aceitou os resultados, que deram a vitória a um opositor e democrata veterano, a Costa do Marfim encontra-se novamente às portas da guerra civil. Ao longo da campanha Gbagbo já tinha dado sinais de que só era democrata enquanto o seu poder não estivesse em risco. A encenação da paz visava, na verdade, engolir a oposição armada e a oposição civil, gradualmente, incluindo através de eleições que ele estava destinado a ganhar. Ao longo da campanha, acusações constantes de ingerência estrangeira (por exemplo por um chefe de Estado vizinho receber o candidato oposicionista, procedimento normal entre países democráticos) e outras faziam subir o tom e levavam-nos a desconfiar da democraticidade do candidato-presidente. A reação pós-eleitoral veio confirmar as piores expetativas.
A comissão eleitoral da Costa do Marfim reconheceu a vitória de Alassane Ouattara, sendo secundada pela comunidade internacional, que felicitou o candidato oposicionista. Gbagbo disse logo que não iria aceitar os resultados e entregou ao conselho constitucional queixas por fraudes no Norte do país. Este reuniu de imediato e, sem ter procedido a averiguações (que levariam semanas, naturalmente), sem também ter ouvido o outro lado, portanto sem contraditório e baseado (segundo o próprio Conselho) em muitos testemunhos orais, decidiu reconhecer as queixas de Gbagbo. Daí esperava-se que as eleições fossem repetidas nos territórios em questão (nove "departamentos", todos do Norte), onde o apoio a Ouattara era esmagador e, portanto, as alegadas fraudes pouco ou nada mudavam (segundo o representante da ONU, que certificou a vitória de Ouattara, "même si toutes les réclamations déposées par la Majorité Présidentielle auprès du Conseil Constitutionnel étaient prises en compte en nombre de procès-verbaux, et donc de votes, le résultat ne changerait pas"). Em vez de mandar repetir as eleições, no entanto, o Conselho Constitucional decidiu simplesmente anular esses resultados - ou seja, anular a vantagem de Ouattara e declarar Gbagbo vitorioso. O candidato-presidente manda fechar as fronteiras, elimina os sinais de rádio e televisão, tenta travar a emissão de notícias pelos correspondentes estrangeiros e lança os seus militantes em atos de racismo, tribalismo e repressão contra os apoiantes de Ouattara - que, na lógica de extremos em que se vive, responderão da mesma maneira e já estão a fazê-lo também.
O golpe pós-eleitoral estava dado e as consequências faziam-se sentir. Imitando o seu colega queniano - que também subira ao poder através de eleições (em 2002) e com aura de democrata - Gbagbo apressou-se a tomar posse perante o fiel Conselho Constitucional. Como um vulgar ditador, acusou o representante da ONU de ingerência estrangeira por não ter comparecido à sua tomada de posse (no entanto, ele próprio "a accepté le rôle de certification du Représentant spécial du Secrétaire général des Nations Unies pour la Côte d’Ivoire"), enquanto os seus militantes e a imprensa que o apoia chamam repetidamente estrangeiros (malinkés estrangeiros) aos apoiantes do candidato rival, designam-se como nativos e fazem de conta que estão a ser invadidos. Que palhaçada! Para a cerimónia de posse o presidente contestado convocou sobretudo as chefias militares, que sabia estarem do seu lado. O recado é claro: as forças armadas estão comigo, portanto não refilem que eu esmago-vos. É, porém, provável - tragicamente provável - que venha a suceder o mesmo que no Quénia: um rio de sangue. Tanto mais que parece que as Forces nouvelles de Soro não desarmaram. Esta noite já morreram vários cidadãos marfinenses em confrontos com trocas de tiros que já começaram a assolar o país e as primeiras vítimas são apoiantes de Ouattara, atacados numa sede do partido por homens armados durante o recolher obrigatório...
A Costa do Marfim dá um péssimo exemplo e afunda-se cada vez mais. Isso toca vizinhos próximos e mais distantes. Quanto a nós, temos o primeiro teste sério ao desempenho do novo Mirex. Da imprensa oficial, claro, nada a esperar: anunciou placidamente que Gbagbo segue para mais um mandato e não mencionou as suspeitas de golpe pós-eleitoral, a reação da ONU, da União Africana, da União Europeia, da França em particular, dos EUA e de muitos outros países já que felicitaram Ouattara pela vitória. De forma geral a mesma imprensa não menciona os recontros, a instabilidade, o apoio do primeiro-ministro ao candidato eleito e vítima do golpe - Alassane Ouattara. Ou, o que é pior (Jornal de Angola), disse que a ONU ameaçou tomar medidas contra os que põem em perigo o processo eleitoral sem mencionar que a mesma ONU, como a União Africana, parabenizou Ouattara pela vitória - ou seja, sem mencionar que elas consideram que é Laurent Gbagbo, neste momento, quem perturba o processo democrático (dia e meio depois desta mensagem ter sido colocada pela primeira vez, no Domingo à tarde o Jornal de Angola fez, finalmente, uma notícia um pouco melhor: mais vale tarde que nunca).
Comentários
Enviar um comentário
Comente