Ao fim de muitos anos de espera os leitores podem hoje consultar as instigantes investigações de Virgílio Coelho sobre o reino do Ndongo e sobre os Tumondongo. São dois volumes (haverá mais, assegura o autor): «Em busca de Kábàsà…» : estudos e reflexões sobre o «Reino» do Ndòngò : contribuições para a História de Angola (Luanda: Kilombelombe, 2010) e Os Túmúndòngò, os «génios» da natureza e o kílàmbà : estudos sobre a sociedade e a cultura kímbùndù (Luanda: Kilombelombe, 2010). Mais acento, menos acento, deve ser isso…
Como pelos subtítulos se mostra, o primeiro dos volumes referenciado centra-se em temas históricos, ou histórico-antropológicos; o segundo centra-se em temas mais estritamente antropossociológicos. Para dois grossos volumes (468 e 418 pp. respetivamente), comentários de caráter geral virão com mais tempo, naturalmente. Alguns aspetos vão, no entanto, surpreendendo-nos e suscitando reflexões ao longo da leitura.
Um dos mais instigantes prende-se, a meu ver, com um tema lateral – explorado, por isso mesmo, em poucas páginas. Trata-se de escravos de kijiku, ou de quintal, ou do fogo, ou da casa. Como esclarece o antropólogo, "jìkù, significa justamente o «lugar da casa onde se acende o fogo», isto é, a «lareira», o «fogo» propriamente dito. Nessa qualidade, o termo ganhou o sentido de «lar» e «seio da família» [como aconteceu com os latinos], por integração, «família nuclear». Assim, essas gentes vindas de fora [segundo Cavazzi "pessoas que são filhos naturais de outros escravos e, como tais, marcados com o sinal dos seus donos"…], são acolhidas, ocupam o quintal dos «senhores» e, pelo contacto social diário que aí estabelecem, pelo trabalho quotidiano que desempenham em benefício do seu «senhor», por trocas simbólicas diversas ganham a sua confiança", passando como que a ser da casa e quase da família (pp. 178-179).
Virgílio Coelho tem por várias vezes a preocupação de garantir-nos que não são bem escravos, pelo menos no sentido que a palavra tomou com o tráfico transatlântico, mas acho que isso são pruridos aleatórios. Houve sempre escravatura, os escravos eram mesmo escravos (não podiam decidir acerca da sua vida) e, sobretudo para o que nos interessa nesta discussão, houve sempre mobilidade social nos sistemas escravocratas. Acho que esta descrição de Virgílio Coelho é, como muitas outras que ele faz, reveladora e suscita, sim, uma leitura comparada com outros sistemas em vez de eufemismos de ocasião. Neste caso uma leitura comparada com, pelo menos, dois outros sistemas escravocratas: o islâmico do Norte de África e o luso-brasileiro.
Não conheço suficientemente o sistema escravocrata das nações islâmicas do Norte de África. Lembro-me de que Gilberto Freyre achava que Portugal e Espanha teriam tirado daí o seu próprio sistema, paternalista e patrimonialista, que aplicaram nas colónias americanas. O que a descrição de Virgílio Coelho nos leva a pensar é que, ao contrário do que ele afirma (não haver relação nenhuma com o que foi o escravo no sistema luso-brasileiro), talvez Gilberto Freyre se tenha enganado quanto às origens e talvez tenhamos de considerar que foi fundamental o contributo do sistema social e escravocrata do Ndongo para a formação do Brasil e das colónias 'ibéricas' da América.
É pelo termo crioulo que podemos atingir essa conclusão – mas não só, também a partir do estudo dessa sociedade colonial já realizado por tantos investigadores. Aí o crioulo é de nossa criação, é o criado no quintal do senhor, em convívio até com os filhos do senhor. Por isso começou a chamar-se de crioulo a todo o que nascia e crescia no quintal, fosse filho de reinol (ou seja: nascido no 'Reino' – Portugal ou Espanha), ou fosse filho de escravo. Também a palavra criado possui a mesma genealogia. Os criados e as criadas eram criação do quintal do senhor, eram de kijiku, do quintal e da casa senhorial.
No sistema escravocrata luso-brasileiro também havia mobilidade social e, por vezes, o escravo (quando letrado, sobretudo) ascendia a posições determinantes – por exemplo fazendo a contabilidade das fazendas, escrevendo as cartas do seu amo. Também nesse sistema havia os escravos de casa e os outros. A causa dessa divisão não era a mesma, a estrutura que ela criava era e creio que o modelo pode bem ter-se inspirado no reino do Ndongo e ter sido levado para o Brasil – independentemente das coincidências com outros sistemas, por exemplo os do Norte de África. Para tirarmos isso a limpo é que é necessário fazermos uma leitura comparada dos vários sistemas escravocratas da época. Mas o importante aqui é a hipótese de, por influência dos conhecimentos que os 'portugueses' iam tendo da organização social Ndongo (e outras afins), eles próprios começarem a reproduzir um sistema social africano integrando-o (logo, transformando-o para adaptá-lo), integrando-o no próprio sistema social que estavam a criar no Brasil e nas colónias em geral.
Isto implica também que o conceito de crioulo, nesta sua aceção histórica, estava já na cultura e na estrutura social do Ndongo. A partir daí podemos estudar como se foram crioulizando, em pleno reino do Ndongo, povos de outras origens que tinham sido inicialmente escravizados e depois eram integrados no sistema social local, construindo assim crioulizações intracontinentais. É toda uma nova linha de pesquisa que se pode abrir aí, quer para os estudiosos do sistema escravocrata luso-brasileiro, quer para os estudiosos das culturas africanas pré- e para- coloniais (se por coloniais entendermos apenas as colonizações por povos europeus vindos pelo mar).
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