Avançar para o conteúdo principal

Mário Vargas Llosa prémio Nobel da literatura

O Prémio Nobel da Literatura anda, a meu ver, descredibilizado. A causa disso está na menorização dos aspetos estéticos e da originalidade do escritor. Em todas as últimas atribuições parece-me que foi sempre critério principal, para atribuição do prémio, o empenhamento político-social do autor - critério amplamente duvidoso no que toca às garantias estéticas e que levou uma série de falsos poetas a considerarem-se grandes escritores só porque não escreviam a linha até ao fim, ou porque se dispensavam de colocar a pontuação. 

De qualquer modo o Nobel é, ainda hoje, o mais importante prémio literário mundial. E, desta vez, como em algumas poucas vezes das últimas, o júri (que tem uma média de idades bastante avançada) conseguiu encontrar uma obra e um autor equilibrados e coerentes. 

Um dos traços salientes na obra de Mário Vargas Llosa é, precisamente, o de equilibrar uma acutilante consciência política e social, aberta sempre à defesa da liberdade humana e individual, com uma procura constante de rigor, elaboração e subtileza estéticas. É isso que faz dele um grande escritor. 

Como político foi sempre coerente com a busca da liberdade, contra todo o tipo de autoritarismo, viesse ele da esquerda ou da direita. Por isso foi vítima dos extremismos de uma e outra extrema. Não se pode, porém, dizer um moderado: é radical na defesa da liberdade. Isso o levou a romper com a ditadura castrista, com a esquerda totalitária e neonativista latinoamericana, como antes e sempre com o sistema de castas que vigora no Perú e que deixa pouca margem de manobra real às iniciativas e à criatividade do cidadão vulgar. 

Como escritor nunca parou de ler, não caiu na tentação de estagnar e começar a escrever sempre igual - ainda que isso não implique a inexistência de recorrências, naturais e necessárias. Ressalta o sentido rítmico das frases e do discurso (com repetição cíclica de 'refrões'), um traço partilhado com outros ficcionistas latinoamericanos como o argentino - nascido em Bruxelas - Julio Cortázar; salienta-se também a descrição fragmentária mas incisiva, a linguagem exata, que chama as coisas pelos nomes e mostra a realidade em bruto, sem convenções sociais ou ideológicas prévias, que forçam, mutilam e empastilham tudo. Notar ainda as rápidas trocas de enunciação, sobretudo trocas de voz entre personagens e narrador, sem aviso nem distância gráfica, imitando a perceção da vertigem sincrónica do quotidiano espaço público, violado por uma alucinante agressão de falas, rostos, fotografias, fragmentos em simultâneo. Essas trocas ampliam-se da enunciação para a intriga, cruzando-se vários tempos, várias gerações e episódios diferentes como que numa mesma fala, saltando-se de um tempo para outro sem aviso, bruscamente, para surpreender o leitor e obrigá-lo a pensar no que está a ler. Ao ler Conversa na catedral são estes os traços mais salientes com que deparamos. 

Dispenso-me aqui de listar uma cronologia e uma bibliografia exaustivas. Apenas manifesto o meu contentamento pela atribuição do prémio e explico porquê. O leitor pode encontrar esses e outros elementos meramente factuais no sítio oficial do escritor e em muitas páginas da 'net' - algumas das quais copiam informações dali sem o dizerem. A sua morada na rede mundial é: www.mvargasllosa.com/ 

Algumas conferências,  um dos contos e a obra Conversa na Catedral podem ser apanhadas em rede (a última zipada). É ir ao Google e perguntar.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

José da Silva Maia Ferreira - uma biografia atlântica - resumo e notícia

  https://www.amazon.com/Jos%C3%A9-Silva-Maia-Ferreira-Portuguese-ebook/dp/B0CLGDRQ4N https://www.amazon.com/Jos%C3%A9-Silva-Maia-Ferreira-Portuguese-ebook/dp/B0CLGSCYWX?ref_=ast_author_dp Ao fim de muitos anos de pesquisa, da qual fui dando sinais aqui, fragmentários sem dúvida, publiquei finalmente a biografia de José da Silva Maia Ferreira. Como se sabe, t rata-se do primeiro poeta angolano a publicar um livro em Angola, entre o fim de 1849 e o começo de 1850. O título é bem conhecido: Espontaneidades da minha alma: às senhoras africanas .  O que publiquei foi uma extensa biografia centrada na pessoa do poeta e nas pessoas que o antecederam, que o acompanharam, com quem se relacionou. Pelas relações pessoais e sociais estudadas acabei fazendo igualmente um esboço do que foram várias das comunidades atlânticas onde se falava também o português: a angolense (Luanda e Benguela, principalmente), a brasileira (Rio de Janeiro e Recife sobretudo), a portuguesa (Lisboa e Porto), a ...

Bocage em Angola - no século XIX

Por uma santa queres tu passar, E mal sabes que no mundo exaltar Honra e virtude, é uma peta e engano, Como em bom verso disse o divo Elmano (Cordeiro da Matta, «A uma Lucrécia», Luanda, 1887)

Plínio Palhano

Plínio Palhano é um desses extraordinários criadores pernambucanos cuja obra fica mal conhecida fora de um círculo ou circuito estrito. Desde poetas como Carlos Pena Filho, ou Alberto Cunha Melo, ou Ângelo Monteiro e Lucila Nogueira, até este artista plástico a arte e a literatura de Pernambuco, particularmente de Olinda-Recife, continua a constituir uma experiência instigante para estudiosos e apreciadores. Talvez recursos como a Internet estejam subaproveitados por alguns destes criadores artísticos. Atualmente foi colocada em rede uma mostra significativa, que vale mesmo a pena visitar, de quadros de Plínio Palhano. Para ela remeto os visitantes do blogue. É só clicar em Plínio Palhano