Há dias assim: caem-nos várias notícias fatais ao mesmo tempo em cima. Por telefone me diz um amigo que o escritor Wilson Bueno tinha sido morto à facada faz uns dias. Fui ver notícias e fora assassinado por um garoto de programa – lembra-me alguém, creio de Coimbra, creio que também escritor que em Coimbra foi assim assassinado. Muitas considerações de ordem moral andam à volta do caso mas o que interessa é que morreu um escritor. Eu nunca li nenhum livro de Wilson Bueno, só ouvia falar nele. Segundo o jornal Correio braziliense, "o escritor tinha entregue ainda um original, ainda inédito, chamado Mano, a noite está velha, sem data para publicação".Quem sabe será esse o primeiro livro dele que vou ler. O resto é com a polícia.
Outra morte, a de António Manuel Couto Viana – um homem grande, alto, com postura direita e cabelos lisos, óculos de lentes grossas e que falava com aquele 'sotaque' popularmente chamado 'sopinha de massa'. Também ouvi dizer várias vezes que era homossexual. Pouco me preocupo com isso, desde que me deixem em paz. Conheci-o por sermos os dois monárquicos e porque nutria simpatia por ele a partir do momento em que o achei um bom poeta marginalizado pelas suas opções políticas. Acho sempre injusta a marginalização, muito mais por opções políticas ou partidárias ou religiosas. Descobri que ele era também um nacionalista de direita, neo-fascista como declaradamente se definiu quando fui visitá-lo a sua casa e em público. A sua era uma casa recheada de livros, literalmente, do chão ao teto. A maioria deles de poesia lírica, alinhados numa biblioteca muito bem organizada. Já tinha então lido os seus poemas, que sempre admirei – embora, naturalmente, mais uns do que outros. Mostrou-me um desenho que fez com o hino da Mocidade Portuguesa e explicou-me o que era para ele isso de nacionalismo, direita, fascismo, neo-fascismo. Explicou-me porque lhe perguntei. Falou-me sobretudo nos ideais de companheirismo e de afirmação nacional e tradicional sem mácula para as outras nações (apesra do portuguesismo compreendia, portanto, o nacionalismo angolano desde que ligado às suas próprias tradições; considerava o rei do Kongo e o rei Zulu como amigos e chefes de nações, lembrando que era essa a posição de D. Duarte, o herdeiro do trono português). Nunca me tentou, nem nesse nem em outros momentos, incutir uma ideologia e nunca tomou nenhuma atitude que sequer o revelasse como homossexual. Aceitaria ditaduras (que não via como tal, achava que o eram só para os partidos e que os partidos faziam sempre alguma ditadura). Mas não era, seguramente, um ditador. Era um homem educado, respeitador da liberdade dos outros.
Multifacetado, foi ator, ensaísta, jornalista cultural, declamador (excelente), especialista em culinária e vinhos, desenhista. Manifestava uma autêntica devoção pela poesia e uma especial dedicação aos poetas menos conhecidos. Falou-me de muitos nomes que eu ignorava, li alguns e valeu a pena (lembro-me, por exemplo, de Jacinto Soares de Albergaria). Conhecia como ninguém a poesia portuguesa do século XX. Lembro-me também de que escreveu seis sonetos sebastianistas de uma rara espiritualidade. Revelou sempre uma aguda perceção de Portugal se encontrar no seu fim mas, com galhardia, acompanhava esse fim com o mesmo sentido de companheirismo que o terá levado à Mocidade Portuguesa dos tempos de Salazar. Disse-lhe o que pensava sobre Salazar, particularmente no que respeita a Angola, e ele compreendeu: não mostrou desagrado nem ripostou. Leu-me um dos seus poemas escritos com a mente em Angola, sobre Massangano, que terminava assim: e chega um dia alguém que olha isto tudo e chora.
Vendo hoje, à distância, Couto Viana pertencia a um grupo especial dentro do salazarismo, mais fascizante e que incluiria Goulart Nogueira, poeta e declamador também. Era um grupo ligado às artes e letras, que tentou fazer uma espécie de neo-realismo à direita. Não sei se a ligação à monarquia viria daí (Mussolini procurou e conseguiu aliar-se ao Rei, que no entanto instrumentalizou) ou das tradições familiares. Aposto mais na segunda hipótese, porque me falou sempre muito dessas tradições (achando no entanto graça ao tio Abílio – Guerra Junqueiro – e dando-me dele facetas caseiras muito engraçadas). Conhecia bem e cultuava o cunho monárquico português, especialmente no que diz respeito aos tempos anteriores ao liberalismo. Como talassa, acreditava que o liberalismo era já uma espécie de república.
Foi um dos mais importantes poetas da revista Távola redonda, que revelou para os portugueses, desde muito cedo, a lírica de M. António. Falou-me de Mário António, de quando se conheceram em Luanda, da especial sensibilidade e inteligência dele e de como foi esmagado pelas circunstâncias políticas da época. Falou-me de outros poetas e escritores ilustres e hoje mal conhecidos: António de Navarro (de que recordo sempre as Guitarras em madeira d'asa), Alberto de Serpa, Edmundo de Bettencourt (da sua ligação, também, ao fado de Coimbra; do desequilíbrio mental por que passou), Tomaz de Figueiredo (Uma noite na toca do lobo), Sebastião da Gama. Fazia deles retratos vivos, de uma incrível perspicácia psicológica, ao mesmo tempo em que falava com precisão das virtudes e dos defeitos das respetivas obras – com aquela precisão que nos torna imparciais. Contou-me longamente da amizade com David Mourão Ferreira (um devoto, como eu, do encanto feminino), da progressão ou depuração poética dele, do ensaísta e do académico. Chamou-me a atenção para os desenhos seus (Couto Viana) que estavam na Távola redonda, porque essa faceta de desenhista muita gente não conhecia – e não conhece ainda hoje. Nunca me deu um conselho – e fez bem: isso podia soar a uma admoestação, vista a estatura dele.
Que a terra vos seja leve.
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