Apesar do excesso de tiques próprios das receitas para escrita ensaística, o livro A música no seu cérebro, de Daniel J. Levitin, lê-se com agrado e, sobretudo, ensina-nos muito sobre as relações entre arte, neurobiologia, Gestalt, psicologia evolutiva e ciências cognitivas. Juntando essas disciplinas o autor dá-nos uma panorâmica segura e completa sobre como funciona a música no nosso cérebro, desfazendo falsas ideias feitas e muito divulgadas até hoje. O que ele diz acerca da música também serve para a literatura em muitos casos. Claro que há aspetos meramente musicais referidos, como outros literários não referidos, mas todo o interessado em literatura lucra com esta leitura.
As investigações e asserções de Levitin permitem-nos fundamentar com precisão tópicos da teoria literária demonizados pelos relativismos niilistas, que fizeram do campo raso e queimado o símbolo da reflexão… inútil. A partir dessa obra (como de outras, por exemplo as de António Damásio e Denis Dutton) compreendemos os fundamentos neurológicos de mecanismos como os da antecipação percetiva, construção de padrões que orientam a leitura (e, portanto, formam de maneira mais precisa o nosso horizonte de expectativa); compreendemos ainda que a base de conceitos indissociáveis da poesia como os de ritmo, harmonia, prosódia, está em fenómenos tão simples e tão bem estudados quanto as vibrações sonoras, a vibração que faz o ouvido perceber um som e que, pela sua própria natureza e identidade, chama logo por mecanismos recetivos que, examinados e desenvolvidos por esses instrumentos desenvolvidos de autorregulação dos sistemas artísticos que são os géneros, as espécies, as formas mais ou menos fixas, as estratégias retóricas, nos levam a apanhar rapidamente a estrutura de uma obra – o que faz desde logo parte do desfrute, do deleite com que a ouvimos. Em frações de segundos, ouvidos apurados identificam uma música e um género musical, por exemplo, ou uma época. Como lembra Levitin, "aos 5 anos, as crianças já aprenderam a reconhecer as progressões de acordes de sua cultura" e "estão formando esquemas" que dizem respeito aos tipos de harmonias, sequências, músicas, interpretações (p. 134).
Tais processos prendem-se ainda com recursos próprios do funcionamento mental como os do agrupamento, que nos permite, a partir de um só estímulo, ativar um conjunto de fenómenos, toda uma estrutura, o conjunto de conhecimentos sobre um género literário, etc. É em função disso que devemos treinar a nossa memória a partir de sinais, marcadores, visuais, auditivos ou nominais (a partir de uma palavra lembramos o esquema de um capítulo, por exemplo). Por isso muitas vezes os oradores falam a partir de meia dúzia de palavrinhas que escrevem num papel, minúsculo que seja.
Entre os processos de agrupamento Levitin lembra que, "em terceiro lugar, desenvolvemos, como ouvintes, o conhecimento de normas estilísticas e, como músicos, o conhecimento sobre a produção dessas normas". Podemos agrupá-las "na memória de forma holística, para em dado momento recuperar todas as caraterísticas deuma só vez" (p. 246).
Tais conclusões nos obrigam a repensar toda a impugnação (com mais de um século de existência) dos géneros literários enquanto categorias válidas para o estudo das artes da palavra. Aliás, após mais esta contribuição das ciências cognitivas (alicerçada neste caso na neurobiologia, na psicologia evolutiva, na Gestalt, na informática) as posições costumeiras da Teoria Literária do fim do século passado e começo deste ficarão cada vez mais claramente ultrapassadas. Vê-se, lendo esta e outras obras recentes, o quanto são artificiais, fechadas em si próprias e mesmo preguiçosas a maioria das reflexões teóricas sobre arte e literatura nas últimas décadas. Não só, portanto, o que nos é dito, habitual e 'corretamente' sobre géneros literários. Porém esse campo do exercício reflexivo sobre a literatura (a crítica da genologia) aparece depois desta leitura com o seu verdadeiro rosto: o de uma mistificação, preparada para leitores que não sabem nem querem saber de estudos científicos sobre os aspetos psíquicos envolvidos na comunicação e na formulação artísticas. E vê-se que a literatura não é somente subjetiva, pelo contrário, é profundamente objetiva – podendo, por consequência, ser objetivamente estudada.
(Daniel J. Levitin - A música no seu cérebro: a ciência de uma obsessão humana. Trad. Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. - Rev. técnica do maestro Ricardo Prado).
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