Avançar para o conteúdo principal

Ferrão antigo



           AO RIO QUANZA

(No Album de Eduardo Neves)
Serpente immensa de prata
coleando em campo verde,
Cauda que ao longe se perde
nos inhospitos sertões,
cabeça posta no oceano
torcendo o corpo em mil voltas,
e co'as escamas revoltas
rasgando o solo em golphões!
Tal és quando a tempestade
do céo rompe as cataratas
e das immensas cascatas
rolam liquidas montanhas!
Trazendo no bojo enorme
que ruge como as crateras
cabanas, colonos, feras
arvores, troncos e penhas!
Mas logo que o sol ardente
as aguas bebe do espaço,
brilhas qual polido aço
mal se vê teu deslisar!
Queria stateficar-te
e sobre o dorço em torpor
vagões aos mil de vapor
velozes fazer rolar.
E da tua foz ao teu berço
mandar-te em milhares d'expressos
força, justiça, e progresso,
tres centelhas redemptoras
da tua aurora futura,
que espantará os milhafres,
e fará das hordas cafres
legiões trabalhadoras.
Mas enquanto esta hora tarda
E o olho vivo domina,
deslisa pela campina
no teu selvagem correr!
E nos concelhos que te orlam
onde mandam prestameiros (1)
do olho vivo rendeiros
deixa a miseria crescer.
'Té que um dia o povo honrado
(embora o mova a cobiça)
venha com força e justiça
a este paiz sem donos
castigar crimes, infamias
solver vergonhas com brios
e levar povos vadios
a serem uteis colonos!
Se acaso essa aurora brilha
e um dia mão redemptora
aqui aportar senhora,
eu saudo este paiz!
Eu! que contra o estrangeiro
dava sangue e vida minha,
entrouxo a malla mesquinha
parto vingado, feliz!!
Mas enquanto essa aurora tarda
e o olho vivo domina
deslisa pela campina
no teu selvagem correr
e nos concelhos que te orlam
onde mandam prestameiros
do olho vivo rendeiros
deixa a miseria crescer.

(José Bernardo Ferrão, Almanach de lembranças para 1889, p. 133)

Comentários

Mensagens populares deste blogue

José da Silva Maia Ferreira - uma biografia atlântica - resumo e notícia

  https://www.amazon.com/Jos%C3%A9-Silva-Maia-Ferreira-Portuguese-ebook/dp/B0CLGDRQ4N https://www.amazon.com/Jos%C3%A9-Silva-Maia-Ferreira-Portuguese-ebook/dp/B0CLGSCYWX?ref_=ast_author_dp Ao fim de muitos anos de pesquisa, da qual fui dando sinais aqui, fragmentários sem dúvida, publiquei finalmente a biografia de José da Silva Maia Ferreira. Como se sabe, t rata-se do primeiro poeta angolano a publicar um livro em Angola, entre o fim de 1849 e o começo de 1850. O título é bem conhecido: Espontaneidades da minha alma: às senhoras africanas .  O que publiquei foi uma extensa biografia centrada na pessoa do poeta e nas pessoas que o antecederam, que o acompanharam, com quem se relacionou. Pelas relações pessoais e sociais estudadas acabei fazendo igualmente um esboço do que foram várias das comunidades atlânticas onde se falava também o português: a angolense (Luanda e Benguela, principalmente), a brasileira (Rio de Janeiro e Recife sobretudo), a portuguesa (Lisboa e Porto), a ...

Bocage em Angola - no século XIX

Por uma santa queres tu passar, E mal sabes que no mundo exaltar Honra e virtude, é uma peta e engano, Como em bom verso disse o divo Elmano (Cordeiro da Matta, «A uma Lucrécia», Luanda, 1887)

Assis Júnior e o segredo da morta - relações intertextuais e biográficas

Um dos patronos da literatura angolana e defensor acérrimo dos interesses legítimos dos filhos da terra, António de Assis Júnior foi, nesse contexto, hábil advogado. Ele veio na sequência de outros que se destacaram durante o século XIX. Mas é particularmente sugestiva a sua comparação com outro notável fundador da ficção angolana, Pedro Félix Machado. O advogado e poeta de Sorrisos e desalentos publicou uma obra baseada na defesa que fez do comerciante Eduardo Braga (Minuta do Agravo do Despacho de Pronúncia de Eduardo Braga). Braga fora acusado - segundo parece, injustamente - de estar ligado à famosa revolta do ossoma Ndunduma (Bié, 1890), contra as autoridades coloniais. Assis Júnior também nos legou uma obra resultante, em grande parte, da sua atividade como advogado. Envolvido na defesa jurídica dos filhos da terra expoliados, acabou sendo preso e sofrendo, ele próprio, em 1917, as arbitrariedades que denunciava. Deixou-nos um relato de todo o processo, o qual se tornou mais um...