No século XIX havia um interesse generalizado por livros e leitura. Criou-se um amplo mercado livreiro, internacional, o que permitiu superar a fase dos mecenatos e sem descolorir as produções nacionais, tão procuradas quanto as estrangeiras – portanto também sem se reduzir a produções locais. Uma prova disso mesmo eram os anúncios de jornais. A procura de livros era tão intensa que, não só os livreiros, ou comerciantes genéricos, anunciavam os títulos disponíveis, também os leitores publicavam anúncios procurando obras específicas – e esses leitores não eram apenas estudantes nem apenas homens. Havia um público diversificado e generalizado.
Um exemplo desses anúncios podia ser assim:
Procura-se História Oficial da Literatura Brasileira, podendo também ser da portuguesa, caboverdeana, moçambicana ou de qualquer outro país. Resposta a este jornal ao n.º X.
Infelizmente, em países de longa tradição fradesca e autoritária, os especialistas no ramo passaram da bajulação do Mecenas à bajulação do editor e, com o tempo, o comércio dos livros foi decaindo de tal maneira que hoje em dia caiu no excesso de oferta sem importância, sustentado por best-sellers previamente programados e propagandeados como tais pelas grandes editoras e por escritores com acesso à divulgação via TV ou rádio nos horários mais escutados. Tais títulos são, originalmente, quase todos de língua inglesa. Por esses e outros motivos as literaturas nacionais tornam-se decrépitas e, para cuidar dos cadáveres, convocam-se os urubus de serviço a fim de lhes traçarem o elogio fúnebre: uma história oficial da literatura que, no entanto, não se vê em lado nenhum. Pelo que é bastante provável que, nos próximos tempos, o Jornal de Angola venha a receber pedidos de anúncios procurando-a.
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